ARTIGO

Museu Botânico do Amazonas: história revela desafio de transformar biodiversidade em desenvolvimento

Instituição criada no século XIX deixou lições sobre ciência, inovação e a necessidade de investir no conhecimento da biodiversidade amazônica

Júlio Antonio Lopes
15/08/2026 às 08:59.
Atualizado em 15/08/2026 às 08:59

(Foto: Divulgação)

Nunca saberemos. O que sabemos é que perdemos uma instituição promissora justamente quando mais precisávamos aprender a transformar biodiversidade em conhecimento e, este, em desenvolvimento.

Desde que o mundo é mundo, a hierarquia das nações é determinada pelo grau de conhecimento e, sobretudo, pela capacidade de transformá-lo em descobertas, tecnologias, produtos e inovação.

Mais de um século depois da experiência do Museu Botânico do Amazonas, essa lição continua atual. O nosso estado possui uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta e mantém a imensa maioria de sua cobertura florestal preservada. Isso representa uma riqueza monumental, mas também impõe uma pergunta que não pode ser adiada: como esse patrimônio natural pode converter-se em melhoria concreta da qualidade de vida da população, sem destruí-lo?

A saudosa professora Bertha Becker, uma das mais notáveis estudiosas da Amazônia, já dizia que não bastava proteger simplesmente a floresta; era necessário atribuir-lhe valor, a fim de que pudesse competir com as commodities. E como isso seria possível? Criando um mercado de bens naturais, como por exemplo, os de carbono, de fármacos, de água, de bioenergia, de energia solar, de biotecnologia, de biologia molecular, de produtos alimentares naturais, de minérios, de ecoturismo etc, que seja capaz de promover o desenvolvimento econômico, a conservação ambiental e a inclusão social, elementos-chave do conceito de SUSTENTABILIDADE.

Tal não acontecerá, contudo, apenas com discursos bonitos de um lado e de protestos de outro, mas de investimentos e financiamentos; de laboratórios e de pesquisadores; de universidades e institutos; de formação de pessoal e, muito especialmente, de tempo, de recuperação, aliás, do tempo perdido em discussões sobre o que seria melhor, preservar a floresta como um santuário ou explorá-la de maneira inteligente. É que os resultados nem sempre aparecem no mandato seguinte do governante ou no próximo balanço financeiro. É justamente essa capacidade de olhar além do imediato, todavia, que distingue as sociedades que apenas possuem riquezas daquelas que sabem transmutá-las em prosperidade.

Apesar de tudo e, de tudo a pesar, Manaus, o Amazonas, não partem hoje do zero. O estado abriga entidades fundamentais para o conhecimento da Amazônia, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e o Museu da Amazônia (MUSA), a UEA e a Ufam. Há também estruturas voltadas ao conhecimento e ao aproveitamento sustentável da biodiversidade, dentre elas o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA) e o Instituto de Controle Externo Ambiental e de Sustentabilidade (ICEAS), este vinculado ao TCE-AM, cujo objetivo consiste em induzir o desenvolvimento sustentável, com atenção especial às áreas mais carentes do Amazonas, por meio da aplicação de recursos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), provenientes de empresas beneficiárias dos incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus. Esses órgãos devem e precisam ocupar posição central em qualquer projeto consistente para o estado e para a região, porquanto são vetores fundamentais de um esperado novo ciclo de desenvolvimento, ancorado em nossas riquezas naturais.

A história do Museu Botânico do Amazonas, portanto, não deve ser lembrada apenas como uma curiosidade do século XIX. Ela contém uma advertência. Em 1884, quando grande parte da Amazônia permanecia cientificamente desconhecida, nós já possuíamos uma instituição dedicada a estudar o potencial de sua biodiversidade. Poucos anos depois, todavia, ela desapareceu.

A questão essencial, porém, permanece diante de nós. Continuaremos admirando a floresta como um santuário ou finalmente faremos o investimento necessário para conhecê-la em profundidade e utilizá-la com sabedoria? A historia já nos ensinou, de maneira dolorosa, que possuir uma riqueza natural não significa dominá-la economicamente. A seringueira estava aqui. As sementes estavam aqui. A floresta estava aqui. O conhecimento capaz de transformar tudo isso em uma economia organizada e competitiva, no entanto, acabou florescendo do outro lado do mundo.

Talvez essa seja a maior lição deixada pelo breve Museu Botânico do Amazonas: o de que uma sociedade pode ser imensamente rica em recursos naturais e, ainda assim, permanecer pobre e sem perspectivas, quando seus dirigentes fazem um pacto tácito com o imediatismo, com ignorância científica e com a mediocridade política.

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por