Professor da Ufam e da UEA, o otorrinolaringologista Diego Carvalho alerta para sinais que exigem investigação médica, como sangramentos frequentes e perda persistente do olfato
Médico otorrinolaringologista e pesquisador Diego Carvalho (Foto: Junio Matos)
Nariz entupido, espirros frequentes, coriza e dores na face costumam ser associados a quadros de rinite ou sinusite. Por serem sintomas comuns, muitas pessoas convivem durante meses ou até anos com esses incômodos sem procurar atendimento especializado. O problema é que, em alguns casos, sinais aparentemente simples podem esconder doenças mais complexas.
Dados do Ministério da Saúde apontam que a rinite afeta cerca de 20% a 25% da população brasileira e está entre os motivos mais frequentes de atendimento na Atenção Primária à Saúde. Mesmo assim, a doença ainda é frequentemente subdiagnosticada e tratada de forma inadequada.
Segundo o otorrinolaringologista Diego Monteiro de Carvalho, professor e pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), é preciso atenção quando os sintomas fogem do padrão esperado de uma rinite ou sinusite comum. “Nem todo nariz entupido é ‘só alergia’”, alerta o médico.
(Foto: Junio Matos)
ATENÇÃO AOS SINTOMAS
De acordo com o especialista, alguns sintomas funcionam como sinais de alerta e exigem avaliação médica.
O otorrinolaringologista Diego Carvalho alerta que sintomas persistentes, como obstrução nasal e perda de olfato, podem indicar doenças mais graves do que uma simples rinite. Foto: Junio Matos
Ele também chama atenção para quadros que afetam apenas um lado do nariz. “Sintomas que só aparecem de um lado: nariz entupido, sangramento ou secreção unilateral”, destaca o especialista.
(Foto: Junio Matos)
Segundo Diego Carvalho, esse tipo de manifestação não costuma ocorrer nos quadros mais comuns. “Rinite e sinusite comum costumam ser dos dois lados e melhorar em até 10 a 14 dias”, explica Carvalho.
DOENÇAS PODEM SE PARECER COM ALERGIA
Embora a rinite alérgica continue sendo uma das doenças respiratórias mais frequentes no país, algumas condições mais graves podem apresentar sintomas semelhantes no início. Entre elas estão doenças autoimunes, inflamatórias e até tumores.
“Granulomatose com poliangeíte: causa crostas no nariz, sangramento, dor e deformidade nasal. Sarcoidose: pode dar obstrução nasal, nódulos e crostas. Lúpus e outras doenças reumáticas: às vezes começam com feridas no nariz e sinusites de repetição”, explica o médico.
O especialista também destaca situações que exigem investigação rápida. “Tumores nasais ou de seios da face: costumam ser unilaterais, com sangramento e obstrução que só piora”, afirma.
Na região amazônica, o professor lembra ainda da leishmaniose mucosa. “Em nossa região, temos também a leishmaniose mucosa, que pode advir após um quadro de pele da doença”, ressalta.
Por isso, segundo o médico, a avaliação clínica deve considerar todo o histórico do paciente. “Nem tudo que parece rinite é rinite.”
ERROS COMUNS
Um dos principais problemas observados nos consultórios é a normalização de sintomas respiratórios persistentes.
“‘É só alergia, sempre tive’. Sinusite crônica ou desvio de septo importante ficam anos sem diagnóstico porque a pessoa acha normal viver entupida”, afirma.
Outro hábito frequente é o uso prolongado de descongestionantes nasais.
“Abuso de descongestionante nasal em gotas: Neosoro, Sorine etc. Depois de cinco dias, causam ‘efeito rebote’ e viciam o nariz. O paciente fica dependente”, alerta.
A automedicação com antibióticos também preocupa.
Carvalho explica que 80% das sinusites são virais. Tomar antibiótico sem necessidade cria resistência e não resolve.
Para o especialista, ignorar determinados sintomas pode atrasar diagnósticos importantes. “Normalizar é perigoso porque atrasa o diagnóstico de coisas que tratamos melhor no início.”
Quando procurar o médico?
O médico recomenda buscar avaliação especializada sempre que os sintomas se tornarem persistentes ou recorrentes.
“Procure um otorrinolaringologista se os sintomas durarem mais de 12 semanas, pois neste caso já consideramos rinossinusite crônica”, orienta.
Também merecem atenção pacientes que apresentam mais de quatro episódios de sinusite por ano, perda persistente do olfato ou dependência de sprays nasais. “Mais de quatro episódios de sinusite por ano com necessidade de antibiótico”.
Entre os sinais considerados urgentes estão complicações envolvendo olhos e sistema nervoso.
“Sinais que merecem atendimento urgente: febre alta + inchaço ao redor do olho, visão alterada, dor de cabeça incapacitante, confusão mental.”
Rinite também merece tratamento
Diego Carvalho reforça que a própria rinite alérgica não deve ser negligenciada.
“Vale lembrar que, apesar de estarmos falando de outros tipos de doenças nasais, a rinite alérgica é a causa mais comum de espirros e irritação nasal e, quando mal controlada, piora asma, sono, produtividade e qualidade de vida”, afirma.
Segundo o médico, o tratamento adequado geralmente começa com medidas simples.
“Lavagem nasal com soro e corticoide nasal são a base, não antialérgico todo dia”, explica.
Ele destaca ainda que fatores ambientais exercem influência direta sobre os sintomas.
“Mofo, pó, ar-condicionado sujo e fumaça de cigarro são gatilhos potentes. De nada adianta o remédio mais caro se você dorme em um quarto empoeirado ou num colchão com ácaros.”
Investigação faz diferença
O Ministério da Saúde estima que cerca de 20 milhões de brasileiros convivam com asma, doença que frequentemente está associada à rinite alérgica e que continua entre as principais causas de internação no Sistema Único de Saúde (SUS). Para Diego Carvalho, sintomas respiratórios persistentes nunca devem ser encarados como algo normal.
“Por fim: sintomas respiratórios crônicos têm causa. Se algo está durando meses, piorando ou fugindo do ‘padrão’, vale uma avaliação especializada.”
Segundo ele, exames simples realizados pelo otorrinolaringologista costumam ajudar a identificar a origem do problema.
“Uma avaliação especializada, normalmente seguida de um exame de endoscopia nasal, ajuda demais no diagnóstico”, conclui.