Noite 2 - Lenda Amazônica

Segunda noite do Boi Garantido recebe lenda amazônica inédita sobre a cosmologia Hexkaryana

Assinada pelo artista Marlon Brandão, alegoria traz a história de Kamara, a onça-mãe ancestral responsável pela criação do mundo e pelo equilíbrio da floresta

Laynna Feitoza
27/06/2026 às 18:48.
Atualizado em 27/06/2026 às 18:48

Marlon Brandão é o artista responsável por assinar a alegoria (Jeiza Russo)

A cosmologia do povo Hexkaryana, habitante das regiões dos rios Nhamundá e Jatapu, inspira a alegoria que representará o item Lenda Amazônica do Boi Garantido na segunda noite do 59º Festival de Parintins. A narrativa apresenta Kamara, a onça-mãe ancestral, surgida do sopro primordial Yuxibu e responsável pela criação do mundo, da floresta e dos primeiros Hexkaryana. Guardiã dos ciclos da natureza, Kamara simboliza a força espiritual que ensina o respeito aos pactos entre seres humanos, encantados e floresta, assegurando o equilíbrio e a continuidade da vida.

A alegoria é assinada pelo artista Marlon Brandão, e possui 30 metros de boca de cena, 20 metros de fundo, e 25 metros de altura, distribuídas entre 15 módulos. Ele explica que Kamara consiste em uma onça-mãe que norteia o princípio de toda a criação, na visão do povo Hexkaryana.

"Ela tem uma concepção de preservação da Amazônia, a partir da criação. A Kamara é uma lenda que vem mostrando esse poder de criação da etnia Kamarayana, de que várias concepções da humanidade surgiram da natureza. É uma lenda inédita no Festival de Parintins", pondera ele. Na alegoria, é possível vislumbrar uma onça com corpo de mulher indígena, envolta em uma espécie de metamorfose com a natureza.

Questionado sobre qual será a transformação pela qual a alegoria vai passar na arena do Bumbódromo, ele revelou apenas que o que guarda o maior impacto visual está no rosto de Kamara.

"Todo ano a minha alegoria acontece, ela fala por si só. Eu acho que acontece uma mágica na minha alegoria justamente quando você olha na face do boneco principal. Neste ano, a Kamara vai fazer um movimento específico nos olhos. Inclusive parece que ali o pessoal já conhece o meu trabalho junto com as pessoas, os artistas que fazem robótica, que se empenham muito", celebra ele.

A entidade ensina o respeito aos pactos entre seres humanos, encantados e floresta

Junção

Como artista de alegoria e também como compositor musical, ele busca unir as duas frentes artísticas para compor seus projetos alegóricos, e com a alegoria de Kamara não é diferente.

"Sou muito fã de um amigo meu chamado Geandro Matos [um dos compositores da toada 'Kamara' ao lado de Jorge Renato e Paulo Lindoso], que me dá todas as concepções das letras das músicas que ele faz. O primeiro trabalho que desenvolvi na poesia do Geandro foi 'Huni Kuin'. Eu tive liberdade também para fazer algumas mudanças no desenho da comissão", completa.

Marlon Brandão trabalha no Boi Garantido "desde a época da madeira para o ferro", como ele assim classifica. Ao todo, isso dá mais de 30 anos no bumbá.

"Esse é o meu terceiro trabalho como artista de ponta e é muito gratificante, porque eu esperei esse momento, né? Ano passado, eu fiz a alegoria de 'Artesãs Indígenas', junto com meu parceiro Kemerson. Neste ano, nós nos separamos para mostrar a força de cada um".

Cabeça do módulo principal da alegoria 'Kamara'

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