A poluição atmosférica também pode contribuir para a contaminação de rios, igarapés, córregos e áreas de abastecimento, agravando problemas ambientais que já afetam parte dos recursos hídricos do Estado.
(Junio Matos/A CRÍTICIA)
A fumaça provocada pelas queimadas que atingiram Manaus e outros municípios do Amazonas nas últimas semanas não representa apenas um problema para a qualidade do ar. A poluição atmosférica também pode contribuir para a contaminação de rios, igarapés, córregos e áreas de abastecimento, agravando problemas ambientais que já afetam parte dos recursos hídricos do Estado.
De acordo com Cristiane Mazzetti, coordenadora da Frente de Desmatamento do Greenpeace Brasil, as queimadas não são o principal fator de poluição dos corpos d'água, mas podem contribuir para o agravamento da contaminação, especialmente após a ocorrência de chuvas.
Cristiane Mazzetti alerta para o risco de eutrofização dos igarapés
“As queimadas podem sim contribuir com a poluição de rios e igarapés, embora esse não seja o principal fator de poluição desses corpos d’água”, disse Mazzeti.
Segundo ela, após um incêndio, o solo fica coberto por partículas presentes nas cinzas. Com as primeiras chuvas, esse material pode ser carregado pela água e chegar aos rios e igarapés.
“As cinzas contêm grandes concentrações de nitrogênio, fósforo, potássio e metais pesados que poluem as águas”, afirmou a gestora ambiental e mestre em meio ambiente.
PROBLEMÁTICA
Mazzeti explica que o problema pode ser ainda maior em áreas onde a vegetação às margens dos cursos d’água foi retirada. As chamadas matas ciliares exercem uma função importante na proteção dos rios, ajudando a reter sedimentos e outros materiais antes que eles alcancem a água.
“Em muitos casos, a camada protetora ao redor de rios, as matas ciliares, ou áreas de preservação permanente foram removidas, o que é muito comum na cidade de Manaus, e essa vegetação que poderia atuar como um filtro para esses poluentes já não está lá”, destacou a coordenadora do Greenpeace, que ressaltou que além do material levado pelas chuvas, a fumaça e a fuligem também podem alcançar áreas distantes dos locais onde ocorreram as queimadas.
“A fumaça e fuligem podem viajar por centenas de quilômetros e se depositam diretamente sobre superfícies de lagos e represas de abastecimento urbano”, alertou.
De acordo com a especialista, a chegada desses poluentes aos recursos hídricos pode representar um problema adicional para cidades que já enfrentam dificuldades relacionadas ao saneamento básico, à ocupação irregular das margens e à poluição de rios, igarapés e córregos.
RISCO DE DESEQUILÍBRIO
Conforme Cristiane Mazzetti, a contaminação provocada pelas cinzas também pode alterar as características da água. De acordo com ela, o excesso de nutrientes, principalmente fósforo e nitrogênio, pode favorecer a proliferação de algas e cianobactérias.
(Daniel Brandão/A CRÍTICA)
“As cinzas das queimadas podem levar à água excesso de fósforo e nitrogênio, servindo de ‘adubo’ para algas e cianobactérias”, contou.
Segundo a coordenadora, esse processo, conhecido como eutrofização, pode reduzir a quantidade de oxigênio disponível na água e provocar a morte de peixes e outros organismos aquáticos. O problema tende a ser agravado quando episódios de queimadas se repetem em períodos de pouca chuva. A recuperação dos ecossistemas, conforme a especialista, é possível, mas depende da interrupção da entrada de poluentes, da recuperação da vegetação nativa nas margens dos rios e do tempo necessário para a natureza se regenerar.
“A recuperação do ecossistema é possível, mas exige interromper o fluxo de poluentes, restaurar com vegetação nativa as margens dos rios e dar tempo para que a natureza se regenere, um processo que pode levar de meses a anos”, afirmou.
Para Mazzetti, as ações não devem ocorrer apenas depois dos períodos críticos. É necessário preparar os sistemas ambientais para uma realidade de incêndios mais intensos e frequentes em razão das mudanças climáticas.
