INTERIOR

Gastos ocultos de royalties no interior do Amazonas

Prefeitura de Nhamundá recebe R$ 40 milhões, mas alunos usam buraco no chão como banheiro

Cley Medeiros*
Especial para A Crítica
10/01/2026 às 12:44.
Atualizado em 10/01/2026 às 16:26

Alunos da comunidade Veneza utilizam um buraco no chão como banheiro, enquanto a prefeitura recebeu R$ 40 milhões em cinco anos. (Foto: Divulgação)

Em Veneza, uma comunidade ribeirinha da Amazônia, os estudantes da escola municipal usam um buraco no chão como banheiro durante o ano letivo. A estrutura fica localizada no quintal. Um conjunto de palhas montadas como se fosse uma parede gera um pouco mais de privacidade, mas apenas de um lado; do outro, é floresta.

Na sala de aula, sete alunos dividem o mesmo espaço e o mesmo professor, em regime multisseriado. O abandono na Escola Veneza cresceu 31% entre 2023 e 2024, uma taxa de evasão 41 vezes superior à média estadual para os anos iniciais (0,75%), segundo o Censo Escolar. O esvaziamento ocorre em uma estrutura sem água potável e sem energia elétrica, uma realidade que se repete na Amazônia.

A comunidade faz parte de Nhamundá, município de pouco mais de 20 mil habitantes encravado na divisa entre o Amazonas e o Pará, a cerca de 800 quilômetros da foz do rio Amazonas. A distância dos grandes centros e a rotina ribeirinha escondem uma contradição: enquanto a escola na zona rural continua sem estrutura, a cidade vive sua fase de maior abundância financeira.

Nhamundá recebeu mais de R$ 40 milhões pela exploração dos royalties do petróleo e do gás da bacia sedimentar da Amazônia nos últimos cinco anos. Mas descobrir como essa fortuna está sendo gasta se tornou uma batalha judicial. Em setembro de 2025, a Justiça do Amazonas atendeu a um pedido de urgência do Ministério Público para obrigar a prefeitura a divulgar no portal da transparência o destino dos recursos, receita e despesas, até então inacessível.

Se o dinheiro não chega à estrutura da Escola Veneza, que está paralisada nos registros do Ministério da Educação, mas esteve em pleno funcionamento em 2025, de acordo com apuração de A CRÍTICA, ele flui com abundância para sustentar uma disputa jurídica.

Carlos Benaduce é advogado especialista em recuperação de royalties (Foto: Iuri Silveira Rafael Acosta)

Escritórios privados

Nhamundá integra um grupo de municípios do Amazonas que contrataram escritórios privados para convencer a Justiça Federal de que devem receber fatias dos royalties, ou aumentar os repasses da Agência Nacional de Petróleo, e conseguiram no Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

Entre 2020 e 2025, o número de municípios que passaram a receber royalties no Amazonas saltou de 20 para 30. Além de Nhamundá, Manicoré, São Paulo de Olivença, Novo Airão, Alvarães, São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro, Rio Preto da Eva, Borba e Tabatinga estão na folha de pagamento da Agência Nacional de Petróleo (ANP). O que eles têm em comum: não estão na rota do impacto da exploração e, por esse motivo, não deveriam receber o recurso, de acordo com a agência responsável pela regulação do setor.

Isso significa que, apenas com a entrada desses dez novos beneficiários, mais de R$ 34 milhões foram redistribuídos para prefeituras que antes estavam fora da partilha dos royalties somente no ano de 2025. Porém, 99% dessa fatia foi concentrada em Nhamundá, Manicoré, São Paulo de Olivença, Novo Airão e Alvarães, formando uma nova elite de recebedores de royalties com mais de R$ 6,9 milhões em média cada no período de apuração.

O valor supera o que foi arrecadado em Silves, por exemplo, que recebeu 1,6 milhão de royalties no último ano. Embora o município seja diretamente impactado pela exploração do Campo de Azulão e seja um produtor de gás natural de fato, sua compensação financeira foi muito inferior à daqueles que, mesmo distantes da infraestrutura petrolífera, conseguiram reconhecimento jurídico como beneficiários.

