Publicação apresentada no Salão do Turismo, em Fortaleza, nasce de pesquisa nacional conduzida pelo programa Mais Acesso da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em parceria com o Ministério do Turismo (MTur), e propõe medidas práticas para tornar o turismo brasileiro mais inclusivo e acessível.
(Foto: Arquivo Pessoal)
O turismo inclusivo e acessível ganha força no Brasil com novas propostas que buscam transformar experiências pautadas no acolhimento e respeito à diversidade. Em um setor marcado por desafios estruturais e culturais, iniciativas voltadas à inclusão de pessoas neurodivergentes apontam caminhos para um atendimento mais humano, capaz de garantir dignidade e ampliar o direito de viajar e conhecer diferentes destinos.
Diante deste contexto desafiador, foi lançado na última quinta-feira (7) o Guia Para Atender Bem Turistas Neurodivergentes, durante o Salão do Turismo em Fortaleza (CE). A publicação inédita nasce de uma pesquisa nacional conduzida pelo programa Mais Acesso, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em parceria com o Ministério do Turismo (MTur), e reúne orientações práticas para qualificar o atendimento e tornar o turismo brasileiro verdadeiramente mais inclusivo. O guia pode ser acessado no link.
(Foto: Divulgação)
Em entrevista ao A CRÍTICA, à professora doutora e coordenadora do programa Mais Acesso, Marklea da Cunha Ferst, o Guia representa um avanço para o turismo em todo o território brasileiro, pois traduz a inclusão em ações práticas possíveis de serem implementadas no setor turístico, fortalecendo a concepção de um turismo mais humano, competitivo e inclusivo.
“A iniciativa demonstra que acessibilidade não se limita às barreiras físicas, mas também envolve comunicação, previsibilidade, acolhimento e respeito às diferentes formas de perceber e interagir com o ambiente. Para a Universidade, o guia materializa o papel da pesquisa aplicada: transformar evidências científicas em soluções concretas para a sociedade”, ressaltou a professora.
(Foto: André Zímmerer/Davi Rocha/Ministério do Turismo)
A pesquisa, idealizada e coordenada pela professora, foi realizada com a participação de voluntários e bolsistas do programa Mais Acesso, da UEA, em parceria com o MTur, contou com a ampla divulgação da imprensa para captação do público-alvo em todo o território nacional.
“A pesquisa teve duas fases executórias. A primeira com as respostas a um questionário online e a segunda, após a elaboração do Guia, para validação das informações com grupos focais. Nas duas fases foram ouvidas pessoas neurodivergentes, familiares e profissionais do setor turístico. Tivemos 761 respondentes válidos em âmbito nacional, o que permitiu compreender diferentes perspectivas sobre as barreiras enfrentadas durante experiências turísticas”, detalhou.
Na prática, o Guia pode ajudar todos os setores da cadeia turística, sejam hotéis, restaurantes, atrativos turísticos, meios de transporte ou eventos, a se prepararem melhor para receber visitantes neurodivergentes, elevando a qualidade das experiências e fortalecendo um turismo.
(Foto: Arquivo Pessoal)
“Um dos principais desafios foi justamente compreender a diversidade dentro da própria neurodivergência. Não existe uma necessidade única ou um perfil homogêneo. Algumas pessoas relatam maior impacto relacionado ao excesso de ruído e iluminação; outras apontam dificuldades ligadas à imprevisibilidade, mudanças de rotina ou falta de informações claras antes da viagem. Por isso, o guia foi estruturado com foco em flexibilidade, acolhimento e adaptações razoáveis”, ressaltou.
Turismo, inclusão e acessibilidade no Amazonas
Nos últimos anos, o Amazonas tem avançado de forma significativa no debate sobre acessibilidade e inclusão no turismo. Segundo a coordenadora do programa Mais Acesso, o Estado já registra maior interesse institucional, crescimento de iniciativas voltadas à capacitação de profissionais e participação ativa das universidades nas discussões sobre turismo acessível, consolidando-se como referência nacional na construção de um setor mais inclusivo e democrático.
“Ainda existem desafios importantes. Muitos empreendimentos ainda associam acessibilidade apenas à dimensão física, quando ela também envolve comunicação, atendimento, acessibilidade sensorial e preparo das equipes. Além disso, fatores geográficos e estruturais da região amazônica tornam algumas adaptações mais complexas, especialmente em áreas remotas e no turismo de natureza”, pontuou.
Embora o cenário apresente obstáculos a serem vencidos, a professora compreende que o estado do Amazonas se apresenta como potência e referência para um turismo inclusivo e sustentável.
“O Amazonas possui um potencial enorme para se tornar referência em turismo inclusivo sustentável, justamente porque consegue integrar biodiversidade, cultura, inovação social e experiências mais humanizadas”, assegurou.
O papel da universidade pública
A pesquisadora ressalta ainda que as universidades desempenham um papel estratégico ao aproximar ciência, sociedade e políticas públicas. De acordo com Ferst, a produção acadêmica permite identificar demandas reais, mapear barreiras enfrentadas por diferentes públicos, avaliar impactos e propor soluções fundamentadas em evidências, fortalecendo a construção de políticas inclusivas e práticas mais eficazes no setor turístico.
“As universidades contribuem para formação profissional, extensão universitária, desenvolvimento de tecnologias sociais e apoio técnico às instituições públicas e privadas. Quando a pesquisa sai do ambiente acadêmico e se transforma em materiais práticos, capacitações e instrumentos de gestão, ela passa a gerar impacto social concreto”, assegurou.
O Guia evidencia o papel essencial da universidade pública na construção de políticas inclusivas e no fortalecimento do turismo brasileiro. Ao unir pesquisa científica e compromisso social, a iniciativa mostra como o conhecimento produzido no ambiente acadêmico pode se traduzir em ações concretas, capazes de ampliar direitos, qualificar serviços e tornar o setor turístico mais humano e acessível.
“O guia não deve ser compreendido como um ponto final, mas como o início de um processo contínuo de construção de um turismo mais inclusivo, acolhedor e acessível. Esperamos que esse material contribua para ampliar o debate sobre neurodivergência no turismo e incentive o setor turístico a compreender que acessibilidade não é apenas obrigação legal, mas também qualidade, inovação e respeito à diversidade humana”, concluiu a professora.
Soluções de baixo custo e alto impacto social
A pesquisa revelou que pequenas mudanças podem gerar impactos significativos na experiência turística de pessoas neurodivergentes. Muitas das adaptações necessárias não exigem grandes investimentos financeiros, mas sim ajustes na organização dos processos e maior sensibilização das equipes, demonstrando que a inclusão pode ser alcançada com medidas simples e eficazes.
- Disponibilizar informações antecipadas sobre o ambiente, fluxo, sons, iluminação e tempo de espera;
- Criar espaços de pausa ou áreas mais silenciosas;
- Permitir maior flexibilidade em filas, cardápios ou formas de atendimento;
- Utilizar comunicação objetiva, visual e previsível;
- Reduzir estímulos sonoros excessivos em determinados horários;
- Capacitar equipes para compreender crises sensoriais sem julgamento ou constrangimento.
O que são pessoas neurodivergentes
Neurodivergente é um termo não-médico utilizado para descrever pessoas cujos cérebros funcionam, aprendem e/ou processam informações de maneira diferente do padrão considerado "típico".
De acordo com a Cleverland Clinic é uma variação natural do funcionamento cerebral (neurodiversidade) que abrange condições como Transtorno do Espectro Autista (Tea), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Síndrome de Tourette, Dislexia e outros, influenciando a comunicação, interação social e sensibilidade sensorial.