Especialistas e empresários avaliam que recuperação da BR-319 pode transformar a dinâmica do transporte de cargas e impulsionar a economia amazonense
(Foto: Daniel Brandão)
O anúncio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o asfaltamento da BR-319 foi destacado pelo presidente e fundador da Bertolini Transportes, Irani Bertolini, durante entrevista concedida ao A Crítica na III Feira e Congresso Internacional de Transporte e Logística, que começou nesta quarta-feira (27), no Centro de Convenções Vasco Vasques, em Manaus.
Para o empresário, a pavimentação da rodovia representa uma mudança histórica para a logística do Amazonas e deve reduzir custos, tempo de entrega e melhorar a competitividade da indústria e do comércio local.
“Hoje a logística já melhorou muito, mas agora, com a felicidade que tivemos do nosso presidente anunciar que vai asfaltar a BR-319, a logística da Amazônia vai mudar completamente. É um ponto de virada”, afirmou.
Segundo Bertolini, atualmente as cargas levam cerca de 15 dias para chegar a Manaus. Com a BR-319 asfaltada, a expectativa é que esse prazo caia para aproximadamente oito dias.
“Hoje a gente chega aqui com 15 dias. Após a BR, vai ficar em torno de oito dias. Então vamos ganhar capital de giro. Hoje temos que trabalhar com capital de giro de 20 a 30 dias para manter a indústria funcionando. Futuramente isso deve cair para 15 dias”, explicou.
O empresário destacou ainda que a mudança deve impactar diretamente nos custos logísticos e no valor do frete.
“Hoje temos 200 carretas em cima de balsas e apenas 50 rodando. Depois nós vamos ter muito mais caminhões circulando. O imobilizado vai diminuir, o tempo vai diminuir e o frete deve diminuir”, disse.
Irani Bertolini afirmou ainda que a nova realidade poderá alterar o equilíbrio entre os modais de transporte utilizados na região.
“O transporte rodoviário vai mudar e a navegação fluvial, que hoje vem de Porto Velho e Belém, vai diminuir muito a carga. Vai sobrar muita barcaça e faltar caminhão”, avaliou.
Ao comentar sobre os impactos das estiagens severas, Bertolini afirmou que o setor precisou se reinventar nos últimos anos, mas considera o asfaltamento da BR-319 a principal notícia para o futuro da logística amazonense.
“Depois de 30 anos brigando, discutindo e buscando maneiras de asfaltar, o Lula foi lá e disse que vai fazer. Estou muito feliz com isso. Agora sai”, declarou.
O presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Vander Costa, destacou a importância estratégica da feira para integrar os diversos modais que fazem parte da realidade amazônica.
“A feira está muito bonita, com grandes empresas dos diversos modais presentes aqui: rodoviário, aéreo e hidroviário. A Amazônia tem essa característica que difere do resto do Brasil. Nós precisamos muito do transporte hidroviário, precisamos do rodoviário e precisamos do aéreo”, afirmou.
Segundo ele, o evento também representa uma importante oportunidade de negócios para o setor logístico nacional. Vander citou como exemplo o anúncio feito durante a programação envolvendo a Transpetro e a Bertolini.
“Hoje pela manhã já foi lançado um investimento de R$ 303,5 milhões com a Transpetro comprando barcaças da Bertolini. É um prazer estar aqui vendo o presidente falando e mostrando a importância e a responsabilidade do governo em promover o desenvolvimento”, disse.
Durante a entrevista, Vander Costa também comentou sobre o compromisso do governo federal com a recuperação da BR-319 e a necessidade de conciliar crescimento econômico e preservação ambiental.
“O governo fez o compromisso e deu a ordem de serviço para recuperar a BR-319, mas está comprometido com o meio ambiente. Nós não defendemos carbono zero, defendemos carbono neutro”, afirmou.
Ele destacou ainda ações ambientais anunciadas por empresas do setor, como a Petrobras, que, segundo ele, pretende investir na recuperação de áreas degradadas.
“A Petrobras anunciou o plantio de mais de um milhão de árvores para recuperação ambiental. A gente não é negacionista. Sou muito adepto ao carbono neutro, mas a gente precisa promover desenvolvimento social e econômico”, ressaltou.
Para o presidente da CNT, o fortalecimento da infraestrutura logística é fundamental para garantir qualidade de vida às comunidades ribeirinhas do Amazonas.
“O ribeirinho do Amazonas tem direito de ter uma qualidade de vida melhor, ter uma renda per capita maior, e isso só acontece com desenvolvimento econômico”, declarou.
Ao falar sobre os desafios enfrentados durante os períodos de seca severa na região, Vander Costa defendeu medidas mais rápidas para garantir a navegabilidade dos rios amazônicos.
