Entrevista

‘É básico para a saúde mental o descanso’, diz psicólogo Enio Tavares

Psicólogo e professor da Ufam defende que o tema  suicídio  seja tratado sem moralismo e para além de setembro, com atenção às condições de vida, aos vínculos e à saúde mental

Omar Gusmão
05/09/2026 às 15:03.
Atualizado em 05/09/2026 às 15:03

Para Enio, a prevenção não pode se limitar a um mês do ano nem ser tratada apenas como uma questão individual (Jeiza Russo)

Por muito tempo, falar sobre suicídio foi considerado um tabu. O silêncio, especialmente nos meios de comunicação, sob o argumento de evitar estimular o ato, acabou contribuindo para manter o tema distante das conversas familiares, das escolas, dos ambientes de trabalho e até dos serviços de saúde. Nos últimos anos, entretanto, campanhas como o Setembro Amarelo ajudaram a colocar o assunto em debate. Abordado de forma responsável, cuidadosa e sem julgamentos, o tema pode abrir caminhos para que pessoas em sofrimento reconheçam que precisam de ajuda e encontrem apoio.

Mas, para o psicólogo, psicanalista e professor da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Enio de Souza Tavares, a prevenção não pode se limitar a um mês do ano nem ser tratada apenas como uma questão individual. Doutor em Educação e mestre em Psicologia pela Ufam, Enio é coordenador do Laboratório de Psicanálise, Clínica e Criação (LAPCRI/Ufam) e defende que o suicídio seja compreendido também a partir das condições sociais e históricas em que as pessoas vivem.

Na entrevista a seguir, ele questiona a ideia de que basta incentivar alguém em sofrimento a “falar” ou “procurar ajuda” e chama atenção para fatores como condições de moradia, acesso à saúde, alimentação, relações sociais, preconceitos e condições de trabalho. O psicólogo também explica quais mudanças de comportamento podem indicar sofrimento psíquico, fala sobre como familiares e amigos podem acolher alguém que não está bem, discute o receio de perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas e analisa os efeitos das redes sociais sobre a saúde mental.

O Setembro Amarelo é visto como a época de disseminar campanhas de conscientização, mas o que ainda falta para que a prevenção do suicídio deixe de ser discutida apenas em setembro?

A Campanha Setembro Amarelo tende a individualizar a questão do suicídio que é muito maior que o indivíduo. O número crescente de suicídios, o estímulo e a efetivação de atos suicidas até por meio de lives em algumas plataformas digitais, indica que a questão não pode ser tratada de maneira individualizada. Dizer que “falar é a melhor opção” é uma estratégia que recai somente sobre uma ação que deve ser tomada pela pessoa em sofrimento que precisaria procurar ajuda. Isso não está, a princípio, errado, mas acaba por dar uma ênfase muito simplista a um fenômeno extremamente complexo. O que precisamos para que esse tema seja trabalhado durante o ano todo é pensarmos os múltiplos fatores que possibilitam a emergência dessa epidemia de atos e ideações suicidas, ou seja, as condições de vida das pessoas.

E por condições de vida eu estou falando de condições de moradia, acesso a serviços essenciais de saúde, alimentação correta, moradia digna, relações interpessoais mais justas e solidárias, livres de preconceitos de gênero e raça, por exemplo. Você acha que uma pessoa preta, pobre e com alguma dissidência de orientação sexual ou de identidade de gênero vive em que condições de vida? Que lugares dignos essa pessoa ocupa na sociedade em que vivemos e nas representações simbólica do que é ideal para nossa cultura? Você acha que a vida dessa pessoa é fácil ou difícil? Eu acho que a maioria dessas pessoas está tentando sobreviver! A questão da escala 6 X 1 é outro exemplo. As pessoas precisam de tempo para viver fora do trabalho. É básico para a saúde mental o descanso!

Quais mudanças de comportamento ou sinais de sofrimento emocional devem chamar a atenção de familiares e amigos, mesmo quando a pessoa não fala diretamente sobre suicídio?

