Análise aponta a recuperação da BR-319 e o fortalecimento da economia dos municípios como desafios centrais do pleito de 2026
Trafegabilidade e preservação ambiental na BR-319 voltam ao centro das discussões econômicas do Amazonas (Dnit)
Uma nova eleição se aproxima. No Amazonas, todavia, mais importante do que a disputa entre nomes conhecidos e novos candidatos, consiste saber quem tem propostas concretas para enfrentar questões que atravessam governos e permanecem insolúveis.
Fora as pautas comuns e de necessário enfrentamento, como segurança, saúde, trabalho etc, outras três são, na minha análise, fundamentais para o nosso estado: a reativação da BR-319, o desenvolvimento do interior e a exploração sustentável de nossas riquezas naturais.
No fim da década de 1970, ainda garoto, viajei de ônibus com meu pai, Julian, de Manaus a Porto Velho pela BR-319. Ele queria rever o município de Jaci-Paraná, onde nascera, localizado no antigo Território Federal do Guaporé, hoje Rondônia. Lembro do deslumbramento de atravessar a floresta e, sobretudo, do sentimento de que aquela estrada finalmente estava nos conectando ao restante do Brasil.
Décadas depois, continuamos discutindo o mesmo problema. A BR-319 precisa ser recuperada e mantida com fiscalização, tecnologia e rigor ambiental. Preservação e desenvolvimento não configuram conceitos antagônicos. O que não podemos mais aceitar é a paralisia, disfarçada de debate interminável ou de polêmica inconciliável.
A segunda questão é o interior. O interior que decide eleições, mas que continua longe das prioridades... São 61 municípios além da capital, muitos ricos em possibilidades e paupérrimos em oportunidades. Piscicultura, agricultura, manejo florestal, turismo, bioeconomia, mineração responsável e energia podem gerar emprego, renda e desenvolvimento onde hoje há, infelizmente, dependência e escassez.
O próprio modelo Zona Franca de Manaus ficou com essa dívida. É que, instituída pelo Decreto-Lei nº 288/1967, contemplava atividades industriais, comerciais e agropecuárias, para que, necessariamente, chegasse ao interior do estado. A indústria e o comércio prosperaram. A agricultura, por sua vez, ficou esquecida. E o desenvolvimento restou concentrado em Manaus. Interiorizar a economia não significa enfraquecer a Zona Franca, mas completar a sua missão. E isso, meus amigos, não parece uma tarefa impossível de realizar, porquanto a Suframa administra outras áreas incentivadas na região amazônica, conforme lhe permite o Decreto-Lei nº 356/1968, possuindo sete Áreas de Livre Comércio (ALCs ), inclusive em outros estados da região, a saber: Guajará-Mirim (RO); Brasiléia, Epitaciolândia e Cruzeiro do Sul (AC); Boa Vista e Bonfim (RR); e Macapá/Santana (AP). Por que não procurar mecanismos que levem, enfim, benefícios ao interior do Amazonas, estado de dimensões continentais e estratégico na geopolítica brasileira e internacional?
Temos floresta, água, biodiversidade, minerais e enorme potencial energético. É possível explorar esses recursos racionalmente, sem exauri-los, conciliando meio ambiente, economia e inclusão social. Sustentabilidade precisa deixar de ser apenas discurso; deve produzir prosperidade para quem vive na Amazônia. Deve estar a favor do homem e não contra ele.
Já tivemos o ciclo da borracha, vivemos o ciclo da Zona Franca e houve, até, uma tentativa de implantar-se um “terceiro ciclo” econômico, preconizado de forma inteligente pelo ex-governador Amazonino Mendes, mas que não vingou. Claro que tivemos avanços ao longo desse tempo todo. É duro, porém, reconhecer que o isolamento, a pobreza de grande parte do interior do Amazonas e a dificuldade de criar valor e desenvolvimento duradouro por aqui tem sido um erro atroz e histórico repetido por várias administrações e governantes, com honrosas exceções.
É isso que os candidatos de hoje precisam discutir. A sociedade quer menos acusações e mais propostas; menos slogans e mais projetos realizáveis; menos ignorância de nossos problemas e mais estudos e soluções. O próximo ciclo do Amazonas deve ter amparo, portanto, na integração pela BR-319 (a logística seria extremamente facilitada), no o desenvolvimento do interior e no uso sustentável e inteligente, como já dizia o professor Samuel Benchimol, das nossas potencialidades.
O que não precisamos, decididamente, é de outro ciclo de frustrações ou de promessas. Ou de mais um ciclo perdido...