Feirantes recorrem ao à refrigeração salvar frutas e folhas, enquanto motoristas estendem turnos até à noite
A feirante Cláudia Pereira, a 'Morena', reorganiza a conservação de hortifrúti em ambiente refrigerado na feira (Foto: Stephane Brasil)
Há mais de 30 anos trabalhando como feirante, Cláudia Pereira, de 55 anos, conhecida como “Morena”, já viu muitos dias quentes em Manaus. Mas, segundo ela, o calor deste ano tem exigido mudanças até na forma de conservar as mercadorias.
Frutas e verduras que antes podiam permanecer expostas passaram a ser retiradas do calor e armazenadas em ambientes refrigerados. A mudança veio depois que a feirante começou a perceber que os produtos estavam estragando mais rápido.
Manga, mamão e banana estão entre os produtos mais afetados, segundo Cláudia. O problema também chega às folhas e verduras, que precisam de atenção redobrada durante os períodos mais quentes do dia.
Para reduzir as perdas, a comerciante passou a colocar uma quantidade maior de produtos no frio.
“No início a gente não guardava tudo no gelo ou geladeira. Agora, com a perda, passamos a guardar no frio para conservar”, explica.
A estratégia representa uma mudança na rotina de trabalho, mas também uma tentativa de evitar que o prejuízo seja ainda maior. Para quem depende das vendas, uma mercadoria que estraga antes de chegar ao consumidor também representa dinheiro perdido.
O impacto das altas temperaturas também aparece na rotina de quem passa horas nas ruas. O motorista de aplicativo Kario Lucena conta que precisou reorganizar os horários de trabalho para lidar com o calor.
O período entre 12h e 15h, justamente quando as temperaturas costumam subir, também concentra uma grande demanda por corridas e entregas.
Motociclistas fazem pausa estratégica de trabalho para hidratação durante o horário de pico do calor (Foto: Arquivo/AC)
Para continuar trabalhando, Kario passou a fazer pequenas pausas ao longo do dia.
“Muitas vezes paro por conta do calor. Faço aquelas pausas de dez minutos para relaxar o corpo e a temperatura”, conta.
O motorista também precisou reorganizar toda a jornada. A estratégia é começar mais cedo, fazer pausas nos períodos de maior calor e permanecer na rua até mais tarde para conseguir atingir a meta diária.
“Já temos uma rotina por causa do calor de Manaus. Troco o horário, saio mais cedo, fico até mais tarde até fazer a meta. Temos que cumprir nossa diária para conseguir fechar o mês e pagar as contas”, explica.
Na prática, a adaptação não significa necessariamente trabalhar menos. Para alcançar a mesma meta de renda, Kario muitas vezes precisa prolongar a jornada.
Além do desgaste físico, as altas temperaturas também aumentam os custos para quem trabalha diariamente com motocicleta.
“Com o calor extremo, gastamos mais água, óleo, pneu. Tudo gasta a mais”, afirma.
O relato dos trabalhadores ocorre em um período de temperaturas elevadas na capital amazonense. No dia 1º de setembro, Manaus registrou 37,6°C, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A marca foi a maior temperatura registrada na cidade em 2026 até então.
Segundo a meteorologista Andrea Ramos, setembro e outubro estão entre os meses mais quentes do ano em Manaus. Os primeiros dias de setembro, porém, registraram temperaturas acima do padrão climatológico esperado para o período.
De acordo com a meteorologista, a tendência de calor deve continuar ao longo do mês, já que setembro e outubro fazem parte do período mais quente do ano na capital.
De acordo com a meteorologista Andrea Ramos, o calor observado em Manaus é resultado de uma combinação de fatores. A capital está no chamado verão amazônico, período marcado pela redução das chuvas e pelo aumento da incidência de radiação solar.
Com menos chuva, também há menos nebulosidade. Isso permite maior incidência de radiação solar sobre a superfície e favorece a permanência do ar quente.
“O que está provocando esse calor mais intenso é uma combinação de fatores. Manaus está entrando agora numa época de dias mais quentes. A região Norte segue aquela tendência do verão amazônico, que é quando você tem temperaturas elevadas e estiagem, que é a diminuição das chuvas”, explica.
A meteorologista ressalta que isso não significa ausência completa de chuva. O período é marcado, principalmente, pela redução das precipitações em comparação com a estação chuvosa.
Além da temperatura registrada pelos termômetros, outro fator influencia a forma como o corpo percebe o calor: a umidade.
A temperatura registrada representa a temperatura do ar medida de forma padronizada. Já a sensação térmica considera como o organismo percebe as condições do ambiente. Em situações de alta umidade, por exemplo, a evaporação do suor é dificultada, reduzindo a capacidade do corpo de perder calor.
Por isso, uma temperatura de 36°C ou 37°C pode provocar uma sensação ainda maior dependendo da combinação entre umidade, vento, radiação solar e exposição direta ao sol.
O calor registrado em Manaus também ocorre em um contexto de influência do El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.
Segundo Andrea, o fenômeno deve ser tratado como um condicionante climático de fundo. Ou seja, não é possível atribuir diretamente a ele a temperatura registrada em um determinado dia, mas o El Niño pode favorecer a persistência de condições mais quentes e secas.
“O El Niño não explica sozinho cada dia quente, mas favorece um cenário climático de temperaturas mais elevadas e menor ocorrência de chuva em parte da Região Norte”, explica.
O fenômeno foi confirmado em junho de 2026 e há previsão de que permaneça pelo menos até o início de 2027.
A tendência é de manutenção das altas temperaturas em Manaus. Segundo a meteorologista, as máximas devem permanecer frequentemente entre 36°C e 38°C nos próximos dias, embora ainda possam ocorrer pancadas de chuva isoladas.
Para quem trabalha ao ar livre, a recomendação é reduzir a exposição nos horários de maior aquecimento, buscar sombra sempre que possível e manter a hidratação frequente.