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Estudo alerta que obras na Amazônia podem abrir caminho para nova pandemia global

Pesquisadores da Ufam, Inpa e outras instituições afirmam que a BR-319 e a mineração em Autazes podem expor populações a patógenos desconhecidos e ampliar riscos sanitários em escala mundial

Omar Gusmão
online@acritica.com
04/07/2026 às 08:55.
Atualizado em 04/07/2026 às 08:55

O grupo de cientistas responsável pela pesquisa está empenhado em emitir um alerta global sobre o risco iminente de uma nova pandemia. (Foto: Imagem gerada por IA)

Obras de infraestrutura, projetos de mineração e indústria de transformação na Amazônia podem liberar patógenos perigosos para a saúde pública global, chegando a representar riscos de uma nova pandemia global, mais devastadora que a Covid-19. A conclusão é proveniente de estudo técnico-científico realizado no chamado “trecho do meio” da BR-319 e na região de Autazes (a 267 quilômetros de Manaus) onde há projetos de exploração de potássio.

O grupo de cientistas responsável pela pesquisa, composto por 19 cientistas, dentre os quais o biólogo norte-americano e ganhador do Nobel da Paz, Philip Fearnside, está empenhado em emitir um alerta global sobre o risco iminente de uma nova pandemia. 

Publicaram uma carta na conceituada revista “Science”, considerada uma das revistas acadêmicas mais prestigiadas do mundo, sob o título "Amazon infrastructure poses biosecurity risks" (“A infraestrutura na Amazônia apresenta riscos à biossegurança", em tradução livre).

Diante da ausência de uma governança global do meio-ambiente, os pesquisadores também entregaram uma carta no Vaticano, endereçada ao Cardeal Michael Czerny, Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, no dia 18 de junho de 2026. O grupo inclui pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Intitulada “Sull’Amazzonia, la strada BR-319, un nuovo allarme pandemico e la difesa della Casa Comune” (“Sobre a Amazônia, a rodovia BR-319, um novo alerta pandêmico e a defesa da Casa Comum”, em tradução livre), a carta denuncia que a pavimentação da rodovia BR-319 e a exploração de potássio em Autazes comprometem os direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, além de representarem o risco de uma nova pandemia, pois a destruição da floresta pode liberar patógenos perigosos para a saúde pública global.

“Estes riscos não se limitam à degradação ambiental, mas incluem impactos nos modos de vida tradicionais, na segurança territorial, na saúde coletiva, no surgimento de doenças e no agravamento das vulnerabilidades sociais em áreas historicamente ocupadas por povos indígenas e comunidades amazônicas”, diz a carta.

O documento afirma que a consolidação da BR-319, com impactos sobre 69 comunidades indígenas de 27 etnias

Caixa de Pandora

O documento entregue no Vaticano também afirma que a consolidação da BR-319, com impactos sobre 69 comunidades indígenas de 27 etnias, e a mineração em Autazes, em terras do povo Mura, representam uma crise complexa. De acordo com a carta, trata-se de degradação ambiental, violação de direitos territoriais, riscos sanitários e avanço de atividades ilícitas.

“Evidências científicas publicadas em revistas como ‘Science’, ‘Nature’ e ‘The Lancet’ reforçam que a abertura desta fronteira na Amazônia Central pode equivaler à abertura de uma ‘caixa de Pandora epidemiológica’, liberando riscos biológicos invisíveis com consequências globais. A região abriga comunidades microbianas pouco conhecidas que, perturbadas por obras e desmatamento, podem gerar novos surtos e crises sanitárias”, alerta outro trecho da carta.

Além de criticar o enfraquecimento das leis de licenciamento ambiental, o grupo solicita uma audiência com o Papa Leão XIV para discutir a proteção da biodiversidade. O texto fundamenta-se no conceito de ecologia integral, unindo evidências científicas ao apelo moral pela preservação da "Casa Comum".

O doutor Tomas Hrbek, do departamento de genética da Ufam, alerta que além das consequências do desmatamento já conhecidas para mudanças climáticas, a degradação ambiental nessa região ainda tem a possibilidade de expor populações humanas às zoonoses. 

