Mobilização

Vandalismo vai parar na ouvidoria da Ufam

Estudantes vão entregar documento com cobrança de medidas para evitar que casos semelhantes voltem a se repetir

Waldick Júnior
30/04/2026 às 08:47.
Atualizado em 30/04/2026 às 10:04

Estudantes realizaram oficina de cartazes na Faculdade de Educação para substituir outros que haviam sido destruídos durante o ato de vandalismo protagonizado por extremistas no último sábado (Foto: divulgação/Juventude Manifesta AM)

Estudantes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) vão levar à reitoria, ao Conselho Universitário (Consuni) e à ouvidoria um caso de vandalismo praticado por ativistas de extrema-direita dentro da instituição. O documento, que deve ser entregue nesta quinta-feira, pede providências para evitar que episódios semelhantes se tornem comuns.

(Foto: Juventude Manifesta AM)

A presidenta da União Estadual dos Estudantes (UEE), Thaly Duarte, afirmou que o movimento está sendo organizado para ser um aviso. “Essas pessoas não podem se sentir confortáveis em fazer isso em uma universidade pública, que é de livre acesso, mas não pode ter vandalismo, ofensa às pessoas” disse à reportagem.

A carta começou a ser escrita ainda na terça-feira (28), quando cerca de 100 alunos se reuniram no Hall da Faculdade de Educação (Faced) da Ufam para produzir novos cartazes para substituir os que foram destruídos em um ato de vandalismo ocorrido no sábado (25).

As mensagens escritas pelos alunos durante o ato de quarta-feira incluem desde reinvidicações relacionadas ao ambiente universitário, como melhorias no restaurante universitário e nas condições de trabalho dos empregados terceirizados da instituição até questões políticas “externas”, como o fim da escala 6x1 e os ataques de Israel contra palestinos.

(Foto: Juventude Manifesta AM)

 COBRANÇA

A nova manifestação foi organizada pelos centros acadêmicos de História, Biblioteconomia, Arquivologia, Música, Artes, Pedagogia, Ciências Sociais, Serviço Social, Geografia, entre outros.

Alunos reuniram mais de 150 assinaturas para cobrar medidas da instituição

 Também participaram outras entidades, como a Juventude Manifesta AM, a Associação pela Libertação da Palestina (ALP), Movimento Correnteza AM, União da Juventude Socialista (UJS) e PSOL Amazonas.

Somente na ocasião, foram coletadas cerca de 150 assinaturas para apoiar o documento que deve ser entregue à instituição. Os estudantes também pretendem abrir um link para coletar mais assinaturas on-line e fortalecer a resposta ao caso.

“Iniciaremos em conjunto com as entidades as cobranças de posicionamento por parte da reitoria da Ufam, Associação de Docentes da Ufam e Ministério Público Federal”, afirma o coordenador  afirma o coordenador Estadual da Juventude Manifesta AM, Leo Balbi.

 POSICIONAMENTO

 Na quarta-feira, a Ufam fez uma publicação nas redes sociais onde afirma não haver espaço para ódio na universidade. “Transfobia, racismo e qualquer forma de violência ou discurso de ódio atentam contra a dignidade humana e são crimes, conforme a legislação brasileira”, diz a publicação.

O post não menciona diretamente o episódio do fim de semana. A reitora Tanara Lauschner também não se manifestou publicamente sobre o caso.

Por meio de nota, a Ufam reiterou que é um espaço democrático e plural, no entanto, destacou que não coaduna com discursos de ódio e violência ou com ações que possam ser classificadas como tentativa de censura. Confira a nota na íntegra:

A propósito dos questionamentos sobre a retirada e destruição de materiais informativos no Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais (IFCHS), a Reitoria da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) esclarece:

1. Sobre a avaliação da entrada de público externo e das ações ocorridas no espaço universitário: A Ufam é, por excelência, um lugar democrático, caracterizado pelo livre acesso e pela preservação da liberdade de opinião. Valorizamos a diversidade de pensamento e de expressão, pois entendemos que a universidade não é um espaço de pensamento único, mas um território de pluralidade, de crítica e de confronto de ideias — sejam elas ideológicas, políticas, científicas ou sociais.