Honorários milionátiors

O preço dessa estratégia é alto para o caso de Nhamundá. Para iniciar a batalha, a prefeitura assinou contratos repassando 20% dos royalties mensais como honorários advocatícios. Ao dispensar a Procuradoria Geral para buscar um recurso que diz ser essencial, a prefeitura pagou cerca de R$ 7,9 milhões aos advogados Gustavo Freitas Macedo e Nunes Golgo Escritório de Advocacia, de 2021 a 2025, de acordo com documentos a que a reportagem teve acesso.

Na mesma decisão que obrigou a transparência dos recursos, a Justiça do Amazonas ordenou o encerramento imediato do contrato dos honorários, citando o entendimento do Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM), que já havia identificado o "apagão" de dados em 2024.

“Trata-se de uma violação legal reconhecida, que fere o direito do cidadão de saber como os recursos dos royalties estão sendo comprometidos”, afirma a promotora Ana Carolina Arruda, que assina a Ação Civil Pública. A promotora, que visitou a escola Veneza durante uma inspeção, classificou a situação dos alunos frente aos milhões arrecadados como “uma afronta direta à dignidade humana”.

Resposta

Por meio de nota, a Prefeitura de Nhamundá afirma que "os gastos com os repasses da ANP cumprem os requisitos de legalidade e economicidade, sendo auditados pelas instâncias competentes. A administração informa ainda que atende regularmente aos pedidos de informação via Lei de Acesso à Informação e destaca, no site oficial, que neste ano, alcançou o índice de 78% no Radar da Transparência Pública, avaliação realizada pela Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), alcançando a quarta posição entres os municípios do Amazonas."

A reportagem não conseguiu contato com o advogado Gustavo Macedo Freitas e com o Escritório de Advocacia Nunes Golgo. O espaço segue aberto para posicionamento.

Gerente de projetos da Transparência Internacional, Renato Morgado (Foto: Divulgação)

Enquadramento legal

Para fugir dos  municípios "afetados" — que recebem fatias menores —, a prefeitura pagou caro por uma engenharia jurídica que mantém Nhamundá classificada como detentora de "Instalações de Embarque e Desembarque" (IED). A liminar de 2021 não apenas permite à cidade cobrar royalties sobre todo o volume transportado de Urucu, em Coari, e Azulão, em Silves, mas a insere na planilha da ANP como um "ponto logístico essencial" para a indústria nacional.

“O cenário acaba por "contaminar" a base de cálculo oficial, atraindo para os cofres municipais verbas de diversas origens — inclusive os recursos da Lei 12.858/2013 — que estabelece critérios objetivos de aplicação em educação (75%) e saúde (25%), aponta Carlos Benaduce, advogado especialista em recuperação de royalties. Para ele, a decisão judicial foi um erro: “Os municípios alegaram possuir instalações de gás e petróleo que não existem para obter os repasses”, diz o especialista.

Benaduce é autor de uma denúncia no Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM), ainda em 2021, que revelou a entrada repentina de municípios do Amazonas na folha de pagamento dos royalties. Segundo Benaduce, a consequência direta da falta de transparência dos valores é que a população não sabe quanto está indo para pagar um alto honorário advocatício, para um município pequeno: "Se não houver fiscalização ativa, a população nem fica sabendo que o dinheiro entrou e sumiu", aponta.

O risco administrativo é agravado pela origem instável do dinheiro. Como os recursos advêm de liminares que podem cair, o gerente de projetos da Transparência Internacional, Renato Morgado, alerta para a armadilha fiscal: "O município não consegue fazer planejamento de médio e longo prazo pela insegurança jurídica", podendo inflar a máquina pública e depois não ter como sustentá-la, explica.

Quatro anos sem divulgar receita

Com o fim do prazo  da Justiça do Amazonas em novembro, a prefeitura encerrou o contrato milionário de honorários, e divulgou receitas desde 2021, mas limitou os dados de despesas apenas a 2025, mantendo quatro anos de gastos no escuro, até a data de fechamento desta reportagem.

"Se, mesmo após uma decisão judicial, o município resiste a divulgar tudo, falta disposição política", afirma Renato Morgado, gerente de projetos da Transparência Internacional. Para ele, a opacidade atrapalha a relação da população com as instituições. “Sem dados claros e acessíveis — em linguagem cidadã e não apenas burocrática — a população perde a confiança na gestão e prejudica a fiscalização de recursos caros, como os royalties”, afirma.

