Evento reuniu mais de 400 crianças e aproximou estudantes de modalidades paralímpicas; para participantes, vivência também representa novas possibilidades dentro e fora do esporte
Festival Paralímpico reúne 418 crianças com e sem deficiência em Manaus (Divulgação)
Uma manhã de esporte, descoberta e convivência. A 9ª edição do Festival Paralímpico Loterias Caixa reuniu, neste sábado (19), 418 crianças com e sem deficiência na Faculdade de Educação Física e Fisioterapia da Universidade Federal do Amazonas (FEFF/Ufam), em Manaus. Mais do que apresentar modalidades esportivas, o evento colocou os participantes em contato direto com diferentes formas de praticar esporte e de ocupar os mesmos espaços.
Para quem participou, a experiência também deixou marcas que vão além das atividades realizadas durante o festival. Entre novos contatos com o esporte, desafios e descobertas, crianças e adolescentes puderam experimentar modalidades paralímpicas e, em alguns casos, encontrar uma atividade que pode continuar fazendo parte de suas vidas.
Segundo Keegan Ponce, supervisor do Centro de Referência Paralímpico do Amazonas e coordenador do evento, um dos destaques desta edição foi a participação expressiva das redes de ensino municipal e estadual, além das escolas particulares. De acordo com ele, muitas instituições organizaram o transporte dos estudantes para participar das atividades.
“Eles se organizaram em micro-ônibus e levaram esses alunos”, relata Ponce, que considera esse movimento um indicativo de avanço na participação das escolas em ações de inclusão, especialmente envolvendo estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
O festival também apresentou aos participantes modalidades como atletismo, badminton, vôlei sentado, tiro com arco, remo paralímpico, esgrima paralímpica e bocha. Neste ano, o remo paralímpico foi uma das novidades, com dois remo ergômetros cedidos pela Federação Amazonense de Remo para que crianças com e sem deficiência pudessem experimentar a modalidade.
Conforme Ponce, o evento também funciona como uma porta de entrada para o Centro de Referência Paralímpico. Crianças com deficiência que demonstram interesse podem ser encaminhadas para atividades regulares e, posteriormente, para treinamentos e competições. “Eles iniciam o treinamento, estão em idade escolar e, em seguida, eles são classificados pelo esporte para as Paralimpíadas Escolares”, explica.
Para ele, o objetivo vai além da formação esportiva. “O Festival Paralímpico tem uma importância anual de ser feito para fortalecer a questão da inclusão”, afirma. Segundo Ponce, enquanto crianças sem deficiência têm a oportunidade de vivenciar a inclusão, aquelas com deficiência encontram um espaço para desenvolver habilidades e potencialidades.
William Emanuel participa de atividades de bocha paralímpica durante o festival
Entre os participantes está William Emanuel de Souza Machado, que tem paralisia cerebral e participa das atividades motoras e educativas do Programa de Atividades Motoras para Deficientes (Proamde), desenvolvido na Ufam. O adolescente também encontrou na bocha paralímpica, uma modalidade pela qual desenvolveu interesse e já está inscrito para disputar as Paralimpíadas Escolares, em novembro, em São Paulo.
O pai, Manoel Francisco de Melo Machado, de 74 anos, acompanha de perto cada etapa dessa trajetória. Ele conta que, quando o filho começou a participar do Proamde, não imaginava que a experiência teria um impacto tão positivo. “Confesso a você que, ao iniciar as atividades no Proamde, não esperava alcançar o grau de satisfação que temos hoje desse programa”, afirma.
Segundo Manoel, as atividades contribuíram para a evolução da coordenação motora do filho e também despertaram seu interesse pela bocha. A participação no festival deste sábado, por sua vez, trouxe outra experiência para a família. “Hoje participamos pela primeira vez das Paralimpíadas locais. E ficamos lisonjeados com o evento. Eu resumiria que tal evento superou minhas expectativas. Agora ele já está inscrito nessa modalidade nas competições escolares, que acontecerão em novembro, em São Paulo. O que é motivo de muito orgulho para um pai e familiares”, diz Manoel.
Elayne Thamyres acompanha os 43 alunos durante a programação do evento
A professora de Educação Física Elayne Thamyres levou 43 alunos de uma escola particular do bairro Jorge Teixeira para participar do festival. A turma reuniu estudantes com e sem deficiência, em uma experiência que, segundo ela, nasceu do trabalho desenvolvido em sala de aula com esportes adaptados e educação inclusiva.
Especializada em Educação Inclusiva e Educação Física Escolar e Inclusão, Elayne conta que decidiu levar os estudantes depois de perceber que muitos deles nunca haviam tido contato com algumas das modalidades paralímpicas. Durante o festival, a curiosidade deu lugar ao entusiasmo.
Para a professora, a vivência proporcionada pelo festival permite que os estudantes compreendam a inclusão de uma maneira que vai além do conteúdo apresentado em sala. “Foi uma experiência muito boa e que vai ficar na memória afetiva dessas crianças”, afirma.
Segundo Elayne, aproximar as crianças dessas experiências ajuda a construir uma convivência mais natural com as diferenças. “É conviver diariamente, se pôr no lugar do outro, frequentar esses espaços inclusivos”, afirma. Para ela, essa convivência precisa estar presente não apenas na escola, mas em diferentes ambientes da sociedade.
Mais do que uma manhã de atividades esportivas, o Festival Paralímpico deixa para participantes como William e os 43 alunos levados por Elayne a oportunidade de descobrir novas possibilidades e compartilhar experiências. De acordo com Keegan Ponce, é justamente nessa continuidade que o evento encontra parte de seu propósito. "Apresentar o esporte, estimular a convivência e criar caminhos para que crianças e jovens com deficiência possam desenvolver suas habilidades, ocupar espaços e projetar novos futuros", concluiu.