Assertivo

Cardeal da Amazônia crítica polarização: ‘Esse tipo de guerra não ajuda em nada’

Dom Leonardo Steiner a separação entre fé  e interesses eleitorais, critica a polarização política, rejeita a redução da maioridade penal e questiona a ampliação de benefícios fiscais para igrejas

Omar Gusmão
14/06/2026 às 08:38.
Atualizado em 14/06/2026 às 08:39

Dom Leonardo Steiner, Arcebispo metropolitano de Manaus e Cardeal da Amazônia (Foto: Paulo Bindá)

Arcebispo metropolitano de Manaus e Cardeal da Amazônia, Dom Leonardo Steiner não foge de temas polêmicos. Assertivo, o conselheiro papal para assuntos amazônicos não se furtou, nesta entrevista para A CRÍTICA, a fazer ponderações sobre tópicos atuais e que chegam a suscitar debates acalorados.

Temas como o uso eleitoral dos espaços religiosos, a defesa do Estado laico, a redução da maioridade penal, os benefícios tributários concedidos a instituições religiosas e o avanço de pautas conservadoras no Congresso Nacional têm provocado debates dentro e fora das comunidades de fé e fazem parte dos assuntos sobre os quais Dom Leonardo se debruça de forma direta e respeitosa.

Em um cenário político cada vez mais marcado pela polarização, pela crescente influência das lideranças religiosas no debate público e por discussões sobre os limites entre fé e política, a participação da Igreja Católica no processo democrático é defendida com veemência pelo clérigo, que fez questão de participar, nesta semana, do lançamento de uma cartilha religiosa que propõe aos fiéis encontros para aliar oração à conscientização política.

Na entrevista, Dom Leonardo Steiner defende que as igrejas não devem direcionar votos, critica o uso da religião como instrumento político, alerta para os riscos da radicalização ideológica e reafirma o compromisso da Igreja Católica com a democracia, a justiça social e o bem comum. Confira:

Como o senhor avalia o uso eleitoreiro das igrejas em favor de candidatos?

Já houve até uma tentativa no passado do ministro do STF [Edson] Fachin de criar uma barreira nesse sentido. Que as igrejas participem mostrando a importância que tem o voto, a importância que tem a democracia, a importância do bem comum, a importância da política, é necessário. Mas não que a igreja comece a direcionar os seus votos, né? Eleger os seus, não. Nós, como igreja, participamos de uma sociedade e nós desejamos que essa sociedade seja cada vez mais fraterna, mais justa, mais equânime, mas também que seja uma sociedade que se preocupe com os pequenos e os pobres. Portanto, não em benefício próprio.

O senhor considera moralmente correto usar a fé das pessoas para promover candidaturas?

Não, moralmente não é correto. Não é correto. Nós, é claro, nos baseamos no Evangelho, porque o Evangelho nos dá critérios para o cuidado do bem comum, nos dá critérios também para sermos ativos politicamente, mas não podemos usar os nossos os nossos critérios, que achamos que são importantes, sem partir do Evangelho, para assim fazermos política.

O senhor considera que as eleições são uma guerra do bem contra o mal. Que consequências tem essa avaliação para o processo democrático?

Essa guerra que se criou no meio da sociedade – e mesmo os meios de comunicação têm, às vezes, incentivado um pouco esse tipo de guerra, esse tipo de compreensão –, não ajuda em nada. Não ajuda porque simplesmente ficamos contrapondo e não conseguimos abordar as questões essenciais, que são o bem comum e a questão da democracia. Se fica somente na acusação mútua. Isso não tem ajudado absolutamente nada. Inclusive, têm aproveitado as igrejas para fazer esse jogo do bem contra o mal. Isso não nos ajuda em nada. Nós queremos é o bem. Queremos o bem da sociedade.

Um dos temas que tem sido apresentado novamente para o eleitor, para o cidadão em geral, é a questão da maioridade penal. Como o senhor e a igreja se posicionam em relação a essa questão da redução da maioridade penal?

Veja quem está a favor da diminuição da maioridade penal. São pessoas que são extremamente agressivas quando falam. São pessoas que não nos ajudam na educação das pessoas. Não são pessoas que nos ajudam, por exemplo, a favorecer que os jovens tenham emprego, que tenham oportunidade, que tenham oportunidade de cultura. Essa questão da diminuição da maioridade penal é muito grave, muito grave. Quer dizer, nós discutimos, nós roubamos, nós fazemos uma porção de coisas e depois queremos colocar na cadeia pessoas de 16 anos e 14 anos. Em alguns estados do mundo tem, mas nós não podemos cair nessa falácia. Não ajuda prender os adolescentes e jovens, não nos ajuda. Não construímos um Brasil melhor. Nós temos que mudar a nossa atitude, o nosso modo de relação, o nosso modo de ser sociedade, que é uma sociedade extremamente consumista. Não é uma sociedade fraterna.

No Congresso Nacional está avançando também um projeto de aumentar a isenção tributária para igrejas, inclusive para compra de aviões. Como a Igreja Católica vê isso?

A Igreja Católica não é favorável a isso. Nós temos um tratado Brasil Santa Sé. Nós nos regemos por esse tratado. Nós já temos isenções que são necessárias devido ao trabalho social que nós fazemos. Mas agora isentar muito mais… Inclusive tem-se criado igrejas para poder se isentar de impostos. Quer dizer, que tipo de igreja é essa? É um anúncio do Evangelho mesmo? É uma tentativa de realmente entender a religiosidade do povo? Ao menos eu penso, da minha parte, que eu não sou favorável a ficarmos com muitas isenções, porque acaba de novo recaindo sobre os pequenos a necessidade de cobrar impostos para poder apoiar projetos necessários.

No Senado foi criada uma frente parlamentar e mista em defesa da liberdade religiosa dos psicólogos cristãos. Entidades ligadas à área veem na iniciativa uma uma ameaça a laicidade da profissão. O que o senhor acha sobre isso?

Eu penso que não há necessidade de ficarmos criando essas questões. A psicologia tem um modo próprio de abordagem. A psicologia tem seu modo e, se é uma pessoa católica, uma pessoa evangélica, uma pessoa luterana, terá a partir da sua fé, a sua visão. Agora, não podemos através da psicologia ficar impondo algumas questões. A ciência não é contra a fé, mas ela tem que ter liberdade. Ela tem que ter a sua liberdade.

O senhor acredita que o Brasil caminha rumo ao fundamentalismo cristão?

Não, não penso que seja fundamentalismo cristão no Brasil. É no mundo todo que que se está caminhando para o que a gente tem chamado de direita e esquerda. Eu, pessoalmente acho péssimo essas denominações e caracterizações. Eu sempre tenho a sensação de que isso é muito mais ser contra a democracia ou a favor da democracia. Essa polarização entre a esquerda e a direita eu tenho muita dificuldade de compreender, porque são ideologias. E a ideologia é necessária. Agora, uma ideologia que leve realmente ao benefício das pessoas, leve ao benefício, transforme a sociedade. Eu penso que essa é a questão. E nós, cristãos católicos, temos muito a contribuir para que a sociedade seja mais justa e mais equânime.
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