No recente Índice de Democracia Ambiental, organizado pela Transparência Internacional, que mede a qualidade do acesso à informação, o Amazonas obteve apenas 38 pontos, uma nota considerada ruim. Para chegar a essa nota, o levantamento aplicou 120 indicadores que monitoram políticas e práticas públicas nos nove estados da Amazônia Legal e na União.

No quesito transparência, o critério é técnico e vai além do básico: a análise verifica se as informações estão não apenas disponíveis, mas atualizadas e em formato de dados abertos, permitindo que qualquer cidadão ou órgão de controle consiga verificar os números e fiscalizar o dinheiro público.

Promotora Ana Carolina visitou a escola Veneza e classificou a situação dos alunos como ‘uma afronta direta à dignidade’ (Foto: Aline Fidelix)

MPE cobra transparência

O Ministério Público do Amazonas vai pedir aplicação de multa por falta de transparência dos recursos dos royalties em Nhamundá, que recebeu R$ 40 milhões de 2021 a 2025, após uma decisão liminar da Justiça Federal enquadrar o município como Estação de Embarque e Desembarque de Petróleo e Gás, contrariando a Agência Nacional de Petróleo. Para a ANP, Nhamundá não tem estrutura para ser considerada uma “City Gate”. No entanto, o pedido do Ministério Público do Amazonas não entra no mérito desse recebimento, mas entra no mérito da transparência dos recursos. Confira a entrevista:

Uma das suas primeiras ações foi justamente sobre a transparência dos royalties. O que motivou o Ministério Público a ajuizar essa Ação Civil Pública (ACP)?

A Promotoria de Nhamundá instaurou o inquérito em 2023, justamente para apurar a destinação dos valores recebidos a título de royalties, antes mesmo da minha chegada à comarca, em 2024. Decidimos avançar. O que percebemos é que o Ministério Público estava com dificuldade de obter da prefeitura dados muito básicos em relação à informação e à transparência desses royalties. Eles foram requisitados algumas vezes e as respostas apresentadas pela prefeitura, através da Procuradoria Geral do Município, eram tanto quanto evasivas, não apresentavam todos os documentos que nós requisitamos. Por isso identificamos a necessidade de ajuizar essa ação civil pública.

Houve uma demanda ativa da população em saber para onde estava indo o valor arrecadado?

Sobre a demanda da população, o recebimento de royalties em Nhamundá é uma questão de conhecimento público e notório. Há um questionamento feito muito pelas redes sociais. Acompanhamos as pessoas, principalmente a população nhamundaense, com questionamentos a respeito da destinação desses royalties. Foi um tema muito recorrente e nós identificamos a necessidade da população obter o que é seu direito: informações a respeito da destinação desses valores.

A senhora mencionou respostas evasivas. Como era essa relação antes da judicialização? A prefeitura simplesmente não entregava os dados?

O ajuizamento da ação veio justamente da falta de informações prestadas ao próprio Ministério Público. Nós requisitamos que fossem prestadas informações específicas, pormenorizadas, que o município apresentasse não só documentos, mas explicações em relação ao que foi efetivamente recebido e aplicado. A resposta apresentada foi um simples encaminhamento de balancetes. Eram diversos balancetes encaminhados desde 2021 que, evidentemente, não eram suficientes para demonstrar a rastreabilidade desse valor. Nós não conseguíamos, a partir desses meros balancetes, identificar qual era efetivamente a destinação.

Diante desse cenário de opacidade, o que exatamente o MP pediu à Justiça nessa Ação Civil Pública?

A ACP engloba alguns eixos. O primeiro e principal é, de fato, a transparência. Pedimos para que o município crie no portal da transparência uma aba específica para que sejam colocadas todas as informações relativas ao recebimento dos royalties. E para que fique de fácil acesso para a população, desenhamos uma arquitetura do que o município deve implementar.
Eles devem criar um módulo de receitas, identificando desde o início todos os valores recebidos. Um módulo de destinação, para especificar a que esses valores foram destinados. Um módulo documental, para apresentar os contratos vinculados a essa destinação — por exemplo, se foi a construção de uma escola, onde está o contrato vinculado?. Um módulo de vinculação legal, para que o município especifique, no âmbito da lei 12.858/2013, se os valores foram aplicados especificamente na educação e na saúde. E, por fim, um módulo de prestação de contas com relatórios consolidados demonstrando o impacto efetivo desses valores para a população.

