Em Manaus, essa tradição ganha continuidade nas mãos de novos profissionais que apostam justamente no diferencial que a tecnologia ainda não conseguiu substituir: a alma e singularidade do que é feito à mão
Patricia Aguilar Rodrigues trocou a veterinária pela ourivesaria de bancada. No ateliê, o metal bruto é transformado artesanalmente, garantindo que cada peça carregue uma história única (Fotos: Daniel Brandão/A CRÍTICA)
Em tempos em que algoritmos automatizam tarefas, máquinas aceleram processos e a inteligência artificial redesenha profissões em ritmo cada vez mais veloz, alguns ofícios insistem em provar que o trabalho humano ainda guarda um valor impossível de copiar. No Dia do Trabalho, vamos destacar uma dessas atividades, que chama atenção por atravessar séculos sem perder relevância: a ourivesaria.
Considerada uma das profissões mais antigas da humanidade, a arte de trabalhar metais preciosos para transformar ouro e prata em adornos acompanha a civilização há milênios. Há registros arqueológicos de joias produzidas artesanalmente no Egito Antigo e na Mesopotâmia há mais de 4 mil anos.
Em Manaus, essa tradição ganha continuidade nas mãos de novos profissionais que apostam justamente no diferencial que a tecnologia ainda não conseguiu substituir: a alma e singularidade do que é feito à mão.
É o caso da ourives Patricia Aguilar Rodrigues, que trocou a formação em Medicina Veterinária pela bancada de joias e, hoje, comanda um ateliê próprio voltado à produção de peças sob encomenda e personalizadas.
Joias autorais ganham espaço em Manaus com foco no mercado afetivo
A entrada no segmento, segundo ela, aconteceu em um momento de incerteza profissional, mas também de autodescoberta.
“Na época, eu era recém-formada em Medicina Veterinária, mas não tinha pretensão de trabalhar na área. Sempre tive muita aptidão e interesse por áreas que envolvessem o trabalho manual. Foi como uma descoberta para mim”, relembra.
Patricia já havia tido contato com o universo das semijoias, mas a ourivesaria de bancada ainda era novidade. A virada veio após uma imersão no Rio de Janeiro.
Além da formação presencial, ela buscou aperfeiçoamento em cursos on-line especializados, inclusive em modelagem de joias em 3D — um exemplo de como tradição e inovação já convivem dentro do mesmo ofício.
Hoje, Patricia trabalha com produção artesanal de joias em ouro e prata, peças sob encomenda, itens personalizados e também consertos em geral.
Em um mundo onde softwares já criam desenhos, simulam peças e permitem protótipos em impressoras 3D, a expectativa de muitos é de que atividades manuais acabem perdendo espaço. Para Patricia, no entanto, o movimento é o oposto: a tecnologia moderniza, mas não elimina o valor do artesanal.
“Eu acredito muito que o cenário da joalheria mundial está se transformando, sabe? Explorando novas possibilidades, principalmente com o surgimento das inteligências artificiais e as inúmeras possibilidades que o 3D oferece. Mas também acredito que sempre haverá espaço pra ourivesaria de bancada. Principalmente porque o manual sempre vai carregar a alma das joias”, avalia.
Segundo ela, o consumidor tem buscado cada vez mais peças com significado, história e identidade própria — um mercado que cresce na contramão da produção em massa.
“O afetivo sempre está em alta. Podemos ver isso em diversas áreas e como o mercado de itens afetivos, no geral, tem sido valorizado dia após dia. Então, eu realmente acredito que essa continuará sendo uma profissão importante e eternizada”, destaca.
Essa busca por significado levou Patricia a desenvolver no ateliê experiências que ultrapassam a simples venda de uma peça pronta. Um dos exemplos é o atendimento voltado a casais, especialmente noivos, que podem participar da produção das próprias alianças.
Ao contrário do que muita gente imagina, Patricia afirma que a joia autoral não precisa ser necessariamente mais cara do que as peças industrializadas vendidas em grandes redes.
“Hoje o meu foco é tornar a joia autoral acessível, então eu consigo competir até com os preços de grandes indústrias, mas entregando um produto personalizado e feito à mão”, explica.
Segundo ela, o fato de concentrar todas as etapas do processo permite reduzir custos e oferecer um valor final mais equilibrado.
“Como sou eu quem cuida de todo o processo, eu consigo eliminar muitos custos intermediários que as grandes marcas têm. E no final, o cliente leva uma peça exclusiva, feita com um cuidado que a indústria não tem, por um valor super justo”, afirma.
Para a ourives, esse é justamente o ponto em que a profissão se fortalece no mercado atual: unir competitividade financeira, personalização e valor sentimental.
“É um mercado que permite esse equilíbrio, ser competitivo no preço sem abrir mão da qualidade artesanal.”