Iniciativa do Governo Federal já garantiu código postal a mais de 12 mil comunidades e agora avança para mapear cada rua, beco e viela dos territórios periféricos
(Foto: Divulgação)
Ter um endereço oficial com CEP, algo corriqueiro para a maior parte dos brasileiros, era, até pouco tempo atrás, um privilégio distante para milhões de moradores de favelas e comunidades urbanas espalhadas pelo país. O programa CEP para Todos, conduzido pelo Ministério das Cidades por meio da Secretaria Nacional de Periferias, está mudando essa realidade ao levar o Código de Endereçamento Postal a territórios historicamente invisíveis para o poder público.
Lançado em novembro de 2024 dentro do Programa Periferia Viva, o programa CEP para Todos é uma parceria que reúne o Ministério das Comunicações, os Correios e o IBGE. A primeira meta do programa, que era garantir ao menos um CEP geral para cada favela brasileira, foi concluída em outubro de 2025, mais de um ano antes do prazo previsto, que era o final de 2026. No total, 12.348 favelas e comunidades urbanas receberam seus códigos postais, alcançando 656 municípios onde vivem cerca de 16 milhões de pessoas, o equivalente a 8,1% da população do país. Desse contingente, 72,9% são pessoas pretas e pardas.
O ministro das Cidades, Jader Filho, destacou a dimensão social da conquista ao afirmar que possuir CEP representa dignidade para quem vive nas periferias e não tinha acesso a serviços básicos, como localizar o posto de saúde mais próximo de casa. O secretário Nacional de Periferias, Guilherme Simões, reforçou que o endereçamento é apenas parte de uma proposta mais ampla de inclusão e que o programa busca reparar uma dívida histórica com as populações periféricas.
Do CEP coletivo ao endereço por logradouro
Com a primeira etapa concluída, o programa avança agora para uma fase mais detalhada: o mapeamento intra-territorial das comunidades. Equipes técnicas percorrem as favelas identificando ruas, vielas, travessas e becos para atribuir um CEP específico a cada logradouro, permitindo que cada domicílio tenha um endereço completo, com nome de rua, número e código postal próprio.
Conforme site Cepzap apurou, esse trabalho já está em andamento simultaneamente em dez estados brasileiros. Até o momento, 870 novos CEPs por logradouro foram criados em cidades como Salvador, Fortaleza e Rio de Janeiro. Em São Paulo, moradores de comunidades como o Morro da Lua, na zona sul da capital, passaram a receber correspondências diretamente em casa, algo inédito para muitas famílias.
A prioridade inicial recai sobre os 59 territórios do Periferia Viva, aqueles que já recebem alguma política pública do Ministério das Cidades, que somam mais de 300 favelas e comunidades.
Endereço como porta de entrada para a cidadania
A Secretaria Nacional de Periferias ressalta que a medida vai muito além da simples organização urbana. Trata-se de reconhecer oficialmente territórios que sempre existiram, mas permaneciam à margem da malha de serviços públicos e privados. Com o endereço formalizado, moradores passam a poder comprovar residência, acessar empregos formais, matricular crianças na escola, contratar serviços de internet e telefonia, receber encomendas e acionar atendimentos de emergência com precisão.
O programa também disponibiliza um Guia Prático de Endereçamento em Periferias, voltado a gestores municipais e técnicos interessados em replicar as ações em seus municípios. O documento apresenta um percurso metodológico dividido em três fases: planejamento e mapeamento, validação e consolidação, e oficialização.
Próximos passos
A última etapa prevista pelo CEP para Todos é a instalação de pontos de atendimento físico dos Correios, como postos ou agências, em 100 favelas selecionadas de acordo com a infraestrutura disponível em cada território. A expectativa do Governo Federal é concluir a implantação dos CEPs por logradouro nas comunidades atendidas ainda em 2026, ampliando progressivamente a oferta de serviços postais nas periferias.
Ao dar nome oficial a ruas e reconhecer a existência de milhões de endereços antes ignorados, o CEP para Todos transforma um simples código numérico em instrumento de cidadania, dignidade e pertencimento urbano.