Empoderamento

Mulheres indígenas do AM lutam contra machismo e lideram aldeias e organizações

Machismo e a misoginia passaram a ter forte influência nas relações entre os indígenas, gerando violência, principalmente com o impacto da colonização e da religião cristã

Waldick júnior
online@acritica.com
12/06/2022 às 10:52.
Atualizado em 12/06/2022 às 10:54

Enquanto as populações indígenas são ameaçadas pelo avanço do desmatamento e do garimpo ilegal em seus territórios, ganha destaque a defesa dos direitos desses povos encabeçada por mulheres indígenas nas organizações e até nas aldeias.

Para a socióloga indígena Valéria Marques, do povo Baniwa, “a liderança de mulheres sempre existiu, mas a visibilidade acerca desse tema é algo novo”, principalmente em grandes organizações.

Além disso, segundo ela, “o machismo e a misoginia, comportamentos do não-indígena, passaram a ter forte influência nas relações entre os indígenas, gerando violência, principalmente com o impacto da colonização e da religião cristã”. 

Um exemplo é a força política da indígena Nara Baré, que foi posta em dúvida quando ela começou a ascender na Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). “Os homens não acreditavam em mim, mas as mulheres sim”, diz ela, que desde 2017 é a primeira mulher à frente da organização que já existe há três décadas e que representa 160 povos indígenas.

Indígena Nara Baré disse que construiu a consciência política desde cedo, através da própria vivência (GreenPeace)

Como mulher indígena, Nara diz ter construído a consciência política cedo através da própria vivência. Nascida no município mais indígena do país, São Gabriel da Cachoeira (AM), ela acompanhou o surgimento da Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro (Foirn). Porém, foi ao se juntar ao Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas que entrou de vez na luta.

Vivência

“Comecei como tesoureira da Coiab em 2013. Nessa função houve sim, quem não acreditou em mim, homens. Por eu ser jovem, mulher, e na visão deles sem experiência política. Mas eu tenho outra visão, ter vivência não é só estar à frente de uma organização, mas sim já fazer valer a luta pelos direitos indígenas e isso eu já fazia”, afirma Nara.

No cargo de tesoureira, ela ajudou a recuperar a Coiab, que estava “com muitas dívidas, processos trabalhistas e enfraquecimento junto a parceiros de base”. Foi ao mostrar que era capaz como jovem e mulher que, em 2017, Nara foi eleita para o mais alto cargo da organização. “Não houve resistência por parte dos indígenas nessas eleições, inclusive, grande parte dos delegados são homens, e são eles que têm o voto”.

O protagonismo de mulheres indígenas também se estende à base das organizações, como na liderança de aldeias e comunidades.

Embora seja neta de um cacique do povo Kokama, a indígena Lutana Ribeiro, de 47 anos, nunca quis seguir os passos do avô para liderar uma comunidade. Quando ele faleceu, o cacicado passou para a mãe dela, Raimunda Ribeiro, que preferiu não assumir a posição, deixando para a filha o papel de guiar os parentes do povo Kokama. 

Ascensão 

 “Eu tinha muita resistência a isso, acreditava que era melhor um homem guiar a comunidade, mesmo que desde os 25 anos eu já lutasse por direito à moradia para os indígenas em Manaus. Foi por isso que convidei o indígena Messias Kokama para ser o cacique. Fizemos uma assembleia e ele foi eleito em 2015”, conta Lutana.

A comunidade em questão é o Parque das Tribos, considerado o primeiro bairro indígena de Manaus (AM) reconhecido pela prefeitura e que abriga cerca de 700 indígenas de 35 etnias. Como líder indígena, o cacique Messias Kokama fortaleceu a luta da comunidade para melhores condições de vida aos parentes. Porém, foi mais um dos inúmeros parentes que faleceram pela covid-19 durante a pandemia, em 2020.

“Quando ele morreu, quem assumiu foi o filho dele, Miqueias. Fizemos uma apresentação para a comunidade, que o aceitou na liderança. Porém, ainda em 2020 ele precisou deixar o cargo e a responsabilidade se voltou para mim. Então, em agosto daquele ano eu assumi a posição de cacica”, lembra a indígena. 

