'EScrevendo Marias'

Livro coletivo vai reunir ensinamentos passados de avós para netas

Iniciativa idealizada por Amanda Prestes seleciona obras nas modalidades de Poesia, Prosa Poética e Fotografia 

Robson Adriano
20/09/2026 às 11:39.
Atualizado em 20/09/2026 às 11:39

Iniciativa busca registrar saberes tradicionais, remédios caseiros e histórias orais de mulheres do Amazonas (Divulgação)

O “Escrevendo Marias”, fundado pela comunicóloga e poeta Amanda Prestes, está com inscrições gratuitas abertas, até o dia 3 de outubro, para mulheres que desejam escrever sobre as memórias e ensinamentos passados pelas próprias avós.

As histórias irão compor o projeto editorial “O Livro das Avós: poesia, memória e ancestralidade”. Segundo Prestes, que também atua como curadora e diretora-geral do projeto, a proposta é transformar histórias, memórias, saberes e legados de avós amazonenses em registro escrito. As inscrições são feitas online por meio de formulário 

Amanda explicou que a inspiração para o “O Livro das Avós” surgiu das próprias lembranças da primeira infância vivida ao lado da própria progenitora, Maria Prestes, 86 anos.

“Ela é uma figura materna para mim. Maria sempre foi muito ativa, daquelas pessoas que não param quietas. Então, notar seu andar mais devagar, suas pernas e olhos mudando, foi me fazendo compreender, de verdade, os sinais do envelhecimento e que ela não estaria ali para sempre. Foi quando comecei a entender que eu realmente podia perdê-la”.

As histórias contadas pela avó fizeram Amanda compreender que os mais velhos são como bibliotecas. “Eles carregam sabedorias, conhecimentos e modos de fazer que foram construídos ao longo de uma vida. Minha avó, por exemplo, conhece remédios, folhas para banho de assento e xaropes. E eu não tenho certeza se mais alguém na família sabe fazê-los”.

“Foi dessa experiência que surgiu a vontade de criar uma obra que valoriza as narrativas orais e os saberes tradicionais, reconhecendo as avós como guardiãs de memória e fontes de conhecimento e cultura”, acrescentou.

Organização familiar

Nas periferias, as avós frequentemente ocupam um lugar central na organização e no cuidado das famílias, ao assumirem a criação dos netos e netas enquanto as mães trabalham. Para Amanda, essa realidade faz parte de uma ampla rede de mulheres que sustenta muitas famílias.

“Em muitas delas, as avós assumem papéis centrais na educação e na transmissão de valores. Elas mantêm vivas culturas, tradições e formas de fazer, funcionando muitas vezes como pilares de continuidade entre as gerações”, afirmou.

A própria relação de Amanda com a avó influenciou a percepção sobre origem e identidade amazônida. “Parte da minha percepção sobre minha origem e sobre minha identidade amazônida veio das histórias que ouvi dela, da maneira como ela falava sobre sua vida no interior, sobre a roça e sobre o que sabia fazer.”

A partir dessa experiência, Amanda defende que esses conhecimentos sejam reconhecidos como formas de tecnologia e resistência cultural, e vê no “Livro das Avós” uma maneira de preservar essas referências para as próximas gerações.

Saberes tradicionais e Identidade

Para Amanda, registrar os conhecimentos de avós também significa questionar o que a sociedade reconhece como saber. “Eu penso no corpo dessas mulheres como um arquivo. Minha avó, por exemplo, carrega no corpo e na memória conhecimentos sobre remédios, folhas, receitas, modos de fazer, além das histórias sobre a vida no interior e na roça”, afirmou.

Nesse contexto, Amanda também relaciona a ausência de registros ao processo de apagamento de saberes que não ocupam os espaços tradicionalmente reconhecidos como produtores de conhecimento.

“No caso das avós amazonenses, muitas dessas histórias e saberes não estão nos livros ou nos registros oficiais. Estão na fala, na memória, no corpo e na experiência dessas mulheres”, destaca.

Sobre a participação

Os textos podem abordar experiências relacionadas às avós, à memória e à ancestralidade, a partir de quatro eixos temáticos: memórias familiares; corpo e saúde; ditados e histórias orais; e histórias pessoais.

As inscrições são gratuitas e devem ser realizadas por meio do formulário de inscrição, disponível nos canais oficiais do Escrevendo Marias. O edital completo, com as orientações e os critérios de participação, também está disponível para consulta.

A interessada em integrar o projeto editorial, conforme consta no formulário de inscrição, poderá inscrever uma única obra, em uma das seguintes modalidades: Poesia, Memória e Prosa Poética ou Fotografia.

Em novembro de 2026, o Escrevendo Marias promoverá formações online sobre identidade, memória e ancestralidade, abertas às participantes e a outras mulheres interessadas em aprofundar a escrita a partir desses temas.

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