“Hoje em dia, as populações que moram nas regiões onde o ambiente natural está sendo convertido em ambiente antropizado são expostas às zoonoses, patógenos que existem na natureza e têm o potencial de entrar população humana”, explica.
“E a mobilidade da sociedade moderna é alta principalmente nos grandes centros urbanos, facilitando que as zoonoses se tornem pandemias globais como nós vimos com SARS-COV2, com episódios de Ebola entrando nas populações humanas africanas, e como a nova cepa do vírus Oropouche entrou na população humana na região da BR-319”, diz.

Para o pesquisador, o pior cenário seria que um desses vírus ou bactérias entrasse nas populações humanas na região da BR-319, onde as populações nunca foram expostas e não têm resistência e, por causa da infraestrutura médica precária da região, buscassem atendimento nos grandes centros urbanos como Manaus ou Porto Velho e, de lá esse, vírus ou bactéria se espalharia pelo Brasil e mundo afora devido o alto movimento de pessoas.

Philip Fearnside, biólogo norte-americano e ganhador do Nobel da Paz

“O risco de exposição às zoonoses afeta, sobretudo, as populações mais vulneráveis e marginalizadas da sociedade. Considerando isso, apresentamo esta carta ao Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral do Vaticano que lida diretamente com as populações necessitadas e marginalizadas”, justifica Hrbek.

Acordo mercosul-união europeia

O grupo também cita o recentemente anunciado acordo comercial Mercosul-União Europeia nos documentos que tem divulgado sobre o tema. De acordo com a avaliação dos pesquisadores, o convênio entre os dois blocos deve exacerbar os riscos ao incentivar a expansão das fronteiras agrícolas – especialmente a pecuária e a produção de soja – em terras ocupadas ilegalmente no sul e centro da Amazônia.

Os cientistas acusam o governo brasileiro de viabilizar ativamente a expansão das fronteiras agrícolas através da consolidação da rodovia BR-319. De acordo com o estudo, análises metagenômicas recentes revelam que o corredor central da BR-319 e as áreas propostas para a extração de potássio abrigam assembleias microbianas desconhecidas, ricas em genes associados à resistência a antibióticos, alta virulência, toxicidade e transferência horizontal de genes, quando um organismo transfere material genético para outro que não é seu descendente.

A ameaça do nitrogênio

Os cientistas alertam para um perigo que ainda não entrou no radar da governança climática internacional. Segundo eles, atividades humanas, como a fertilização agrícola, a combustão de combustíveis fósseis e a gestão de resíduos, levaram a liberações substanciais de nitrogênio reativo, perturbando severamente o ciclo global do nitrogênio. 

Os pesquisadores advertem que a atual governança climática internacional concentra-se principalmente na neutralidade de carbono, enquanto os efeitos sinérgicos da poluição por nitrogênio ainda não receberam atenção comparável, tornando imperativo integrar a "neutralidade de nitrogênio" na agenda de governança ambiental global.

Crises epidemiológicas em Manaus

Coordenador do estudo, o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e do Centro de Pesquisa da Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) Lucas Ferrante acusa os projetos de pavimentação da BR-319 e de exploração de potássio de não consultarem os povos indígenas das áreas que serão afetadas.

“A BR-319 e a exploração de potássio em Autazes representam graves violações aos direitos dos povos indígenas, especialmente pela ausência de consulta prévia, livre e informada e pelos riscos diretos aos territórios, rios, modos de vida e segurança sanitária dessas populações”, diz o pesquisador.

Lucas ressalta que a carta entregue no Vaticano alerta que as obras não podem ser tratadas apenas como projetos de infraestrutura ou mineração. Elas podem abrir caminho para desmatamento, grilagem, pecuária ilegal, contaminação de rios e aumento do contato entre humanos, animais domésticos e fauna silvestre.

“Nossos dados indicam que, se essas obras avançarem sem salvaguardas, Manaus poderá enfrentar uma sequência de crises epidemiológicas devastadoras, potencialmente mais graves que a segunda onda de Covid-19, que já havia sido alertada previamente por nosso grupo. Proteger os povos indígenas e a floresta é também uma medida urgente de prevenção de pandemias”.
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