“Não basta agir somente na responsividade à situação, mas preparar, recuperar e adaptar os igarapés à nova realidade de incêndios agravados pela crise climática”, ressaltou.
Queimadas também afetam animais
A especialista do Greenpeace pontuou que os impactos provocados pelas queimadas atingem diferentes espécies e não se restringem às áreas diretamente atingidas pelo fogo.
“As queimadas e os incêndios florestais geram uma enorme quantidade de gases de efeito estufa (GEE), responsáveis pelo aquecimento global, contribuindo para a intensificação das mudanças climáticas”, frisou.
De acordo com Mazzeti, a alteração do clima também pode deixar determinadas regiões mais secas, criando condições favoráveis para novos incêndios e formando um ciclo de retroalimentação.
Animais silvestres podem sofrer diretamente com as chamas, perder seus habitats e encontrar dificuldades para conseguir alimento. Também existem consequências indiretas, como o deslocamento de animais para áreas urbanas e rodovias em busca de locais seguros.
“No caso de animais há o risco direto, com a iminência de morte pelas chamas, risco de acesso à comida e habitat destruído, e o risco indireto quando, por exemplo, eles acabam atropelados na estrada tentando se salvar de um grande incêndio”, disse Mazzetti.
Crise ambiental
Para o Greenpeace, a situação enfrentada pelo Amazonas é resultado da combinação entre fatores climáticos e ações humanas. O Greenpeace vê essa catástrofe ambiental no Amazonas como uma crise agravada em duas frentes. Pelas mudanças climáticas, que tornam o clima da região mais seco e o El Niño mais alongado e intenso. E pela ação humana, já que o fogo na Amazônia não é natural.
Segundo ela, incêndios são frequentemente associados ao desmatamento, à abertura de novas áreas e à limpeza de terrenos já utilizados para atividades como pastagem e agricultura.
A especialista também afirma que a exposição da população à fumaça já configura um problema de saúde pública na região Norte, devido às concentrações de material particulado fino observadas durante períodos críticos.
Diante desse cenário, Mazzetti defende o fortalecimento de medidas de prevenção e fiscalização, além do monitoramento da qualidade do ar e de ações de resposta durante os períodos de maior concentração de fumaça.
Para a coordenadora, também é necessário investir na proteção e recuperação dos recursos hídricos, especialmente em áreas urbanas onde rios, igarapés e córregos já sofrem com diferentes fontes de poluição.
A combinação entre queimadas recorrentes, perda de vegetação, poluição dos recursos hídricos e períodos de estiagem pode ampliar os impactos sobre o meio ambiente e a população, tornando medidas de prevenção, fiscalização, saneamento e recuperação ambiental cada vez mais importantes.
Dados do Selva
Nas últimas semanas, o aplicativo do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva) registrou de forma variável qualidade do ar como “ruim” nos bairros Coroado (58,5 µg/m³), zona Leste e Mauazinho (51,1 µg/m³), zona Sul.
Nos municípios de Boa Vista do Ramos (122,8 µg/m³), Urucurituba (85,1 µg/m³), Silves (106,9 µg/m³) e Careiro da Várzea (77,4 µg/m³) foram classificados pelo aplicativo como muito ruim. Em Careiro Castanho (253, µg/m³) os níveis do ar chegaram a nível crítico de péssimo.
Nessa semana, os níveis do ar nos municípios considerados como ruim foram São Sebastião do Uatumã (53,5 µg/m³) e Jutaí ( 51,5 µg/m³), em Manaus, os bairros Mauazinho e Coroado computaram 31,5 e 30, 1 µg/m³, respectivamente, consideradas poluição moderada. Na quarta-feira (30), após um incêndio de mais de 12 horas no Distrito de Cacau Pirêra, o Selva registrou níveis de 262,8 µg/m³ na qualidade do ar, considerada como péssimo no bairro da Compensa, zona Oeste da capital amazonense.