Em meio à polêmica envolvendo Flávio Bolsonaro, Nossa Senhora Aparecida e a CNBB, padre Alcimar Araújo afirma que a Igreja orienta os fiéis, mas deixa livre a decisão sobre o voto
Padre Alcimar Araújo (Foto: Ana Paula Lourenço/Arquidiocese de Manaus)
“A igreja não vai utilizar seus valores para candidato A ou B, ela deixa o cidadão sempre livre para decidir”, declara o padre Alcimar Araújo, assessor das Pastorais Sociais e vice-presidente da Cáritas Arquidiocesana de Manaus. A declaração do clérigo repercute a controvérsia criada após um Projeto de Lei de 2007, arquivado em 2008, ter se transformado na atual maior polêmica envolvendo a campanha à Presidência da República em 2026.
Nossa Senhora Aparecida e seu título de Padroeira do Brasil foram arrastados ao centro da disputa pela presidência, se tornando o segundo maior episódio político da campanha nas redes sociais, de acordo com levantamento do Instituto Democracia em Xeque, realizado de 26 a 27 de setembro.
No afã de amenizar o “barulho” nas redes, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) acusou a Confederação Nacional de Bispos do Brasil de ter se unido com o PT para propalar as fake news de que, se eleito, ele revogaria o título de Padroeira do Brasil e Nossa Senhora Aparecida.
A CNBB, por sua vez, desmentiu qualquer participação no episódio e disse, em nota, que “mentira não se combate com outra mentira”. Na nota, a entidade eclesiástica esclarece que “não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral” e que “repudia a produção e a utilização de informações falsas, independentemente de sua origem ou de quem possam beneficiar ou prejudicar”.
Ou seja, o candidato acabou inflamando ainda mais o debate, que surgiu quando a jornalista Maria Cristina Fernandes comentou, na quinta-feira (24), no programa “Em Pauta”, na GloboNews, a existência de uma suposta movimentação de setores evangélicos relacionada à retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.
Ainda na madrugada de 25 de setembro, a GloboNews fez uma correção no ar esclarecendo que o projeto mencionado havia sido apresentado em 2007 e arquivado em 2008, e pediu desculpas pelo erro. Em tempos de mídias sociais, contudo, o estrago já estava feito e a polêmica tem escalado desde então.
Sobre a acusação de Flávio Bolsonaro contra a CNBB, padre Alcimar Araújo é enfático ao esclarecer que a Confederação trabalha para conscientizar os fiéis e nunca favorecer nenhum candidato ou partido específico.
“Primeiro, é preciso dizer que há décadas a CNBB vem trabalhando a formação da consciência cidadã. A CNBB tem lançado, nos seus vários regionais, cartilhas, orientando os cristãos a escolher os seus candidatos de forma livre, consciente, a partir dos seus valores”, afirma o padre.
De acordo com padre Alcimar, o que a CNBB tem feito com os seus bispos é exatamente apresentar valores aos quais a entidade e a Igreja Católica acreditam, dentre eles a democracia, a cidadania e as políticas públicas que constroem o bem comum.
“E aí o cidadão cristão católico deve decidir. Oficialmente a igreja não tem candidatos, não aponta candidatos e não faz do púlpito um palanque. Essa polêmica também não é de hoje. Há alguns anos essa polêmica com Nossa Senhora tem aparecido. A CNBB inclusive fez um relatório desses anos todos de vários ataques que a CNBB recebeu também em relação a Nossa Senhora Aparecida. A igreja vai se posicionar sempre assim, com serenidade”, explicou o padre.
O sacerdote assegura que a igreja não utiliza seus valores para candidato A ou B, deixando sempre livre para que as pessoas decidam. “Claro, evidentemente, que a gente defende a Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Ainda é do tempo do Império, tem mais de 300 anos que ela é padroeira do Brasil, já é um patrimônio histórico e cultural do Brasil”, afirma.
