Especialista avalia que ações recentes do país norte-americano mostram que ainda enxergam o continente como sua área de influência
Trump concedeu entrevista após a operação na Venezuela (Joe Raedle/AFP)
O doutor em relações internacionais João Carlos Jarochinski Silva, professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), avalia que a invasão das forças dos Estados Unidos à Venezuela e a retirada do presidente Nicolás Maduro do poder servem como um recado à América Latina.
Segundo o especialistas, o presidente americano Donald Trump “tenta consolidar a ideia de que a América Latina é um espaço de influência dos Estados Unidos e não aceitam interferência de outras potências”.
Na madrugada, soldados norte-americanos retiraram Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores à força do país para que fossem julgados em Nova York. Conforme o professor, os atos de Donald Trump na região nos últimos meses são uma amostra de que a interferência deve aumentar.
“Historicamente isso aconteceu diversas vezes, eles interviram em diversos países, mesmo nesse governo Trump. A atuação que os Estados Unidos tiveram em relação à eleição do legislativo na Argentina, do governo Milei, a questão dos empréstimos, liberação de recursos. É uma lógica intervencionistas e tem se tornado cada vez mais frequente no âmbito do governo Trump”, disse em entrevista ao A Crítica.
O professor destaca que a atitude de Donald Trump gera um cenário de preocupação frente às eleições marcadas para os próximos meses no Brasil, Peru e Colômbia, ambos países governados pela esquerda e centro-esquerda, com a intervenção na Venezuela sendo uma mensagem direta dos Estados Unidos aos países latinos.
João Pedro Jarochinski avalia também que o ataque dos Estados Unidos à Venezuela mostra um enfraquecimento do direito internacional e da própria lógica do multilateralismo, que preza pela busca de consensos e soluções conjuntas.
“O segundo aspecto, bastante significativo, é a busca de alguma justificativa perante a população dos EUA para eventuais ações que venham a ser desenvolvidas pelas forças armadas dos EUA fora do seu território. Vale destacar que esse foi um tema bastante importante na campanha. O Trump criticou muito a participação, a intervenção dos Estados Unidos em outros conflitos e, de certa forma, tem levado, já teve a incursão no Irã, tem essa incursão [na Venezuela]”, disse.
Outro ponto é de que a retirada de Nicolás Maduro do poder não significa necessariamente a queda do chavismo na Venezuela, tendo a possibilidade de fortalecer grupos internos a depender da capacidade de articulação do sistema. O professor lembra que o movimento, por mais que tenha tido diversas rupturas, governa a Venezuela há mais de 20 anos.
“Um outro aspecto que acho que vale a pena destacar também é que a ação pontual de retirada, que causa embaraços do ponto de vista judicial, da competência dos tribunais americanos, que enfraquece a competência dos tribunais internacionais para as resoluções do conflito, é que os EUA em nenhum momento têm se manifestado sobre qual é o papel deles um eventual processo de mudança, de reconstrução da Venezuela”, destacou.
À imprensa, o presidente Donald Trump afirmou que os Estados Unidos irão administrar a Venezuela interinamente até haver uma transição de governo.
Sobre os possíveis impactos no Brasil, o professor João Paulo aponta a possibilidade de haver novos fluxos migratórios da Venezuela, mais refugiados fugindo de uma eventual guerra, fazendo com que o governo federal deva se atentar a aparato de fronteira.
Do ponto de vista econômico, Roraima e Amazonas podem ser muito impactados, já que a Venezuela é um grande destino de exportações de produtos fabricados nas unidades federativas.
“Isso também pode ter consequências econômicas na questão da própria dinâmica dos negócios que são realizados entre Brasil e Venezuela, que estão mais concentrados obviamente nos dois estados do Norte do país. Acho que essas são as consequências mais imediatas que a gente consegue enxergar”, completou.
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