ENTRE PEDIDOS E DISPENSAS

Amazonas dispensou equipes federais duas vezes durante crise das queimadas, apontam documentos

Ibama registra dispensa de equipes terrestres em setembro; CBMAM contesta recusa de apoio federal e afirma que a necessidade era de aeronaves.

Pedro Sousa
10/10/2026 às 09:43.
Atualizado em 10/10/2026 às 14:44

Incêndio florestal atinge área de vegetação no Cacau Pirera, em meio à crise de queimadas que mobiliza equipes de combate e motivou pedidos de apoio aéreo. (Foto: Jorge Alberto/A CRÍTICA)

Documentos oficiais apontam que o governo do Amazonas dispensou apoio federal de equipes terrestres em dois registros durante a crise das queimadas, em setembro. Em ofício, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) informa que o comandante do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), coronel Orleilso Muniz, declinou do acionamento de equipes em 25 de setembro. Já o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) afirma que, em 30 de setembro, o governo estadual comunicou que não precisava mais de reforço após chuvas contribuírem para o controle dos focos de incêndio.

O comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, coronel Orleilso Muniz, é citado em ofício do Ibama que registra a dispensa de equipes federais de combate a incêndios florestais. Foto: Nilton Ricardo/A Crítica

 A informação sobre o primeiro episódio consta em ofício assinado pelo presidente do Ibama, Jair Schmitt, em 6 de outubro. O ofício foi revelado em primeira mão pelo jornalista Cley Medeiros, em publicação em suas redes sociais e posteriormente confirmada pelo secretário extraordinário de Controle dos Desmatamentos e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente, André Lima, durante entrevista ao vivo ao programa Alô Cidade, na manhã deste sábado (10), na TV A Crítica. 

Segundo o documento, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) havia solicitado apoio federal para o combate às queimadas em nove municípios amazonenses, incluindo Careiro da Várzea, Autazes, Apuí, Manicoré e Novo Aripuanã.

Após o encaminhamento da solicitação, o Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional Nacional (Ciman Federal) acionou os procedimentos para mobilização de equipes especializadas. No entanto, conforme o Ibama, em 25 de setembro, o Centro Nacional de Apoio a Emergências Ambientais (Respad) informou que o comandante do CBMAM havia declinado do acionamento solicitado pela Sema. 

Ainda de acordo com o documento, durante reunião realizada naquele mesmo dia, um contato telefônico com o comando dos Bombeiros indicou que, naquele momento, a necessidade do Estado estava restrita ao apoio aéreo. O secretário estadual de Meio Ambiente ficou de reavaliar a necessidade de envio de pessoal e apresentar uma nova solicitação, caso fosse necessário. 

Ofício do Ibama – página 1 ()

Ofício do Ibama registra que o comandante do Corpo de Bombeiros do Amazonas declinou, em 25 de setembro, do acionamento de equipes federais solicitado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente

Em nota (confira na íntegra ao final da reportagem), o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) contestou a informação de que o Estado teria recusado apoio do Governo Federal para o combate às queimadas. A corporação afirmou que o plano Respad prevê a mobilização de bombeiros militares entre os estados, condicionada à disponibilidade e à autorização de cada governo estadual, e que, portanto, não constitui um recurso direto da União.

O CBMAM também reiterou que o Governo do Amazonas formalizou um pedido de reforço com aeronaves de combate a incêndios. Segundo a corporação, os equipamentos são indispensáveis para alcançar focos em áreas de difícil acesso terrestre.

Fumaça

A discussão sobre o apoio federal ocorre em meio ao agravamento das queimadas no Amazonas e à recorrente presença de fumaça que encobre Manaus e municípios do interior. Nos últimos dias, a piora da qualidade do ar levou à suspensão de aulas presenciais na capital, enquanto monitoramentos ambientais registraram níveis críticos de material particulado. A fumaça está associada a incêndios no interior do estado, incluindo áreas do sul do Amazonas, e tem mantido a população sob alerta.

A fumaça provocada pelas queimadas reduz a visibilidade e contribui para a piora da qualidade do ar no Amazonas. Foto: Junio Matos/A CRÍTICA

Governo Federal relata nova dispensa após chuvas

Em nota divulgada na sexta-feira (9), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima apresentou outro registro sobre a mobilização de equipes federais. Segundo a pasta, após o pedido encaminhado em 23 de setembro, foram acionados combatentes do Respad e uma aeronave por meio do protocolo Pegasus.

O ministério informou que, em 30 de setembro, após chuvas contribuírem para o controle dos focos de incêndio, o governo do Amazonas comunicou que não havia mais necessidade do apoio do Respad. Com isso, a equipe federal foi desmobilizada antes de atuar em campo.

Equipes atuam no combate às chamas em área de vegetação atingida por incêndio florestal no Amazonas. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA

 Os registros do Ibama e do MMA descrevem manifestações do Estado sobre a necessidade de equipes federais em momentos diferentes. Os documentos disponíveis, porém, não esclarecem se a comunicação de 30 de setembro correspondeu a uma reavaliação da mesma mobilização mencionada no ofício do Ibama ou a um episódio distinto.

