Da chegada da primeira câmera ao Brasil aos desafios impostos pela Inteligência Artificial, a fotografia se reinventa
A fotografia se tornou mais que um ofício: a realização de um sonho, disse Nilton Ricardo (Foto: Junio Matos)
No dia 8 de janeiro, o Brasil celebrou o dia do fotógrafo. Com mais de 200 mil profissionais ou amadores em todo o país, a classe passa por transformações provocadas pela ascensão da Inteligência Artificial (IA), elas vão desde o mercado de trabalho até a ética no exercício da fotografia.
Nilton Ricardo entrou para a profissão há dois anos. Ele faz parte do time de jornalismo de A CRÍTICA, mas começou como motorista e lembra que sempre que via os fotógrafos manusearem a câmera sentia uma curiosidade de entender o funcionamento dela. O sentimento foi crescendo e a curiosidade de lugar a coragem para perguntar; foi na troca de informações que ele teve os primeiro contatos técnicos com a fotografia.
Estimativas mais recentes indicam que há aproximadamente 200 mil profissionais e armadores que atuam integral ou parcialmente com a fotografia no Brasil, atualmente. Entre esse grupo existem os que não são funcionários de uma empresa, mas trabalham por conta própria e sobre eles há uma pesquisa feita pela plataforma Aftershoot. O levantamento mostra que 92% dos fotógrafos no Brasil dependem das redes sociais para atrair novos clientes.
O Daniel Nogueira entende muito bem disso. Começou na fotografia há 14 anos, depois de conhecer a profissão na universidade, durante o curso de comunicação social. Depois de se especializar, foi para o mercado de trabalho atuar em eventos privados. Foi quando ele se deu conta que precisava dominar outras áreas como marketing, algoritmos de redes sociais e dinâmicas de vendas.
Daniel Nogueira, fotógrafo há 14 anos (Foto: Jeiza Russo/AC)
Atualmente, o uso da IA é frequente em muitas atividades. São tantas que não há um levantamento preciso de quantas estão disponíveis ou em fase de desenvolvimento, mas muitas delas desempenham o papel de gerar imagens. Apenas no levantamento de 2023 de uma dessas IAs, a Midjourney, já havia sido registrada a média de 2,5 milhões de gerações por dia. Ocorre que essa função se configura como um desafio para o mercado da fotografia.
Em primeiro lugar, muitos clientes passaram a pedir para que a IA gerasse fotografias, muito disso por causa de trends divulgadas e vitalizadas através das redes sociais. Isso começou como uma brincadeira onde pessoas comuns podiam, por exemplo, piar ao lado de artistas e grandes personalidades públicas. Mas, depois de um tempo as gerações passaram a criar imagens totalmente artificiais. Esse tipo de movimento pode causar precarização do trabalho uma vez que os clientes possam optar pela imagem gerada por IA, com baixo custo, o que pode pressionar o mercado e o valor do trabalho artístico e autoral dos fotógrafos profissionais.
Fotógrafo profissional e professor de fotografia, José Zamith é um dos nomes mais conceituados do setor, no Amazonas. Para ele, nenhuma geração de imagem pode ser considerada fotografia. Ele lembra que o conceito está ligado ao ato de captura da luz, o que não pode ser associado a um material artificial. Além disso, reforça que o trabalho de alguns profissionais da fotografia não pode ser nem mesmo modificado, por causa da responsabilidade com a realidade do que se fotografa.
Fotógrafo profissional e professor de fotografia, José Zamith. (Foto: Jeiza Russo/AC)
Ele também explicou que não é proibido usar ferramentas para melhorar a composição ou até modificar alguns elementos fotografados, mas essa é uma liberdade que apenas trabalhos mais voltados para a vertente artística possuem. Zamith alega que ainda é muito cedo para definir quais os impactos verdadeiramente imutáveis que a IA causa no mercado.