Em entrevista para A CRÍTICA, ela avalia os desafios para desenvolver a bioeconomia e explica a Rota 26-30, da Concertação, projeto que pretende reunir seus quase 4 mil membros para formular propostas a governos em ano eleitoral.
(Foto: Lorena Fadul)
Secretária-executiva de Uma Concertação pela Amazônia, Joanna Martins afirma que a bioeconomia está na base da economia amazônica, mas ainda não atingiu seu potencial, apesar do avanço de novas iniciativas. Ela também é fundadora da Manioca, marca de alimentos nascida em Belém (PA).
Em entrevista para A CRÍTICA, ela avalia os desafios para desenvolver a bioeconomia e explica a Rota 26-30, da Concertação, projeto que pretende reunir seus quase 4 mil membros para formular propostas a governos em ano eleitoral. Confira a entrevista.
O que é a Rota 26-30, da Concertação, e qual o objetivo?
A Concertação é uma rede de pessoas e instituições que se conectam em prol do desenvolvimento sustentável da Amazônia, sempre olhando para as pessoas que moram no território. A Rota 26-30 é um projeto no qual estamos atuando este ano. A rede da Concertação começou há cinco anos com cerca de 300 pessoas e hoje já tem quase 4 mil.
São pessoas tanto da Amazônia quanto de outros estados do país, pessoas físicas ou que representam instituições e governos. É uma rede multiatores.
A intenção dessa rota é eleger temas prioritários. A Concertação olha para a Amazônia através de vários assuntos, da educação à segurança, passando pela bioeconomia. Ela é multi-temas.
Mas entendemos que precisávamos priorizar alguns temas para qualificar mais o debate, ouvir a rede e entender quais são os gargalos e as soluções. A gente resolveu não ficar apenas no problema e ouvir a rede, os especialistas amazônicos e pessoas de fora. São olhares diversos sobre esses temas.
O primeiro passo foi ouvir a rede para saber que temas seriam esses. Selecionamos cinco grandes temas: Floresta; Segurança energética; Saneamento; Comida; e Biodiversidade.
A partir dessa seleção, temos um processo que envolve escutar especialistas de cada uma dessas áreas, pessoas que atuam de forma mais intensa nesses temas. Depois, fazemos uma rodada temática, onde ouvimos de outra forma, em reunião online. Depois, uma plenária, onde trazemos especialistas daquele tema para falar para a rede como um todo. Por último, abrimos na plataforma do site da Concertação um espaço para que toda a rede traga suas visões.
Há também um olhar que, dentro da Concertação, a gente chama de lado sensível. Sempre procuramos ouvir o lado técnico, mas também esse lado mais sensível. Temos uma relação muito próxima com os fazedores de cultura e pedimos que eles tragam suas visões sobre o tema, porque a cultura às vezes traz uma perspectiva diferente que os técnicos não conseguem expressar.
Quando essa programação de atividades encerra e para onde as propostas construídas serão encaminhadas?
Em setembro teremos todos esses documentos temáticos finalizados. A partir daí, vamos participar de eventos para lançá-los. Eles também estarão disponíveis no site da Concertação, acessíveis a quem tiver interesse pelo assunto.
Mas vamos provocar a entrega desse material ao governo de transição, ir a Brasília levar para os ministérios, e também junto à SBCOP, que é uma organização que reúne muitos atores da iniciativa privada. Levaremos o material para divulgar dentro da iniciativa privada interessada no território.
Vocês pretendem enviar também para os candidatos à presidência ou só para o governo de transição, em novembro?
A gente até vai, mas talvez não haja tempo, porque como esse material fica pronto em setembro, as plataformas eleitorais já estarão desenvolvidas nesse período.
A Concertação tem uma postura de não fazer o que chamamos de advocacy. A intenção não é pegar esse material e ficar levando para esses lugares. É disponibilizá-lo de forma pública. As instituições que fazem parte da rede e que fazem advocacy muitas vezes se apropriam desse material e fazem essa intermediação junto ao poder público. A Concertação em si não faz esse papel.