Os comportamentos podem ser inúmeros. Eu creio que qualquer mudança muito abrupta do comportamento deve ser monitorada, não somente como se estivesse indicando um possível suicídio, mas porque pode estar indicando que alguém precisa de ajuda em saúde mental. A família e os amigos podem ficar atentos a essas mudanças e, respeitando o espaço e limite de cada pessoa, se mostrar acolhedor, afetivo e empático. É importante sempre a indicação de um profissional de saúde mental para orientar no manejo dessas condições. Consultar um psicólogo e/ou psiquiatra. Nem sempre essa indicação é aceita pela pessoa que está em sofrimento. Mas vale a pena negociar de maneira cuidadosa esse encaminhamento.

Há alguns sinais que são mais associados a um sofrimento psíquico agudo e que muitas pessoas podem apresentar: pessoas com insônia motivada por intensa preocupação; aquelas pessoas que verbalizam falta de sentido nas atividades que antes poderiam ser prazerosas; irritação e sentimento de ódio generalizado; sentimento de falta de valor e inutilidade. Especial atenção deve-se ter com pessoas que falam em “desejo de desaparecer ou sumir” ou ainda “desejo que tudo acabe”. E, evidentemente, dar atenção àquelas que mencionam ideação suicida. Quando alguém fala sobre intenção de suicídio, não podemos tomar como um blefe, é preciso considerar e agir. É preciso cuidar!!

Existe ainda a noção de que perguntar a alguém se ela está pensando em tirar a própria vida pode “dar a ideia”. O que a psicologia diz sobre isso?

Vale o comentário de que as perguntas podem ser feitas sem um tom moralista, e devem ter a intenção declarada de ajuda da parte de que quem está perguntando, deve ter o tom de uma pergunta feita por quem se importa. Aqui eu estou falando para quem não é profissional psicólogo ou psiquiatra, e que eu imagino que não tenha treinamento técnico para a conversa.

O ideal é sempre deixar que a pessoa em sofrimento consiga se sentir à vontade para falar sobre o que sente confiança para falar. Então eu creio que a dica é criar uma atmosfera de cuidado e confiança em qualquer contato com alguém com dor mental, e assim apostar que essa pessoa possa falar de forma livre sobre qualquer coisa. Talvez até sem precisar fazer perguntas mais difíceis de serem feitas. Eu também considero importante que o interlocutor que ouve alguém mencionar suas ideações suicidas, não queira contornar a situação com discurso simples ou moralistas. Se você não tem o que dizer, não diga nada, mas demonstre presença de qualidade e interesse de que a pessoa melhore. Eu tenho acompanhado muitas pessoas que ao conseguirem dizer sobre suas ideias suicidas, ao conseguirem compartilhar com alguém e fazerem essas ideias se materializarem em forma de palavras e escuta, também experimentam um grande alívio do sofrimento.

Como diferenciar uma tristeza ou uma fase difícil, que pode fazer parte da vida, de um sofrimento psicológico que precisa de acompanhamento profissional?

Os catálogos de transtornos mentais indicam que uma tristeza aguda por duas semanas já pode ser indício de um estado depressivo. É importante estabelecer uma discussão sobre isso. Eu considero que é necessária sempre uma avaliação clínica. Em geral, aquele sentimento que te impede de sair de casa, de conviver socialmente, de trabalhar, ou afeta algum campo significativo da tua vida, pode ser um ponto de diferença entre uma tristeza saudável e uma patológica. E o tempo em que essa tristeza se manifesta também. No caso da tristeza aguda, em duas semanas é o que diz o manual de diagnóstico de transtornos mentais, da associação psiquiátrica americana, mas há o caso da tristeza menos aguda que pode ser crônica, podendo-se tratar tecnicamente de um transtorno depressivo persistente.

Minha dica é que não precisa ser considerada uma preocupação emergencial para que um profissional seja consultado. Ir ao profissional de saúde mental sem ter um diagnóstico, é de grande valor. Nós poderíamos estimular mais isso.

Qual é o papel da família e dos amigos quando percebem que alguém próximo não está bem? Até onde acolher e em que momento é necessário buscar ajuda especializada?

