OFÍCIO TRADICIONAL

Do Egito Antigo a Manaus: ourivesaria segue atual em tempos de inteligência artificial

Em Manaus, essa tradição ganha continuidade nas mãos de novos profissionais que apostam justamente no diferencial que a tecnologia ainda não conseguiu substituir: a alma e singularidade do que é feito à mão

Omar Gusmão
04/05/2026 às 10:49.
Atualizado em 04/05/2026 às 10:49

Patricia Aguilar Rodrigues trocou a veterinária pela ourivesaria de bancada. No ateliê, o metal bruto é transformado artesanalmente, garantindo que cada peça carregue uma história única (Fotos: Daniel Brandão/A CRÍTICA)

Em tempos em que algoritmos automatizam tarefas, máquinas aceleram processos e a inteligência artificial redesenha profissões em ritmo cada vez mais veloz, alguns ofícios insistem em provar que o trabalho humano ainda guarda um valor impossível de copiar. No Dia do Trabalho, vamos destacar uma dessas atividades, que chama atenção por atravessar séculos sem perder relevância: a ourivesaria.

Considerada uma das profissões mais antigas da humanidade, a arte de trabalhar metais preciosos para transformar ouro e prata em adornos acompanha a civilização há milênios. Há registros arqueológicos de joias produzidas artesanalmente no Egito Antigo e na Mesopotâmia há mais de 4 mil anos.

Em Manaus, essa tradição ganha continuidade nas mãos de novos profissionais que apostam justamente no diferencial que a tecnologia ainda não conseguiu substituir: a alma e singularidade do que é feito à mão.

É o caso da ourives Patricia Aguilar Rodrigues, que trocou a formação em Medicina Veterinária pela bancada de joias e, hoje, comanda um ateliê próprio voltado à produção de peças sob encomenda e personalizadas.

“Trabalho com ourivesaria há pouco mais de três anos. Abri um ateliê próprio aqui em Manaus, focado na produção de joias personalizadas e sob encomenda”, conta.

Joias autorais ganham espaço em Manaus com foco no mercado afetivo

 A entrada no segmento, segundo ela, aconteceu em um momento de incerteza profissional, mas também de autodescoberta.

“Na época, eu era recém-formada em Medicina Veterinária, mas não tinha pretensão de trabalhar na área. Sempre tive muita aptidão e interesse por áreas que envolvessem o trabalho manual. Foi como uma descoberta para mim”, relembra.

Patricia já havia tido contato com o universo das semijoias, mas a ourivesaria de bancada ainda era novidade. A virada veio após uma imersão no Rio de Janeiro.

“Acabei conhecendo a ourivesaria de bancada e decidi conhecer um pouco mais. Fui para o Rio, passei alguns dias lá em um curso intensivo e voltei completamente apaixonada pela área. Decidi me arriscar aqui e, aos poucos, fui me apaixonando ainda mais. Foi assim que nasceu o ateliê”, afirma.

Além da formação presencial, ela buscou aperfeiçoamento em cursos on-line especializados, inclusive em modelagem de joias em 3D — um exemplo de como tradição e inovação já convivem dentro do mesmo ofício.

Hoje, Patricia trabalha com produção artesanal de joias em ouro e prata, peças sob encomenda, itens personalizados e também consertos em geral.

Tecnologia avança, mas não substitui a bancada

 Em um mundo onde softwares já criam desenhos, simulam peças e permitem protótipos em impressoras 3D, a expectativa de muitos é de que atividades manuais acabem perdendo espaço. Para Patricia, no entanto, o movimento é o oposto: a tecnologia moderniza, mas não elimina o valor do artesanal.

“Eu acredito muito que o cenário da joalheria mundial está se transformando, sabe? Explorando novas possibilidades, principalmente com o surgimento das inteligências artificiais e as inúmeras possibilidades que o 3D oferece. Mas também acredito que sempre haverá espaço pra ourivesaria de bancada. Principalmente porque o manual sempre vai carregar a alma das joias”, avalia.

Segundo ela, o consumidor tem buscado cada vez mais peças com significado, história e identidade própria — um mercado que cresce na contramão da produção em massa.

“O afetivo sempre está em alta. Podemos ver isso em diversas áreas e como o mercado de itens afetivos, no geral, tem sido valorizado dia após dia. Então, eu realmente acredito que essa continuará sendo uma profissão importante e eternizada”, destaca.

“Por mais que a tecnologia traga agilidade e precisão, nada substitui o olhar humano, a sensibilidade do toque e a exclusividade que só a bancada proporciona”, resume.

Quando o cliente vira parte da criação

 Essa busca por significado levou Patricia a desenvolver no ateliê experiências que ultrapassam a simples venda de uma peça pronta. Um dos exemplos é o atendimento voltado a casais, especialmente noivos, que podem participar da produção das próprias alianças.

“Sempre acreditei que momentos especiais precisam ir além de escolher modelos e pagar por eles, então busquei uma forma de proporcionar essa experiência aqui no ateliê. Por enquanto, mais focada em noivos, com a possibilidade de produzir suas próprias alianças de casamento. E, sinceramente, isso nenhuma máquina nunca poderá substituir”, diz.

Artesanal também pode ser competitivo

Ao contrário do que muita gente imagina, Patricia afirma que a joia autoral não precisa ser necessariamente mais cara do que as peças industrializadas vendidas em grandes redes.

“Hoje o meu foco é tornar a joia autoral acessível, então eu consigo competir até com os preços de grandes indústrias, mas entregando um produto personalizado e feito à mão”, explica.

Segundo ela, o fato de concentrar todas as etapas do processo permite reduzir custos e oferecer um valor final mais equilibrado.

“Como sou eu quem cuida de todo o processo, eu consigo eliminar muitos custos intermediários que as grandes marcas têm. E no final, o cliente leva uma peça exclusiva, feita com um cuidado que a indústria não tem, por um valor super justo”, afirma.

Para a ourives, esse é justamente o ponto em que a profissão se fortalece no mercado atual: unir competitividade financeira, personalização e valor sentimental.

“É um mercado que permite esse equilíbrio, ser competitivo no preço sem abrir mão da qualidade artesanal.”

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