Mas entendemos que, ao qualificar esse debate, produzimos um documento que não vai vir do pensamento de uma instituição, de um político ou de um especialista. Ele está sendo construído a muitas mãos, com uma escuta muito qualificada do território. O que a gente espera é que algumas dessas proposições possam se tornar política pública, como já aconteceu.
Vocês fazem um acompanhamento dessas propostas que já foram debatidas em anos anteriores para saber o quanto elas conseguem se tornar de fato política pública, seja em nível local ou nacional?
Na eleição anterior, chegamos a propor atos normativos para o governo federal. Dos atos que propusemos, 10 viraram política pública em alguma medida, através de decretos presidenciais. Ainda não temos certeza se vamos conseguir fazer esses atos normativos este ano, porque o trabalho tem um custo mais elevado e ainda não conseguimos captar recursos para isso, mas estamos trabalhando.
De qualquer forma, o que percebemos é que o país passou muito tempo sem se conectar com a Amazônia, totalmente desconectado da região. Não havia essa abertura para a escuta, esse diálogo com o território, e acabava criando políticas públicas incompatíveis com a nossa realidade amazônica.
A gente percebe que existe essa possibilidade de uma escuta mais qualificada do território para pensar soluções para a região.
Dentro da área de meio ambiente e de bioeconomia, tiveram muitos avanços onde os estados amazônicos têm participação ativa, e a Concertação tem tido importância muito grande para esse movimento, tanto na política pública quanto para a gente, dentro da própria Amazônia, se conhecer.
Por ser um território muito extenso, muitas vezes eu estou no Pará, você está no Amazonas, tem alguém no Acre, e a gente nem sabe o que está acontecendo nos nossos estados. Como isso não está na grande mídia, a gente não se conecta tanto. A Concertação também ajuda nesse movimento de conhecer as iniciativas da própria região.
Que temas você avalia como prioritários na eleição deste ano quando se fala especificamente da Amazônia?
Eu acho que há alguns temas principais. Os temas da rota são importantes. Olhar para a biodiversidade e para a transição dos sistemas alimentares são questões centrais para a Amazônia.
A segurança pública é outro tema muito importante. A gente conhece a violência que tem crescido na região como um todo. É um tema relevante para o cenário nacional, não apenas para a Amazônia, mas que deve ser priorizado na campanha.
A transição energética também é essencial. Apesar de gerarmos muita energia para o Brasil, ainda temos uma carência de energia grande dentro do território amazônico. Várias comunidades nos estados do Amazonas e do Pará não têm acesso à energia. É um tema pelo qual deveríamos lutar enquanto amazônidas.
E o saneamento. Talvez por não termos falado sobre isso por muito tempo, acabamos tendo os piores dados do Brasil nessa área. Belém e Manaus, as maiores capitais da Amazônia, são as cidades com os piores índices de saneamento no território nacional. E saneamento é uma questão de qualidade de vida e de saúde para nossa população.
Todos os temas que selecionamos para a Rota 26-30 são os mais latentes na Amazônia. Além deles, a segurança pública, que não está na rota, talvez seja o principal tema desta eleição do ponto de vista nacional.
Você mencionou que a Concertação tem quase 4 mil pessoas. Há uma atenção para ter equilíbrio entre participantes da Amazônia e de fora da Amazônia? E como essas discussões acontecem sem passar por cima do debate que já ocorre na região, conduzido por pessoas que vivem aqui?
Uma das razões para eu estar como cosecretária da Concertação é exatamente esse esforço de ter cada vez mais a Amazônia presente e de forma equilibrada na rede. Quando a Concertação começou, não era assim. Foi uma iniciativa que surgiu fora da região, a maioria dos atores era de fora da Amazônia. Nos últimos anos, essa rede está se tornando cada vez mais amazônica. E o que acreditamos é que precisa haver esse equilíbrio.