Pedidos de aeronaves não puderam ser atendidos, alega Senasp

Viatura do Corpo de Bombeiros em área afetada pela fumaça durante as ações de combate aos incêndios florestais. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA

  

Paralelamente à mobilização de equipes terrestres, o governo do Amazonas já buscava apoio aéreo para combater os incêndios. Em 18 de setembro, sete dias antes do registro de dispensa das equipes federais, o comandante do CBMAM encaminhou ao Ministério da Justiça um ofício solicitando quatro aeronaves de combate a incêndios florestais e um avião do modelo Bandeirante, ou equivalente, para transporte de pessoal e apoio logístico. O pedido também incluía veículos para as operações.

Em ofício enviado em 18 de setembro ao Ministério da Justiça, o CBMAM solicitou quatro aeronaves para combate a incêndios florestais e uma aeronave para transporte de pessoal e apoio logístico.

 A resposta, porém, foi formalizada em 1º de outubro, quando a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) informou a impossibilidade de atender à solicitação naquele momento, alegando indisponibilidade dos equipamentos para doação. No mesmo ofício, a secretaria indicou alternativas para a captação de recursos destinados à segurança pública, como editais de financiamento, transferências do Fundo Nacional de Segurança Pública e recursos de emendas parlamentares, mediante convênios ou contratos de repasse. A Senasp também disponibilizou uma diretoria técnica para prestar esclarecimentos sobre essas modalidades de financiamento.

Fumaça se espalha sobre área de vegetação atingida por incêndio florestal; o combate às chamas exige recursos e estrutura operacional. Foto: Jorge Alberto/A CRÍTICA

Estado ainda não pediu reconhecimento federal de emergência por queimadas

 Outro pedido, relacionado à disponibilização de duas aeronaves para atuação em áreas críticas do Amazonas, seguiu um procedimento diferente. Conforme cronologia divulgada pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), a demanda foi encaminhada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) por meio do protocolo Pegasus.

Na sexta-feira (9), o MJSP informou que havia consultado nove unidades aéreas públicas, mas nenhuma apresentava condições operacionais para atender à demanda naquele momento. Entre os obstáculos citados estavam manutenção das aeronaves, indisponibilidade de tripulações, restrições de deslocamento ou de horas de voo e ausência de equipamentos especializados para o combate a incêndios.

Diante da indisponibilidade, a Sedec encaminhou, também na sexta-feira, uma solicitação de duas aeronaves ao Ministério da Defesa. Até a atualização do documento, o pedido ainda aguardava resposta.

Documento da Defesa Civil registra que nove unidades aéreas públicas foram consultadas, mas nenhuma tinha condições operacionais para atender à demanda naquele momento. Em 9 de outubro, um novo pedido de duas aeronaves foi encaminhado ao Ministério da Defesa

 A Sedec também aponta que, até 9 de outubro, o Governo do Amazonas não havia apresentado, no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), pedido de reconhecimento federal de situação de emergência relacionado à estiagem ou aos incêndios florestais. O Estado já tinha um decreto de emergência em razão da estiagem, mas, segundo o documento, o decreto específico para incêndios florestais ainda aguardava a assinatura do governador.

A secretaria informou ainda que não havia negado o processamento de pedidos nem o apoio aéreo federal. Segundo a Sedec, foram prestadas orientações ao Estado, acionado o protocolo Pegasus e formalizada a solicitação de duas aeronaves ao Ministério da Defesa.

União anuncia seis aeronaves e 290 brigadistas

 Em meio às divergências sobre o apoio federal, o Ministério do Meio Ambiente anunciou, na sexta-feira (9), a disponibilização de seis aeronaves para reforçar o combate às queimadas no Amazonas: quatro aviões Air Tractor e dois helicópteros. A pasta também informou que 290 brigadistas seriam disponibilizados para as operações.

O superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, afirmou que quatro aeronaves de combate a incêndios deveriam chegar ao Estado neste sábado (10). A previsão, no entanto, não confirma por si só que os equipamentos tenham chegado ou iniciado as operações.

Na mesma manifestação, o MMA destacou investimentos de R$ 45 milhões do Fundo Amazônia no programa ProAmazon, destinado ao fortalecimento das ações de prevenção e combate ao desmatamento e aos incêndios florestais no Estado.

Vista aérea de Manaus sob condições de baixa visibilidade em meio ao período de fumaça associado às queimadas na região. Foto: Jorge Alberto/A CRÍTICA

 Confira a íntegra da nota do CBMAM:

O Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) esclarece que não procede a informação de que o Estado teria recusado apoio do Governo Federal para o combate às queimadas.

O CBMAM ressalta que o plano RESPAD refere-se à mobilização de bombeiros militares entre os estados, cuja efetivação depende da disponibilidade e autorização de cada governo estadual, não constituindo um recurso direto da União.

O Governo do Amazonas reitera que formalizou junto ao Governo Federal a solicitação de reforço com aeronaves de combate a incêndios, recurso indispensável para o combate aos focos instalados em áreas de difícil acesso terrestre.

 *Reportagem atualizada às 14h deste sábado (10) para inclusão de nota oficial do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas.

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