O papel da família é fundamental. Nós vivemos em coletivo e nós damos sentido à vida assim também, em coletivo. Então nossos grupos de pertencimento têm papel fundamental, inclusive na melhora do quadro, seja ele qual for. A ideia do movimento social da luta antimanicomial que culminou na mudança de serviço centrada no manicômio para uma rede de cuidados é essa: o cuidado não pode isolar ninguém. Então é no seio da sua família e dos amigos que existe a possibilidade de apoio. Para isso as famílias precisam ser um lugar de cuidado e não de reprodução das várias formas de violência. O ponto em que os mais próximos devem fazer um encaminhamento é aquele em que consideram não conseguir agir. Acho que muita gente sabe quais os seus recursos pessoais para lidar com essa ou aquela situação. Agora, se for para tornar mais objetivo, diria que o momento é aquele que antecede ou impede que a pessoa em sofrimento seja atingida em áreas significativas de sua vida (trabalho, lazer, relações comunitárias). Antes disso acontecer. O que estou dizendo é que seria no momento antes em que o sofrimento dessa pessoa tome o grau de transtorno ou sofrimento agudo. Para que o paciente vá ao médico ou ao psicólogo não para tratar a sua “doença”, mas para fortalecer seus aspectos saudáveis.

As redes sociais mudaram a maneira como as pessoas expressam sofrimento emocional. Elas podem ajudar na prevenção ou também podem agravar situações de vulnerabilidade?

As redes sociais são daquelas coisas que dizemos que são uma “faca de dois gumes”. Talvez não sejam as redes, mas o jeito que as usamos. No entanto, o jeito que as usamos também é produzido pelo modo como elas são pensadas e como elas produzem nossos desejos, nossas fantasias e como, enfim, organizam nossas respostas e interesses psíquicos, e ainda como modulam nossa tolerância à frustração. Seriam vários pontos a discutir. O sistema de rolagem infinita para mim é um dos mais preocupantes por seu efeito hipnotizador, superexcitando nosso corpo, nossa mente e exigindo sempre um “mais além” que está sempre por vir e à disposição de uma passada de dedo na tela do celular. Especialmente para adolescentes, esse design é bastante nocivo, associado ao conteúdo rápido é uma fórmula que limita as pessoas de adquirirem recursos psíquicos e emocionais, os quais são produtos de tempo, processo e uma dose de frustração. Eu estou falando de um aspecto. Poderíamos falar também do aspecto narcisista das redes sociais onde todo mundo só mostra felicidade em excesso. Existem outras questões que poderíamos falar. Creio que do ponto de vista positivo, tem o fato de as redes sociais gerarem, em muita gente, o sentimento de pertencimento, livrando muita gente da solidão. Além do fato de muitas pessoas excessivamente tímidas conseguirem encontrar expressão em comentários e posts por meio dessas plataformas. Isso pode contribuir grandemente para a saúde mental. Esses fatores positivos e negativos, e tantos outros, interagem em cada um e na sociedade de maneira complexa.

Para quem percebe que não está bem, mas ainda não se sente preparado para iniciar uma terapia, qual deveria ser o primeiro passo?

Eu diria que o horizonte seria sempre encontrar um profissional para aqueles em que o caso só pode ser cuidado por um profissional. Como uma estratégia intermediária, eu diria que seria uma boa ideia encontrar alguém que a pessoa confie, que ela considere acolhedora e que principalmente não seja moralista. Seria interessante uma conversa com alguém significativo para ponderar os medos e preconceitos em relação ao processo terapêutico. Há também uma literatura ampla disponível e vários vídeos na internet falando de experiências de psicoterapia ou explicando mais ou menos o seu funcionamento. Outra dica é fazer uma experiência de atendimento que não seja exatamente psicoterapia. Um atendimento pontual com um profissional, em uma única sessão para “sentir como é”. Existem aqueles serviços de algumas instituições como o CVV (Centro de Valorização da Vida) que fazem atendimento dessa forma, de forma pontual. Se a pessoa se sentir um pouco mais à vontade ela pode mesmo falar com um psicólogo no SUS ou particular e agendar uma única sessão “pra ver qual é” e se não se sentir muito à vontade, eu diria para fazer mais algumas experiências ou “testes”, porque o vínculo terapêutico entre paciente e o profissional também precisa acontecer, precisa rolar afinidade e identificação entre ambos. 

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