Padre Alcimar esclarece que o posicionamento da igreja sempre vai ser optar pelos valores que constroem o bem comum e uma sociedade que aprenda a discutir sem violência, sem ódio, sem preconceito. “A igreja defende, inclusive, o Estado laico, entendendo que a nação não é laica, mas o Estado, a estrutura estatal deve ser laica, para que todos tenham a liberdade de exercer a sua fé. Portanto, ela vai manter aquilo que sempre apresentou nos seus documentos e nas suas posturas ao longo desses anos”, diz.
A relação da Igreja Católica com os candidatos não deve mudar em nada com o episódio, acredita Padre Alcimar, para quem a polêmica vai ser esquecida em breve. Ele acredita, entretanto, que talvez possa mudar alguma intenção de voto entre os eleitores.
“A gente vê pelos comentários das redes sociais os posicionamentos dos católicos, então, talvez tenha alguma consequência de decisão de voto, não sei. Porque algumas pessoas são muito devotas a Nossa Senhora Aparecida”, fala, em tom de dúvida.
“Não sei exatamente se isso impacta na eleição ou não, mas eu acho que não vai trazer grandes consequências porque, na verdade, essas coisas são como fogo de palha, sobe, fica aquela labareda grande, mas daqui a pouco apaga e todo mundo esquece e bola para frente, as coisas vão continuar”, opina o sacerdote.
STF x TSE
Na esfera judicial, o episódio acabou causando uma disputa entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na sexta-feira (25), a equipe jurídica de Flávio Bolsonaro apresentou uma notícia-crime à Procuradoria-Geral Eleitoral pedindo investigação sobre a disseminação da informação. Paralelamente, recorreu ao TSE para retirar das redes as publicações que associavam Flávio ou sua família à suposta intenção de alterar o título de Nossa Senhora.
O ministro André Mendonça, atuando no TSE, concedeu a medida solicitada. A decisão determinou a retirada de mais de 1,1 mil links que apresentavam como verdadeira a informação de que Flávio ou seus familiares teriam proposto, apoiado, articulado ou pretendido retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Mendonça classificou a afirmação como “notoriamente inverídica”.
No domingo, entretanto, houve uma segunda frente judicial. O humorista Antonio Tabet teve uma publicação removida pela decisão de Mendonça. No post, ele publicou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida acompanhada de uma crítica à chamada “família miliciana”. O nome de Flávio Bolsonaro não aparece na postagem, que diz: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida.
Tabet recorreu ao STF, e o ministro Flávio Dino determinou o restabelecimento da publicação e de outras que haviam sido retiradas pelo mesmo fundamento. Dino entendeu que, para considerar o post ilícito, seria necessário primeiro presumir que a expressão “família miliciana” se referia especificamente a Flávio Bolsonaro. Para o ministro, a remoção, sem instrução adequada, atingiria a liberdade de expressão e a liberdade religiosa.
O ministro Kassio Nunes Marques, atual presidente do TSE, por sua vez, viu interferência de uma corte sobre a outra e, segundo publicações nacionais, iria levar a reclamação ao presidente do STF em reunião marcada entre os dois nesta segunda-feira (28).
Vale ressaltar que Mendonça e Dino não decidiram necessariamente sobre a mesma questão de mérito. André Mendonça determinou a remoção de conteúdos que apresentassem como fato a falsa informação de que Flávio pretendia retirar o título de Padroeira do Brasil. Já Flávio Dino restabeleceu publicações que, em sua avaliação, estavam protegidas pelo debate político e religioso e que não necessariamente afirmavam a informação como fato.
De qualquer forma, nesta segunda-feira (28), diante da pressão feita por aliados do ministro André Mendonça e integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro ao presidente da Corte Suprema, Edson Fachin, o ministro Flávio Dino decidiu submeter sua decisão sobre Nossa Senhora, liberdade de expressão e liberdade religiosa ao plenário do STF. Fachin ainda deve avaliar e marcar a sessão para o julgamento.