Além da transparência, a ação toca em um ponto sensível: o contrato milionário com o escritório de advocacia responsável por garantir esses repasses. Qual foi o pedido do MP em relação a isso?

Pedimos a declaração de nulidade do contrato feito entre a prefeitura, por inexigibilidade de licitação, com o escritório jurídico. Além disso, pedimos que seja feita uma perícia técnica. Caso seja declarada a nulidade, é preciso avaliar qual é, efetivamente, o valor que o município deveria pagar, considerando que já foram prestados serviços. A ideia é que o valor seja estipulado com critérios objetivos — tabela da Ordem dos Advogados do Brasil, tempo despendido pelo advogado — para que o município não se enriqueça ilicitamente, mas também não pague um valor que consideramos exorbitante. O critério utilizado foi um percentual em cima dos valores recebidos, que são enormes. E pedimos também a condenação em danos morais coletivos, uma indenização pela violação ao princípio da publicidade durante todo esse período.

A Justiça atendeu a esses pedidos em caráter liminar?

Sim. A decisão judicial acolheu integralmente os pedidos feitos em sede de tutela provisória. O juiz determinou que o município implementasse essa página específica no portal da transparência com todos os módulos delimitados e, o segundo pedido, que suspendesse imediatamente todos os pagamentos realizados ao escritório jurídico contratado.

Para o Ministério Público, a decisão judicial foi cumprida? O portal da transparência hoje reflete o que foi determinado pela Justiça?

Em relação à suspensão dos pagamentos ao escritório, eles apresentaram um ofício dizendo que procederam com a suspensão. Então, essa parte da tutela foi cumprida.
Porém, em relação à transparência, a decisão não foi cumprida integralmente. O que eles fizeram até agora foi criar o espaço no portal da transparência e divulgar as receitas. Ou seja, apenas informaram “recebemos tanto”. Mas essa informação nós já tínhamos no inquérito civil, era o mínimo.
Há uma aba de despesa de royalties agora, mas os dados disponíveis são apenas de janeiro a outubro de 2025. Mas o fato é que não há o detalhamento exigido. Nós estamos no prazo de réplica e, ao elaborarmos nossa manifestação, identificamos que não teve o cumprimento total.

O prazo dado pela Justiça do Amazonas esgotou em novembro. A multa estabelecida é de R$10 mil por dia em caso de descumprimento. Diante desse cenário de cumprimento parcial, qual será o próximo passo do Ministério Público?

Como eles não cumpriram a tutela na parte da transparência, o Ministério Público vai pedir a aplicação da multa que foi prevista na decisão. A transparência ainda é limitada. Conseguimos ver receita, mas a parte de despesa e os documentos comprobatórios ainda não estão disponíveis como a Justiça determinou.

Doutora, caso a Justiça reconheça que não houve o cumprimento integral e estabeleça a multa, para onde esse valor deve ir?

Em casos de Ação Civil Pública onde pedimos a condenação por danos morais coletivos, a lei prevê que esses recursos sejam destinados a um fundo específico, como o Fundo de Defesa de Direitos Difusos (FDD), ou que sejam revertidos diretamente em benefício da própria sociedade de Nhamundá. O objetivo é que o valor da multa ou da indenização financie projetos sociais, educativos ou de saúde que reparem, de alguma forma, o prejuízo causado à coletividade pela falta de transparência e pela violação do direito à informação

Doutora, para um município pequeno como Nhamundá, qual o real impacto dessa falta de transparência sobre recursos tão vultosos?

É um valor muito alto. Na época da apuração, já ultrapassava 33 milhões de reais recebidos. É um valor considerável, suficiente para fazer diferença nas áreas prioritárias como educação e saúde. A população precisa entender se esse valor realmente foi aplicado onde deveria.

Quais foram as obras? Quais foram os serviços? O que essa ausência de informações gera na percepção dos moradores sobre o dinheiro público?

O não cumprimento do dever de transparência prejudica o próprio exercício da cidadania. É direito básico do cidadão ter acesso à informação do dinheiro que, afinal, pertence a ele. Ele tem que saber o que a população está recebendo e o que está sendo feito. Se isso não acontece, o exercício do poder fiscalizador do cidadão e dos órgãos de controle fica obstado. É, no mínimo, uma violação direta à dignidade de quem precisa desses serviços públicos.

* Esta reportagem recebeu apoio do Pulitzer Center, por meio do edital COP30

** Colaborou Rafael Acosta

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