Quando subiu ao posto que era seu por direito, já que o cacicado era de raiz familiar, Lutana diz ter sido  alvo de uma série de críticas e “perseguições machistas” por parte de membros da comunidade. Um desses homens seria Ismael Munduruku, segundo ela. A reportagem o procurou para saber qual a posição dele a respeito da disputa pelo cacicado.

“Sou um dos fundadores do Parque das Tribos, que é pluriétnico. Quando o cacique Messias morreu, houve um processo eleitoral com pessoas que não eram imparciais e a vitória foi dada ao Miqueias com a Lutana como vice. Depois ele saiu e ela continuou, mas nunca foi liderança indígena”, diz Ismael.  

Para além dessa disputa, Lutana diz estar trabalhando para dar continuidade ao trabalho do cacique Messias. Ela regularizou a comunidade através da criação da Associação Indígena e Não-indígena de Moradores do Parque das Tribos (Aimpt) e agora busca parceria com universidades e entidades para gerar renda para os parentes, já que o desemprego “explodiu” no Parque.

Tabu

No conjunto Cidadão XII, também em Manaus, a cacica Bia Kokama, de 47 anos, lembra como a mãe dela “quebrou tabus” há 30 anos ao se tornar a primeira cacica mulher entre os parentes. “Meu avô não tinha filhos homens, então as lideranças da aldeia fizeram uma reunião e decidiram escolher a minha mãe, cacica Inaura, para ser a nova liderança. E assim aconteceu”, lembra ela.

Bia diz que no início o povo não achou uma boa decisão, mas como havia sido uma escolha dos principais nomes da comunidade, não houve manifestações contrárias. Além disso, com o tempo, a mãe passou a ser respeitada e o acontecimento influenciou, inclusive, ao surgimento de outras cacicas. Bia conta serem cerca de 30, hoje.

“Em 2010 eu passei pelo ritual do cacicado e graças a Deus fui aceita, mas muitos homens aqui de Manaus não gostaram e sofri preconceito também. Não era respeitada. Mas com o tempo, fui ganhando meu espaço e fundei a Associação Kokama Intercultural de Manaus aqui no Monte das Oliveiras, hoje com 200 famílias de indígenas e não indígenas”, conta ela.
 Plurais

O ativismo de mulheres indígenas do Amazonas não se restringe a um só povo. A socióloga indígena Valéria Marques define o Amazonas como uma sociedade matriarcal. “Dentro das comunidades indígenas, o patriarcalismo foi implantado, mas as mulheres conseguiram dominar isso. Elas controlaram a roça, que é algo que impõe respeito à liderança na comunidade. Então, hoje, a mulher é liderança em diversos postos, inclusive no cacicado”, explica.

Ela exemplifica uma série de nomes de mulheres que fizeram e fazem a diferença na luta indígena no estado. Entre os nomes mais tradicionais, está o da indígena Deolinda Prado, fundadora da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn), em 1987. 

Entre as mais jovens, Samela Sateré-Mawé, ativista indígena que integra o movimento Friday’s For Future, mesmo da sueca Greta Thunberg, e participou da última edição da conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP) 26.

Na foto, Samela Sateré e Txai Suruí. A Samela é ativista indígena que integra o movimento Friday’s For Future, mesmo da sueca Greta Thunberg, e participou da última edição da conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima 26 (Reprodução)

Lideranças

Outro nome jovem da luta indígena é o de Vanda Witoto, técnica em enfermagem que se tornou a primeira pessoa vacina contra a covid-19 no Amazonas. Após se destacar pela saúde indígena na pandemia, ela pretende concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados neste ano.

Vanda Witoto é técnica em enfermagem e se tornou a primeira pessoa vacina contra a covid-19 no Amazonas. Ela ouviu de parentes homens que não tem capacidade de estar na política por eu ser mulher (Alberto Cesar Araújo/Amazônia Real)

“Sou uma das poucas mulheres indígenas nos espaços de discussão política e tenho dialogado muito sobre isso no WhatsApp e em rodas de conversa. Ainda assim, tenho ouvido bastante de parentes homens que eu não tenho capacidade de estar na política por eu ser mulher. Que eu não vou ser eleita por ser mulher, que a política não é para amadores”, conta ela.

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