Segundo Isolda Prado, uma das principais preocupações é o uso de medicamentos sem prescrição ou por pessoas que até possuem indicação, mas não têm acompanhamento adequado durante o tratamento.
Médica nutróloga e professora Isolda Prado, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) e professora de Nutrologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) (Foto: Divulgação)
A chamada “agonorexia” tem preocupado especialistas diante da disseminação de dietas extremamente restritivas e do uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento.
A prática envolve, muitas vezes, estratégias encontradas nas redes sociais, grupos de condomínio e outras comunidades, com promessas de perda rápida de peso e sem avaliação individualizada. O alerta é da médica nutróloga e professora Isolda Prado, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN) e professora de Nutrologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que conversou com a reportagem durante o 30º Congresso Brasileiro de Nutrologia (CBN 2026), realizado em setembro, em São Paulo, com apoio e divulgação da Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN).
Segundo Isolda Prado, uma das principais preocupações é o uso de medicamentos sem prescrição ou por pessoas que até possuem indicação, mas não têm acompanhamento adequado durante o tratamento. “O que tem preocupado é seguir propostas dietoterápicas absurdas e medicamentos sem acompanhamento”, afirma. Ela explica que o uso inadequado pode provocar desidratação, comprometer o funcionamento dos rins, causar perda de massa muscular e levar a deficiências de micronutrientes. Em alguns casos, os prejuízos podem atingir também a capacidade cognitiva e deixar consequências duradouras.
A especialista também chama atenção para dietas que praticamente eliminam grupos alimentares, como as versões com baixo consumo de carboidratos, aquelas baseadas quase exclusivamente em proteínas e as chamadas dietas do ovo, da sopa ou de líquidos.
“O que preocupa são as pessoas pararem de comer totalmente”, alerta. De acordo com a nutróloga, estratégias que reduzem o apetite de maneira muito intensa, sem considerar a qualidade e a quantidade dos alimentos ingeridos, podem representar um risco importante à saúde. A perda de peso, explica, deve ocorrer de forma planejada, com alimentação adequada e atividade física regular, e não a partir de métodos extremos.
Para a médica, o tratamento da obesidade precisa ser construído a longo prazo e pode incluir diferentes estratégias, entre elas as chamadas dietoterapias, sempre de acordo com as necessidades de cada pessoa. Ela destaca ainda modelos alimentares que podem contribuir para a saúde, como a dieta mediterrânea e a dieta MIND, esta última associada à preservação da saúde cerebral e à prevenção ou retardamento do declínio cognitivo. “A alimentação precisa alcançar as metas e ter atividade física sequencial”, ressalta Isolda, reforçando que não existe uma fórmula única que possa ser aplicada indistintamente a todas as pessoas.
Outro ponto destacado pela nutróloga é a importância de priorizar alimentos in natura e valorizar produtos regionais. Entre as opções consideradas mais saudáveis estão azeite, peixes, frutas, especialmente as vermelhas, enquanto o consumo frequente de carnes vermelhas em excesso, manteiga, frituras e alimentos ultraprocessados deve ser reduzido. Isolda reconhece que o custo e a praticidade influenciam as escolhas alimentares, mas ressalta que existem alternativas acessíveis. “A Amazônia é rica em frutas”, observa, defendendo o estímulo ao consumo de alimentos regionais como parte de uma alimentação mais diversificada e equilibrada.
A orientação, portanto, é desconfiar de propostas que prometem emagrecimento rápido ou apresentam dietas e medicamentos como soluções universais. Para a especialista, a alimentação adequada precisa ser estruturada de maneira individualizada e sustentável, levando em consideração as condições de saúde, a rotina e as necessidades nutricionais de cada pessoa. “Formas loucas de estratégias” oferecidas pelas redes sociais podem ignorar justamente o que deveria estar no centro do processo: garantir que a pessoa emagreça sem comprometer a própria saúde.