Estudo da Ufam aponta que destruição da mata ciliar retira barreira natural contra as altas temperaturas
Igarapé sofre com a contaminação e perda de cobertura vegetal. (Junio Matos/ A Crítica)
Imagine você não poder andar pela calçada nas ruas do seu bairro. Talvez até pior: imagine ser obrigado a ficar preso dentro de sua casa, sem poder usar nenhum espaço público por risco à sua saúde. Assustador, né? Mas e se eu te contar que isso, na prática, é muito parecido com uma realidade que já vivemos em Manaus?
Essa situação está ali, dispersa em 67 igarapés oficialmente reconhecidos pela prefeitura e divididos em quatro grandes Bacias Urbanas: São Raimundo, Educandos, Tarumã e Puraquequara.
É que, de acordo com as estimativas da Comissão Interinstitucional em Defesa dos Igarapés de Manaus, 80% deles estão poluídos. Condição que não apenas os adoece, mas também afasta um bem público da população, como bem explicou a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Marcela Amazonas.
A poluição desses espaços está relacionada a outra dificuldade enfrentada pela população em geral na capital do estado: o calor. Pesquisas desenvolvidas pela Divisão de Estudos Ambientais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) dizem que a perda de cobertura vegetal no entorno desses igarapés retira uma ferramenta importante no combate às altas temperaturas. Ocorre que as árvores reduzem o calor ao bloquear a radiação solar com suas sombras e ao liberar vapor de água na atmosfera por meio da evapotranspiração.
Bibiano Filho é coordenador de uma comissão em defesa dos igarapés
Outro ponto observado é o de se refrescar com banho. Isso era comum algumas décadas atrás aqui na capital, mas se perdeu com o avanço da poluição e a invasão de áreas verdes. Lembra da falta de acesso a espaços públicos do início desta reportagem? Ela também aparece nesse contexto.
As pesquisas acadêmicas não apontam para um fator único como o culpado pela poluição dos igarapés em Manaus. Na verdade, são muitos os fatores sugeridos pelos estudos. Eles vão desde o crescimento desordenado de ocupações irregulares até a falta de educação ambiental da própria população na cidade. Soma-se também o pouco interesse do poder público em resolver essa realidade ao longo das décadas.
Por outro lado, a forma como o esgoto é tratado na capital chama a atenção de entidades como a própria Comissão Interinstitucional em Defesa dos Igarapés de Manaus – ligada à Arquidiocese da capital. Eles dizem que a falta de saneamento, do tratamento do esgoto, muitas vezes despejado nesses cursos d’água, impede a recuperação deles.
A empresa citada é a Águas de Manaus. Ela respondeu à solicitação de A CRÍTICA, a respeito da cobertura do saneamento na cidade.
Por meio de nota, informou que: “O sistema de esgotamento sanitário de Manaus está em expansão. Com os investimentos da Águas de Manaus, a cobertura de esgoto na capital saiu de 16% para 42% entre 2018 e 2026, e a meta é chegar à universalização em menos de dez anos. Para isso, o programa Trata Bem Manaus prevê cerca de R$ 2 bilhões em investimentos até 2033. Mas essa transformação só é visível quando todos participam. Conectar o imóvel à rede disponível e usar o sistema corretamente é o que garante que o esgoto seja de fato tratado. Sem a adesão da população, o investimento não alcança todo o seu resultado”.
Não há um cálculo geral, uma estimativa única que possa ser usada para dizer quanto custaria a recuperação de um igarapé poluído, seja para os cofres públicos ou para iniciativas privadas. A pesquisadora Marcela Amazonas estima, porém, o tempo: cerca de dois anos para o estágio inicial.
Existem alguns projetos na capital com esse intuito, um deles feito pela própria Arquidiocese de Manaus.
A proposta é recuperar o “Igarapé do Coroado”, nas proximidades da Ufam. Com o sucesso da operação, a entidade espera conseguir apoio do Governo Federal para realizar esse processo em escala na cidade de Manaus.