O fenômeno climático El Niño, já em curso no Pacífico e com possibilidade de evoluir para um “super El Niño” até o fim do ano, pode provocar impactos severos na agropecuária do Amazonas, avalia o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Amazonas (Faea), Muni Lourenço.
Embora seja um dos setores menos desenvolvidos da economia estadual, a atividade agropecuária movimenta mais de R$ 1,5 bilhão e reúne mais de 300 mil pessoas ocupadas, entre produtores rurais e trabalhadores permanentes e temporários.
Na última ocorrência do fenômeno, entre 2023 e 2024 (período marcado pela seca histórica no estado), o setor acumulou prejuízos superiores a R$ 620 milhões. As perdas foram agravadas pelas dificuldades de escoamento da produção, devido à baixa dos rios, além de problemas no abastecimento de água, energia e no acesso a insumos.
Confira a entrevista.
Como o setor agropecuário do Amazonas acompanha a previsão de super El Niño? Quais as preocupações?
A Faea vem acompanhando com preocupação as previsões de um forte fenômeno El Niño neste ano de 2026, o que, caso se confirme, poderá ocasionar prejuízos severos à atividade rural amazonense, com reflexos negativos tanto econômicos quanto sociais. Isso se dá, principalmente, por conta de consequências como o desabastecimento de água potável e de alimentação para as comunidades ribeirinhas, além de prejuízos com a dificuldade de escoamento da produção das comunidades rurais.
Há também o comprometimento do transporte de insumos básicos para os produtores rurais de todas as calhas dos nossos rios. Boa parte desses municípios recebe adubo, ração, fertilizantes e matérias-primas que vêm de Manaus. Com o comprometimento da navegabilidade dos rios em razão de uma eventual seca, isso impacta diretamente o aumento dos custos e o acesso a esses insumos básicos para a produção.
Como foram esses efeitos nas secas de 2023 e 2024, e quais lições foram aprendidas?
Nós costumamos chamar de uma indústria a céu aberto, onde estamos muito sujeitos às questões climáticas, que impactam diretamente a produção no campo. Em 2023 e 2024, o nosso setor primário foi duramente impactado, com prejuízo de grande monta, o que levou a Faea, em nome dos produtores rurais amazonenses, a pleitear junto ao governo do Estado, à Assembleia Legislativa e às autoridades medidas para minimizar esses impactos.
Por exemplo, a renegociação de dívidas rurais de produtores que ficaram impossibilitados de honrar compromissos por conta da quebra da safra em decorrência da seca. Isso tudo trouxe um contexto de dificuldade. 2023 e 2024 foram anos muito duros para a atividade rural amazonense.
Considerando os riscos para este ano, a Faea já está em contato com os governos para cobrar ações preventivas?
Sim, há alguns meses estamos interagindo com os órgãos competentes nessa área — Defesa Civil estadual e dos municípios, as instituições relacionadas, a Sepror, e também órgãos da área de meteorologia, para acompanhar de perto a situação e propor as medidas necessárias para atenuá-la. Desde o início, externamos a esses órgãos preocupação com questões diversas, como a garantia de abastecimento com planejamento e prévia distribuição de diesel para os municípios, no sentido de garantir o fornecimento de energia elétrica, já que a maior parte dos municípios do interior do estado ainda depende de energia produzida por termoelétricas.
Boa parte desse diesel, que é o insumo dessas termoelétricas, é transportado de Manaus até esses municípios, e numa seca muito severa, as balsas que transportam esse diesel reduzem a carga. Em 2023 e 2024, houve situações específicas, principalmente no Alto Rio Negro, de risco de comprometimento do fornecimento de energia elétrica para a população como um todo e para o setor rural.
São preocupações muito grandes. Em 2023 e 2024, a Faea apresentou propostas às autoridades estaduais, e este ano vamos avaliar, no decorrer do período de verão, se haverá necessidade de apresentar novos planos de contingência diante dos impactos da seca, com sugestões de aplicação imediata, como questões de socorro humanitário, mas também medidas preventivas para médio e longo prazo. Um exemplo é um incentivo maior em políticas públicas para ampliar tecnologias que garantam a produção de alimentos em períodos de extremo verão, como a irrigação. Precisamos ampliar o uso dessa técnica pelos produtores, principalmente na fruticultura e na olericultura, para que, em períodos de forte seca, o produtor não tenha perdas e prejuízos.
Na própria pecuária, defendemos incentivo em políticas públicas para ampliar a adoção, pelos produtores, de técnicas de reserva de alimentação para os rebanhos no período de seca, como a produção de silagem e a implantação de capineiras, além de sugestões, como fizemos em 2023 e 2024, de implantação de poços artesianos pelos governos em comunidades sujeitas a isolamento e, consequentemente, ao desabastecimento de água até para o consumo humano.