Eu acredito muito nisso pessoalmente, e é a tônica da Concertação: precisamos aprender a trabalhar juntos. Tanto os estados da Amazônia precisam se unir para brigar pelo que é importante para a região, quanto precisamos trazer os atores de outras regiões do país, trazer Brasília como poder político, São Paulo como poder econômico, para que esse diálogo aconteça e, juntos, pensemos soluções para o território. Porque se a gente pensa sozinho, às vezes chegamos a soluções que não fazem sentido para o resto do Brasil.
Essa união de esforços é o poder que a Concertação tem. Ela faz a escuta do território, entende a realidade do território. Não é aquela visão de quem está de longe, que só olha a copa da árvore e não vê o chão embaixo. Mas também não é uma visão só do chão. É uma visão equilibrada do chão e do ar. É o que acreditamos ser o melhor para que a gente possa, a partir das nossas dores e dificuldades, encontrar soluções viáveis também do ponto de vista nacional e até internacional.
Você é empresária da bioeconomia, trabalha com produtos da floresta. Quais desafios enxerga, hoje, nessa área, na Amazônia?
Historicamente, a bioeconomia já existe desde antes dos portugueses chegarem no Brasil. O nosso modelo produtivo é bioeconômico. O que acontece é que a gente nunca viu esse potencial de desenvolvimento, de geração de emprego e renda e de economia de forma mais madura a partir da floresta e daqueles ativos que ela nos oferece.
Esse movimento é muito recente. Eu diria que tem cerca de dez anos, dentro do que acompanho, apesar da minha empresa ter até mais que isso, mas não é muito mais. E acaba ficando muito restrito a gente mesmo.
Por exemplo, temos uma sorveteria aqui em Belém, muito famosa, com renome nacional até hoje, que é a Cairu. A Cairu existe há 50 anos fazendo bioeconomia, porque o que ela faz é usar as frutas, os ativos da floresta para fazer sorvete. Só que a gente não via isso como um potencial de desenvolvimento econômico, era só mais uma atividade. E agora a gente está vendo.
O que eu percebo é que o país está começando a entender, primeiro, que esse é o melhor formato para gerar desenvolvimento na região, porque ele atua junto com a floresta e junto com a nossa cultura também, não é só a floresta. A forma como a gente usa a floresta é cultural. Eu tenho umas frutas ali no pé: se não sei que serve para comer, ela vai continuar ali no pé. Se não sei que serve para fazer remédio, para fazer um cosmético, para fazer uma receita. Essa interação que a gente faz com a natureza é cultural.
Aí a gente começou a traduzir isso em bioeconomia, o que é fantástico, porque é aquela política do ganha-ganha-ganha: a gente ganha, porque vai gerar desenvolvimento e economia para a região; o país ganha, porque vai gerar divisas; e o planeta ganha, o mundo inteiro, porque a gente está preservando a floresta. É bom para todo mundo.
O que falta, talvez, é que esse é um modelo novo para o mundo todo. Estou aqui em Berlim, numa semana chamada Amazon Week, promovida pela Embaixada do Brasil na Alemanha, e o tema principal é bioeconomia, porque é um tema novo para o mundo todo.
Aí tem esse desafio: fazer as pessoas entenderem o que é isso, enxergarem o valor que tem, atrair investimento para esse setor. Nesse aspecto, a Concertação tem um papel muito importante, porque dialoga muito sobre acesso a recursos, a investimento. Como é um modelo econômico novo, ele não está pronto ainda para dar resultados extraordinários de uma hora para outra. Você precisa de um capital mais paciente, de um capital que entenda a realidade do território, as condições. Fazer logística na Amazônia não é igual a fazer logística em outros lugares do Brasil e do mundo. Tem custos mais altos. Lidar com povos e comunidades tradicionais também tem uma dinâmica diferenciada.
Quando a gente pensa numa transição produtiva de um modelo destrutivo para um modelo que dialoga com a floresta, não tenho a menor dúvida de que a bioeconomia é esse modelo. Ele já existe. É só uma questão de mais gente entender, conhecer e se juntar a esse processo.