Saúde

Ansiedade, estresse, tristeza e até tédio podem se ‘disfarçar’ de fome

O que fazer quando a comida passa a ser usada para aliviar emoções? Quando é hora de buscar ajuda?

Gabrielly Gentil
03/10/2026 às 19:15.
Atualizado em 03/10/2026 às 19:15

(Foto: Divulgação)

Nem sempre a vontade de comer aparece porque o corpo está com fome. Ansiedade, estresse, tristeza, frustração e até o tédio podem fazer com que a pessoa procure na comida uma forma de se sentir melhor. É o que pode acontecer na chamada fome emocional.

Mas como perceber essa diferença no dia a dia? O nutricionista Felipi Fernandes explica como identificar esse comportamento e fala ainda sobre os efeitos das dietas restritivas e da pressão para emagrecer na relação com a comida.

(Foto: Divulgação)

 O que é fome emocional e como ela se diferencia da fome que sentimos quando o corpo precisa de alimento?

A fome emocional acontece quando a vontade de comer está muito mais ligada ao que a pessoa está sentindo do que necessariamente a uma necessidade fisiológica de energia. Ansiedade, estresse, tristeza, frustração e até tédio podem fazer a pessoa buscar na comida

É fome mesmo?

Já a fome fisiológica normalmente vai aparecendo aos poucos e tende a ser mais flexível. Você sente que precisa comer e diferentes alimentos podem resolver aquilo. Na fome emocional, muitas vezes existe uma urgência maior e uma procura muito específica por determinado alimento, mesmo sem uma fome física tão presente.

Quais sinais indicam que a pessoa pode estar comendo por ansiedade, estresse ou outras emoções?

Um sinal importante é perceber que a vontade de comer aparece repetidamente depois de determinadas situações. A pessoa teve um dia muito estressante, ficou ansiosa, discutiu com alguém, está frustrada e automaticamente procura comida. Também pode existir aquela sensação de “eu nem estava com fome, mas quando percebi já estava comendo”, ou uma dificuldade muito grande de parar mesmo depois de estar satisfeita.

Mas eu gosto de tomar cuidado com uma coisa: nem toda vontade intensa de comer é fome emocional. Às vezes a pessoa passou o dia inteiro tentando comer o mínimo possível, pulou refeições, restringiu carboidrato, ficou horas sem comer e à noite sente uma vontade enorme de comer. Isso pode ser simplesmente o corpo respondendo à restrição. Antes de colocar tudo na conta da ansiedade, a gente precisa olhar para como essa pessoa está se alimentando ao longo do dia.

Como as dietas restritivas e a pressão estética podem afetar a relação com a comida?

Esse é um ponto que eu bato bastante: nutrição não deveria causar medo. Quando a pessoa passa muito tempo ouvindo que pão engorda, doce é errado, carboidrato é ruim ou que ela precisa comer perfeitamente para ter resultado, é muito fácil começar a enxergar a alimentação como uma sequência de acertos e erros. E aí pode surgir um ciclo bem complicado: restringe demais, sente vontade, come, acha que “estragou tudo”, sente culpa e tenta compensar restringindo novamente.

Por isso eu prefiro trabalhar com uma alimentação que a pessoa consiga sustentar. O objetivo não deveria ser criar alguém que depende de uma dieta para saber o que pode ou não pode comer. É justamente o contrário: desenvolver autonomia para que ela consiga fazer boas escolhas sem viver com medo da comida.

O que fazer quando a comida passa a ser usada para aliviar emoções? Quando é hora de buscar ajuda?

Primeiro, eu não acho que a solução seja simplesmente retirar os alimentos que a pessoa procura nesses momentos. Se eu tiro o chocolate, por exemplo, mas não entendo por que aquela pessoa precisa do chocolate toda vez que está ansiosa, eu não resolvi o problema. Eu só tirei uma ferramenta que ela estava usando para lidar com alguma coisa.

O trabalho precisa ser entender os gatilhos, organizar melhor a alimentação e, ao mesmo tempo, desenvolver outras formas de lidar com essas emoções. E é justamente por isso que eu acredito muito no trabalho conjunto entre nutrição e psicologia. Tem uma parte do processo que a dieta sozinha não alcança. Quando existe sofrimento frequente, culpa depois de comer, episódios recorrentes de perda de controle, compensações ou quando a relação com a comida começa a afetar a rotina e a qualidade de vida, vale procurar ajuda profissional.

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