A logística tem sido um desafio histórico para os setores econômicos do estado. Qual é o nível dessa questão, hoje, e quais as urgências? A recuperação da BR-319 e a hidrovia do Madeira estão entre elas?
Consideramos de extrema importância para o setor rural a recuperação da BR-319, para que seja garantida a plena trafegabilidade durante todo o ano. Consideramos a BR-319 uma rodovia de integração nacional, que permite que o Amazonas saia da condição de isolamento por terra do restante do Brasil, uma rodovia de relevância geopolítica, social e econômica para o nosso setor rural.
Quanto à logística, é um desafio. Sabemos que, na nossa região, na Amazônia, e em particular no Amazonas, os investimentos em infraestrutura e melhoria das estradas — e quando falamos em estradas, nos referimos não só às rodovias, mas também aos ramais, às estradas vicinais, essenciais para o escoamento da produção, são fundamentais. Muitas vezes, principalmente na época do inverno, os produtores têm prejuízo com produtos que estragam ainda no campo, por não conseguirem escoar da propriedade, pelo ramal, até o mercado mais próximo do município ou até a capital, Manaus.
Quanto à concessão do rio Madeira, o setor defende que ela possa avançar, porque o rio Madeira é uma calha muito importante para o escoamento da produção e para a geração de desenvolvimento. Na nossa região, temos ainda uma calha com importância cada vez maior, não só para o Amazonas e para a região Norte, mas para o Brasil inteiro, que é o chamado Arco Norte, uma região com custo e viabilidade extremamente competitivos para a exportação de produtos do setor rural brasileiro para outros países.
O Arco Norte é essa região de logística, o rio Madeira, o porto de Barcarena, no Pará. Hoje há uma migração do fluxo que antes saía todo pelo Porto de Santos. O Arco Norte, os portos da região Norte, estão cada vez mais adquirindo uma participação maior, porque há uma condição muito mais favorável de escoamento dessa produção.
O comandante do Corpo de Bombeiros disse que as queimadas durante a seca ocorram muito em função da atividade do produtor rural que ainda usa o fogo para limpar terrenos, mas perde o controle. Não há técnicas de substituição do uso do fogo? Por que e onde ainda é usado?
Primeiro, é importante salientar que, na maioria absoluta dos casos de incêndios florestais, o produtor rural é vítima, e não autor, dessa situação. Muitas vezes são incêndios cuja origem o próprio produtor não identifica, e ele tem prejuízos com o fogo chegando à sua propriedade, queimando lavoura, pastagem, currais e tudo mais.
A queima é uma prática rudimentar, ainda utilizada por produtores que não dispõem de acesso a tecnologias hoje perfeitamente capazes de substituí-la. Por isso defendemos sempre a ampliação da mecanização agrícola: com a mecanização, o produtor evita ter que recorrer ao uso do fogo. A própria Faea mantém, todos os anos, principalmente nas épocas de verão, campanhas alertando os produtores para não usarem o fogo, porque essa prática empobrece o solo, tira sua condição nutriente e, consequentemente, reduz a produtividade da área.
O tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil poupa uma série de produtos alimentícios. Ainda assim, o setor agropecuário enxerga prejuízos?
Não estamos vislumbrando um grande impacto para o nosso setor rural do Amazonas, principalmente porque produtos importantes para a exportação do Amazonas, como açaí e castanha, não foram incluídos no tarifaço.
Estamos verificando agora a questão do pescado, porque sabemos que boa parte do pescado brasileiro não ficou incluída na lista do tarifaço, mas estamos checando especificamente em relação aos pescados do nosso estado que são exportados, para saber se ficaram ou não nessa lista. A rigor, porém, poderíamos dizer que o impacto não será relevante, até este momento, para os produtos do setor rural do Amazonas que têm exportação para os Estados Unidos.
A reforma tributária está em plena transição, o que traz efeitos também para a Zona Franca. Muitos esquecem, mas o modelo também tem seu setor agropecuário. Como está essa transição para vocês? Enxergam pontos que precisam de mudança?
Acompanhamos todo o desenrolar da discussão, votação e aprovação da reforma tributária no Congresso Nacional, e agora continuamos acompanhando toda a parte de regulamentação, para que os alimentos produzidos pelo setor rural não tenham elevação de carga tributária. Até o momento, a reforma tributária foi positiva ao considerar, por exemplo, na cesta básica, produtos importantes do setor rural sem o impacto da tributação.
Vamos continuar acompanhando, mas, até o momento, nossa avaliação é de que a reforma tributária não trouxe ônus adicionais ao setor rural amazonense.
- Nós costumamos chamar [a agropecuária] de uma indústria a céu aberto, onde estamos muito sujeitos às questões climáticas -
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