em manaus

Saneamento e reciclagem apontam para o futuro dos igarapés

Obra no beco São Vicente implantou 1,2 km de rede aérea interligada à ETE Parque Mosaico no bairro Redenção

Emile de Souza
Especial para A CRÍTICA
25/09/2026 às 11:33.
Atualizado em 25/09/2026 às 11:33

Ação social realizada no igarapé (Foto: Divulgação)

Pela primeira vez, a área de rip-rap cortada pelo Igarapé do Gigante alcança acesso ao sistema de esgoto. A implementação do serviço com tecnologia adaptada, feita pela concessionária Águas de Manaus no beco São Vicente, localizado no bairro Redenção, na zona Centro-Oeste de Manaus, representa novo começo e aponta para um futuro construído por saneamento, educação ambiental e a união da comunidade.

A iniciativa implementa uma rede coletora com cerca de 1,2 quilômetro, que garante o destino adequado do esgoto de 600 famílias da região até à Estação de Tratamento de Esgoto Parque Mosaico.

Obra no beco São Vicente implantou 1,2 km de rede aérea interligada à ETE Parque Mosaico no bairro Redenção (Foto: Divulgação)

 O coordenador de projetos da concessionária, Hegno Silva, explicou que o local passou por mapeamento e estudo topográfico. Segundo ele, o maior diferencial do projeto é a adequação dos serviços de acordo com suas particularidades.

“Manaus tem uma realidade topográfica complexa e, por isso, precisamos adaptar para cada realidade. No beco São Vicente, estruturamos redes aéreas nas duas laterais do rip-rap e colocamos todas as conexões dos moradores que estavam à espera. Essa rede segue a topografia do igarapé. À medida que o igarapé vai seguindo em queda, as redes também seguem a mesma topografia”, disse.

Modelo para outros estados

A implementação do sistema de esgoto em cada região de Manaus passa por mapeamento e estudo topográfico, isso porque a capital apresenta particularidades devido ao crescimento acelerado, com a presença marcante de becos e vielas às margens dos rios e igarapés.

Com uma engenharia desenvolvida para ir além das questões técnicas, os projetos funcionam como soluções sociais que levam dignidade para a população que mais precisa. Por esse motivo, outros estados brasileiros já se inspiram no modelo.

Hegno Silva destacou que o início do programa Trata Bem consolidou o sucesso da estrutura de outra área, o beco Nonato, no bairro Cachoeirinha, zona Sul.

À medida que o igarapé vai seguindo em queda, as redes também seguem a mesma topografia (Foto: Divulgação)

 O coordenador de projetos informou que, graças à funcionalidade e ao empenho em alcançar a população em áreas de palafita e rip-rap, o programa se tornou conhecido nacionalmente.

“O projeto é um ‘case’ de sucesso e foi exportado para outras áreas do Brasil, como Rio de Janeiro e Pará. Na comunidade da Maré, está feito semelhante ao beco São Vicente. Lá tinha uma rampa semelhante ao rip-rap e o esgoto caía todo no mar. Alguns dos nossos profissionais foram ao Rio de Janeiro ensinar como fazer essas estruturas”.

Mesmo com a inovação em garantir os serviços em áreas complexas, ele afirma que a parte principal desse processo é a conscientização e a educação ambiental junto da comunidade.

“O programa tem diversos pilares, tanto do ponto de vista da engenharia quanto social. Pensamos em como eles conseguirão se conectar à rede de esgoto e utilizá-la. É um trabalho de várias mãos, e um deles é ensinar como utilizar e quais coisas não jogar ali, como o óleo, por exemplo. Então, nosso principal aliado é a população”, informou.

Sonho realizado

A artesã Cristina Silva, 64, é uma das moradoras que tem esperança de despoluir o igarapé. Para ela, apesar da recuperação ser um trabalho complexo, ter conseguido água tratada em 2019 e, agora, da rede de esgoto já é um avanço significativo rumo ao futuro da comunidade.

“É um sonho realizado. Olhar e ver de onde saímos e onde estamos agora é um avanço gigante. Hoje temos água tratada, esgoto tratado, e isso é motivo de felicidade. Hoje não vemos mais os dejetos caindo, lixo por todo lado, o cheiro não é mais ruim e não tem mais ratos. Isso nos trouxe dignidade. Podemos até ficar na frente da nossa casa. Com certeza essa mudança transformou nossa vida”.

Intervenção atua aliada ao Projeto Reusa, da artesã Cristina Silva, na reciclagem e preservação do igarapé do Gigante (Foto: Divulgação)

Reciclagem como fonte de renda e transformação

 Com a meta de recuperação do local, a artesã iniciou, em 2015, o Projeto de Restauração Ecológica e Urbanização Sustentável na Amazônia (Reusa), com principais materiais como garrafas PET, papel e CD. Tudo aquilo que a comunidade via que poderia ser reciclável passou a ser reaproveitado.

Atualmente, o projeto alcança 25 mulheres empreendedoras, que conseguem, por meio da reciclagem, do crochê, da costura e de outras técnicas artesanais, levar renda para casa.

Cristina Silva conta que a iniciativa pensa no futuro a partir das ações realizadas hoje.

“O futuro do mundo é um mundo reciclado. Não temos outro planeta, então temos que utilizá-lo novamente, de uma forma diferente e mais consciente. Se cada um fizer sua parte, daqui a um tempo, vamos ter lixo bem reduzido”.

O altruísmo e cuidado com o meio ambiente cresceu e, a partir dessa parceria da concessionária com a comunidade, percorreu o rip-rap e alcançou novos olhares em direção ao futuro.

Voluntária é parte da construção

A voluntária Amanda Auzier, 26, se inscreveu no site da Águas de Manaus para somar à equipe do Beco São Vicente. Ela contou que ver os igarapés de Manaus despoluídos é um sonho ainda distante, mas que quer fazer parte dessa construção.

“Na situação que está o Amazonas, eu quis fazer parte das ‘formiguinhas’. Eu decidi ajudar e fazer a diferença. Eu sei que ver os igarapés limpos, por enquanto, é apenas um sonho, infelizmente, mas eu acredito que chegaremos lá. Isso depende da consciência ambiental chegar em cada um.”

A voluntária Amanda Auzier durante ação comunitária de conscientização e coleta seletiva de resíduos (Foto: Divulgação)

 Mais do que uma obra de infraestrutura, a chegada do saneamento ao Beco São Vicente aponta um desejo comum de mudança. Com a rede implementada e o projeto de reciclagem funcionando, a área tem parcerias que prometem mudar o curso das águas da poluição.

Além do artesanato com materiais recicláveis, o local agora recebe descarte de óleo de cozinha. A cada duas garrafas PET cheias, o morador ganha um detergente.

Também há ponto de coleta seletiva implementado. E, com parcerias com a Prefeitura de Manaus, também serão instaladas duas ecobarreiras.

Modelo atual

O beco São Vicente é um dos modelos mais atuais da busca pela universalização do tratamento de esgoto, que atualmente já atende 40% da população amazonense, deve chegar a 60% no ano que vem e alcançar 90% até 2033.

Com esse avanço, a população precisa se conectar à rede de tratamento de esgoto e voltar a sonhar com a despoluição de rios e igarapés da capital. Sonho este que só é possível com a participação de todos.

Redes aéreas nas laterais do rip-rap ao longo do curso, respeitando a topografia do igarapé

Investimento   

 O Trata Bem prevê investimento de aproximadamente R$ 2 bilhões e cerca de 3 milhões de metros de redes coletoras, além da construção e ampliação de 70 Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). A meta é universalizar o serviço em menos de dez anos.

  

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por