cuidados

Calor extremo mexe com o sono, trabalho e atividade física

Em dias de temperaturas elevadas, organismo trabalha mais para se resfriar e pode afetar descanso, rendimento e exercícios

Tiago Melo
27/09/2026 às 14:55.
Atualizado em 27/09/2026 às 16:33

Em dias de temperaturas muito altas, o organismo trabalha mais para se resfriar, e os efeitos aparecem também na rotina. Atente aos sinais! (Foto: ARQUIVO 2025/Paulo Bindá/A CRÍTICA)

O calor intenso não termina quando a pessoa sai do sol. Em dias de temperaturas elevadas, o organismo passa mais tempo tentando se resfriar, e esse esforço interfere em atividades que fazem parte da rotina. A noite pode ser menos reparadora, o dia seguinte começa com mais cansaço e tarefas que exigem atenção ou esforço físico podem se tornar mais difíceis. Em Manaus, onde o calor já faz parte da paisagem e períodos de estiagem e fumaça também alteram a rotina, perceber esses efeitos é importante para entender quando é hora de diminuir o ritmo.

O calor que atravessa a noite

O sono é um dos primeiros momentos do dia a sentir os efeitos das altas temperaturas. Para que o organismo entre no estado necessário ao descanso, precisa dissipar calor. Quando o ambiente permanece quente, esse mecanismo fica mais difícil e pode reduzir tanto o tempo total de sono quanto as fases mais profundas do descanso.

A médica Sandra Doria, pesquisadora do Instituto do Sono, explica que a dificuldade não está apenas no desconforto. “No calor, o corpo tem de fazer um esforço redobrado para realizar esta tarefa”, afirma. Estudos citados pela especialista encontraram redução do tempo de sono, despertares mais cedo e maior sensação de cansaço ao acordar em noites quentes.

Uma noite mal dormida, porém, não fica restrita ao quarto. No dia seguinte, a falta de descanso pode aparecer na disposição e na capacidade de manter a atenção. E a própria tentativa de compensar o cansaço pode atrapalhar a noite seguinte: o consumo de bebidas estimulantes durante o dia pode se estender para horários próximos do sono.

A rotina noturna também pode sofrer mudanças durante períodos de calor. Passeios, encontros e atividades ao ar livre tendem a avançar pela noite, justamente quando as temperaturas continuam elevadas. Para Sandra, o problema aparece quando essa mudança deixa de ser ocasional.

“Pior que a alteração de rotina, é dormir e acordar cada dia em um horário diferente, o que prejudica a qualidade de sono”, diz.

Menos disposição durante o dia

Enquanto tenta controlar a temperatura, o organismo aumenta a transpiração e dilata os vasos sanguíneos. Esse trabalho extra pode vir acompanhado de fraqueza, tontura, dor de cabeça e queda da pressão, sintomas que ajudam a explicar por que um dia muito quente pode parecer mais desgastante mesmo sem esforço físico intenso.

No ambiente de trabalho, essa sensação pode se transformar em perda de rendimento. Uma pesquisa com trabalhadores brasileiros mostrou que 83% dos entrevistados já haviam sentido algum tipo de mal-estar relacionado ao calor durante o expediente. Entre os sintomas mais citados estavam dor de cabeça, fraqueza, queda de pressão e tontura. Na mesma pesquisa, 35% disseram render menos em dias quentes.

O desconforto também pode afetar a concentração e a disposição para tarefas prolongadas. Em ambientes internos, a climatização aparece como uma das principais estratégias adotadas pelas empresas. Já para quem trabalha fora de espaços fechados, a exposição é maior e o suporte disponível costuma ser menor.

E nem o trabalho em casa elimina o problema. Um ambiente doméstico abafado também pode dificultar a jornada e fazer com que o trabalhador procure outros espaços para conseguir desempenhar suas tarefas com mais conforto.

Hora de mudar o ritmo do exercício

A atividade física é outro momento em que as altas temperaturas exigem adaptação. O exercício já eleva naturalmente a temperatura corporal. Em dias quentes e úmidos, a evaporação do suor, mecanismo utilizado pelo organismo para liberar calor, torna-se menos eficiente. O coração passa a trabalhar mais e o cansaço pode chegar antes do esperado.

É nesse ponto que manter a mesma intensidade de um treino feito em temperaturas mais amenas pode aumentar o desgaste.

“No calor, o organismo precisa de mais esforço para se resfriar. Quando a pessoa mantém o mesmo ritmo do inverno, o risco de exaustão e lesões aumenta”, explica o médico Armindo Matheus.

Com a fadiga, a execução dos movimentos também pode ser prejudicada. A pessoa perde precisão, coordenação e rendimento, aumentando a possibilidade de distensões, estiramentos e quedas. Tontura, enjoo, visão turva e fraqueza intensa são alguns dos sinais que indicam que o exercício precisa ser interrompido.

Isso não significa abandonar a atividade física nos períodos mais quentes. A proposta é ajustar o exercício às condições do dia, escolhendo horários menos quentes, reduzindo a intensidade e respeitando intervalos de descanso.

“Exercício no verão não é sobre ir além do limite, é sobre treinar com consciência. Quando o cuidado vem primeiro, o resultado aparece”, resume Armindo.

O calor pode alterar o ritmo de um dia inteiro. Uma noite menos reparadora interfere na manhã seguinte; o desconforto acumulado pesa sobre o trabalho; e o mesmo esforço físico de sempre pode deixar de ser adequado.

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por