“A gente está defendendo muito que sejam autorizadas as dragagens e que as licenças ambientais não precisem ser renovadas anualmente, porque acaba não dando tempo. Quando os rios ficam inavegáveis, a dragagem é importante para manter os canais de navegação”, explicou.
Segundo ele, caso o transporte hidroviário seja comprometido pelas estiagens, a BR-319 se torna essencial para evitar desabastecimento nas comunidades do interior.
“Se não tiver a BR funcionando e o rio estiver seco, vai faltar alimento, remédio e atendimento para as comunidades ribeirinhas. Precisamos pensar grande para o Brasil, com responsabilidade ambiental, mas permitindo o desenvolvimento”, concluiu.
Após os debates do painel “Os desafios da logística na Amazônia”, realizado durante a III Feira e Congresso Internacional de Transporte e Logística, a equipe de A Crítica conversou com o secretário nacional de Hidrovias, Otto Luiz Burlier, que destacou a importância do evento para aproximar o governo federal das demandas da região Norte.
Segundo ele, o encontro reúne representantes da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), Ministério de Portos e Aeroportos, empresários e demais atores do setor logístico para discutir soluções voltadas à realidade amazônica.
“É uma oportunidade para mostrarmos aqui para a sociedade, principalmente aqui no Norte do Brasil, os nossos trabalhos e as nossas iniciativas. E também ouvir da sociedade, dos empresários e de todos os atores locais quais são as principais demandas e problemas, para confirmar se os nossos trabalhos estão indo no caminho certo ou mesmo fazer ajustes no que for necessário para atender as necessidades locais”, afirmou.
Otto Luiz Burlier ressaltou ainda que o desenvolvimento das hidrovias brasileiras depende diretamente da previsibilidade das condições climáticas e da garantia da navegabilidade dos rios amazônicos.
“Para desenvolver as hidrovias no Brasil, a gente precisa gerar previsibilidade. Obviamente os rios dependem muito do clima e das chuvas, então esse é o nosso feijão com arroz. No mínimo, temos que garantir previsibilidade e navegabilidade dos rios”, explicou.
De acordo com o secretário, o governo federal tem trabalhado em parceria com órgãos públicos e instituições acadêmicas para antecipar cenários e minimizar impactos causados pelas secas severas na região.
“Por isso nossa principal preocupação é trabalhar com outros órgãos de Estado e com a academia para ter números mais precisos possíveis, antecipar o nosso trabalho e garantir aquilo que é o nosso objetivo: previsibilidade e navegabilidade dos rios na Amazônia”, concluiu.
Entre os expositores da III Feira e Congresso Internacional de Transporte e Logística, empresas do setor destacaram a importância do evento para fortalecer o mercado logístico da Região Norte e ampliar oportunidades de negócios.
Representando a Prates Navegação e Logística, David Prates afirmou que a feira reforça a relevância do transporte para o desenvolvimento da Amazônia.
“Estou muito feliz com a feira, totalmente voltada para o setor de transporte. A expectativa é enorme e é uma satisfação fazer parte desse empreendimento tão bonito e de extrema importância para a nossa região amazônica”, destacou.
Com sede em Manaus, a empresa atua no transporte de cargas pesadas, projetos especiais e instalação de cabos subfluviais na região amazônica.
Já o diretor comercial da Actual Cargo, Marcos Sabino, ressaltou a trajetória da empresa e a visibilidade nacional que o evento proporciona ao setor logístico do Norte do país.
“A Actual Cargo completa este ano 42 anos de mercado. Hoje trabalhamos com transporte aéreo e rodoviário e estamos com uma expectativa muito positiva, porque a feira está abrindo portas e trazendo para a Região Norte uma maior visibilidade para todo o Brasil”, afirmou.
Segundo ele, a empresa opera no envio de cargas do restante do país para Manaus e também da capital amazonense para outros estados.
“Esperamos que esses três dias sejam de excelentes negociações para todos. Os organizadores estão de parabéns”, completou.
Manaus recebe, desde esta quarta-feira (27), a III Feira e Congresso Internacional de Transporte e Logística, considerado um dos principais eventos do setor na Região Norte. A programação acontece até sexta-feira (29), no Centro de Convenções Vasco Vasques, com discussões voltadas à logística, navegação, indústria naval, comércio eletrônico e reforma tributária.
A proposta do encontro é consolidar a capital amazonense como referência estratégica no segmento de transporte e logística no Brasil e na América Latina. Nesta edição, o evento conta, pela primeira vez, com a participação de entidades nacionais e internacionais, entre elas a Confederação Nacional do Transporte (CNT), a Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac) e a Câmara Internacional da Indústria de Transporte (CIT).
A feira reúne representantes de mais de 50 países, além de empresários, especialistas, autoridades e profissionais do setor. A programação inclui palestras, painéis temáticos, exposições, lançamentos de livros e debates sobre os desafios e perspectivas da logística na Amazônia.