Serafim Corrêa relata, em crônica literária, um causo que viveu quando era auditor da Receita
(Imagem gerada por IA/Nano Banana)
Nos recantos misteriosos da Amazônia, muitas são as lendas contadas e proseadas, os personagens, mitos, medos e segredos que habitam nossa imaginação e teimam em nos pregar arrepios e sustos quando a noite chega silenciosa, trazendo em sua escuridão zumbidos, estalidos, piados, uivos e assobios produzidos por animais e insetos de hábitos noturnos, que compõem a sinfonia da floresta amazônica.
O avançar na idade me brinda com uma coleção ímpar de memórias, colacionadas ao longo de uma trilha de tantos acontecimentos e experiências, que dormem em mim, e cada vez mais me trazem o passado com frequência, usando-me como um narrador em risos.
Ainda muito jovem, nos anos de 1970, ao lograr êxito no concurso público para ocupar o cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil, no Amazonas, fui designado para exercer o cargo, no então Território de Roraima, na cidade de Boa Vista.
A cidade era pequena, com poucos recursos da modernidade instalada à época, porém bela, esbanjava hospitalidade, acolhimento e solidariedade, características predominantes no povo nortista desse Brasil tão imenso, rico e desigual. Muitos vinham de “fora”, inclusive eu, que carregava comigo a juventude, a inexperiência e o Poder do Estado Tributário Federal, o terrível “Leão”, mas, mesmo assim, querido pelos homens que me acolhiam como irmão, só por ser humano.
Foi assim que eu e outros que ali cumpriam seu labor fomos convidados para ir a uma festa, típica do interior, na Fazenda do seu Dandanzinho, um fazendeiro muito conhecido, popular e querido naquela região. Festas no interior da Amazônia têm pernoite antecipado, senão não se chega a tempo para aproveitá-la.
Quando chegamos, eu e outros amigos, funcionários do Banco do Brasil, à Fazenda do seu Dandanzinho, a tarde caía com todo o esplendor do pôr do sol e a escuridão da noite se avizinhava, mas sem deixar de ser também bela e cheia de encantos.
Armamos nossas redes — gente do Norte gosta de dormir na rede — embaixo de grandes mangueiras e chão varrido. A noite chegava com seu frescor, mas trazia seus ruídos, piados, o medo e a incerteza da escuridão da mata.
Seo Múcio, por ser o mais velho e experiente do grupo, nordestino vivido nas agruras do sertão, era uma espécie de patriarca de jovens sonhadores naquela primeira aventura de dormir abrigados apenas por árvores frondosas, em suas flexíveis redes, suspensas por cordas de juta. Danilo, sendo o mais jovem, era o explicitamente mais medroso, e Mário, sendo o mais cauteloso, trazia em sua bagagem a inseparável lanterna de foco.
À medida que a noite avançava, os trabalhadores noturnos da floresta intensificavam suas atividades, e muitos corações palpitavam e se apequenavam diante da natureza, com medos e incertezas, inclusive o meu.
De repente, um barulho mais intenso e forte se ouviu nos galhos das árvores! Silêncio dos homens! E Danilo gritou: seo Múcio, seo Múcio, é uma onça! O que a gente faz agora?
Seo Múcio, com a voz sonolenta, do alto de sua experiência de nordestino vivido, sugeriu:
— Cada um corre para um lado e vamos ver de quem ela se engraça.
Silêncio! Incredulidade!
O bicho cai! Crásss.
Mário, com sua lanterna sempre pronta, foca e grita:
— É uma mucura!
Todos riem e adormecem como crianças, esperando a noite se esvaecer e os raios do sol adentrarem por entre os galhos das árvores, iluminando os rostos e os corações dos seres vivos, e cravando em minha memória essa história, por toda a minha vida, que hoje narro com saudades.