Entretanto, a Ufam não coaduna com discursos de ódio, de violência ou com ações que possam ser classificadas como tentativa de censura. A democracia não se fortalece com a destruição de manifestações, mas sim por meio do debate, da escuta e do respeito ao direito de expressão. Atos que visam silenciar ideias dentro do campus ferem a própria natureza da construção do conhecimento.

2. Sobre a adoção de medidas e investigações:A Universidade esclarece que não tolera qualquer forma de violência ou desrespeito à dignidade humana. Caso seja necessário, a instituição adotará as medidas administrativas cabíveis  e acionará as autoridades competentes caso haja ameaça à integridade do patrimônio imaterial e ao direito à livre manifestação dentro de suas dependências.

Defender a universidade é defender a liberdade de pensar. A Ufam permanece firme em seu propósito de ser um espaço onde ideias podem e devem ser debatidas livremente.

Contra a “ideologia marxista”

No sábado, um grupo de jovens que se autoidentifica como cristãos conservadores e patriotas destruiu cartazes que traziam mensagens semelhantes às que agora foram reescritas pelos alunos. O vídeo do ataque foi publicado nas redes sociais.

Um deles se declara “redpill” nas redes sociais, uma subcultura da internet que acredita que homens seriam vítimas de manipulação feminina e devem assumir um papel de dominador sobre elas.

Na gravação, eles afirmam que a universidade “não é lugar de ideologia”, de “fazer politização” e que receberam denúncias de que havia vários cartazes na instituição com “ideologias marxistas” e “de esquerda”, o que os levou até lá para destruir as mensagens.

Em outro vídeo publicado após a repercussão da primeira postagem, uma das participantes do ato de vandalismo afirmou que estava sendo ameaçada de morte. Ela disse que estava fazendo aquilo pensando no futuro dos filhos e de outros jovens que um dia possam estudar na universidade pública.

 MG e SP também registram casos

 Tesoureiro do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Ufam, Ricardo Miranda afirma que os estudantes e as instituições precisam se manifestar contra o episódio para que não ocorra o mesmo já visto em outras universidades pelo país.

“A gente entende que isso não é um fenômeno pontual de Manaus. Existe uma movimentação nacional da extrema-direita, se organizando na internet, tentando mobilizar a juventude para serem porta-vozes de ideias macabras, retrógradas”, diz.

Casos semelhantes ocorreram ao longo das últimas semanas, no país. Um deles foi registrado na Universidade de São Paulo (USP), sob a liderança do vereador Lucas Pavanato (PL). O parlamentar, que é jovem e alinhado às pautas da extrema-direita, também critica pautas da esquerda.

No mês passado, o vereador colocou uma barraca com a frase “aborto é assassinato” para, segundo ele, dialogar com os estudantes. O ato acabou em agressão física entre pessoas que o acompanhavam e estudantes. Um aluno ficou hospitalizado.

Já no último dia 22 de abril, dois influenciadores da extrema-direita causaram uma confusão na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), após desafiarem estudantes a provarem ao Brasil que Lula seria melhor que Bolsonaro.

O influenciador e pré-candidato a deputado estadual por São Paulo, Douglas Garcia (União), que liderou o ato, afirmou que tinha a intenção de promover um “debate” com os alunos. Ele disse que uma das mulheres que o acompanhava foi agredida e por isso ele teve de agir.

“Uma dessas pessoas que praticou o vandalismo na Ufam se identificava como red pill. Isso significa que esses grupos estão insatisfeitos com as mulheres no poder. É uma resposta deles aos avanços civilizatórios nas pautas das mulheres, dos indígenas, LGBTs e negros. Esse é um movimento que agride e ameaça estudantes, por isso, solicitamos esses posicionamentos das instituições”, conclui Ricardo.

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