Giro que resiste

Vinil sobrevive e atrai novas gerações

Mesmo na era do streaming, discos de acetato mantêm mercado aquecido em sebos e pistas alternativas de Manaus

Amariles Gama
26/04/2026 às 08:39.
Atualizado em 26/04/2026 às 08:39

Produto parou de ser produzido em larga escala no Brasil no fim dos anos de 1990 com a popularização das fitas K7 e, depois, do CD (Daniel Brandão/AC)

Um ruído, a agulha encosta no disco, o giro começa e, aos poucos, o som ganha forma. Em Manaus, o disco de vinil nunca saiu totalmente de cena, mesmo com o avanço do digital. Ele resiste na memória, na pista, entre sebos, colecionadores e DJs que dividem opiniões sobre o passado, o presente e o futuro da música.

Celebrado no último dia 20 de abril, o Dia do Vinil mostra que, apesar de ter parado de ser produzido em larga escala no Brasil no fim dos anos de 1990, o vinil nunca deixou de existir. Na avenida Djalma Batista, zona Centro-Sul de Manaus, é possível encontrar vários deles, para todos os gostos musicais, no Sebo Amazônia. O proprietário, Joaby Carvalho, conta que o vinil carrega histórias que atravessam gerações.

“A gente trabalha com uma rotatividade numa base de vinte mil vinis. Sempre está chegando material de colecionadores, aquela galera que guardava com muito carinho. O vinil nunca saiu de moda, ele só ficou ali meio na obscuridade, mas sempre existiu”, destacou.

Joaby Carvalho no Sebo Amazônia, onde há cerca de 20 mil discos

Entre as prateleiras, é possível encontrar clássicos da MPB, rock, pop, jazz e até artistas contemporâneos importados. Para ele, o diferencial não está só no catálogo, mas também nas memórias que cada disco traz para seus clientes. Por outro lado, Joaby afirma que esse resgate afetivo também tem atraído um público cada vez mais jovem. Segundo ele, muita gente chega cansada do consumo rápido da música.

“O vinil não é só uma mídia. Ele envolve memória, afeto. Quando você coloca um disco, você lembra do seu pai, dos seus avós. Tem todo um ritual, desde pegar o disco até colocar a agulha. É quase terapêutico. Hoje, o público principal está entre 13 e 30 anos. Muita gente vem cansada do streaming, dessa coisa rápida. Aqui, você é praticamente obrigado a ouvir o disco todo, e isso muda a forma de consumir música”, disse Joaby.

Do vinil ao digital

Enquanto o vinil ganha novos adeptos, há também quem tenha acompanhado a transição para o digital e não pretende voltar, pelo menos profissionalmente. É o caso do DJ, radialista e produtor de eventos Raidi Rebello, que atualmente possui uma coleção de cerca de cinco mil discos de vinil. Ele conta que começou a colecionar ainda na adolescência e usou vinil nas apresentações até meados de 2005.

“Escuto muito raramente hoje. Com o advento do digital, é mais fácil colocar um pen drive. Mas pretendo trazer pelo menos alguns discos pra casa para ouvir, porque acho o som do vinil melhor que o digital”, disse Raidi, que guarda a coleção em seu estúdio.

DJ Raidi Rebello preserva raridades do rock progressivo e pop que marcaram o início de sua carreira

Apesar da relação afetiva com a coleção, Raidi ressalta que não pretende voltar a tocar com vinil. Segundo ele, a substituição aconteceu por questões práticas, como custo menor, facilidade de manuseio, durabilidade e transporte. Ainda assim, alguns discos da sua coleção seguem intocáveis.

“Tem vários que eu não venderia, como meus dois LPs do Rick Wakeman, dois do Pink Floyd e um do Eurythmics. Foram alguns dos primeiros que adquiri e me emocionam até hoje quando escuto”, destacou o DJ, que também chegou a produzir uma coleção em vinil nos ano de 1990, com cinco volumes de faixas de dance mix.

Na contramão da digitalização

Enquanto Raidi Rebello é firme na sua decisão profissional, há quem prefira ir na contramão dessa digitalização. O músico, produtor cultural e DJ de vinis Ramon Oliveira apostou no resgate da experiência analógica e leva apresentações exclusivamente com vinil para bares e espaços alternativos de Manaus.

“A ideia de tocar com vinil veio muito dessa vontade de mostrar os discos, de apresentar as músicas de um jeito diferente e fortalecer essa cultura em Manaus. O público gosta dessa experiência com a mídia física, de ver as capas, de ter contato com as letras, de prestar mais atenção. É uma forma de ouvir música menos acelerada, fugir um pouco dos algoritmos e dessa lógica automática do digital”, contou o DJ.

Esforço e investimento

O músico, produtor cultural e DJ de vinis Ramon Oliveira reconhece que tocar com vinil exige mais esforço e investimento, mas afirma que essa escolha também tem gerado uma resposta diferente do público, que, segundo ele, se envolve de forma mais intensa com o que está sendo apresentado.

DJ Ramon Oliveira aposta no formato exclusivamente analógico para criar conexões diretas com o público

“É mais trabalhoso, é mais caro, você tem que carregar peso, investir em equipamento, em agulha, em mixer, nos próprios discos. Mas a gente faz por paixão, para ver os discos rodando, para criar essa troca com o público. E quando tem evento, a resposta é muito forte. Existe uma certa escassez disso na cidade, então, quando acontece, as pessoas se envolvem muito, ficam empolgadas, querem participar, querem entender”, disse.

Mesmo sendo um movimento mais nichado, ele acredita que esse tipo de experiência pode ganhar força. Para ele, é uma forma de aproximar as pessoas e criar uma relação mais direta com a música, longe da lógica acelerada do consumo digital.

“Talvez não seja algo que volte a ser massivo, porque hoje existem tecnologias muito mais práticas. Mas eu acredito muito nesses movimentos menores, porque eles aproximam as pessoas, criam uma relação mais direta com a música, sem aquela lógica puramente comercial. E isso, para quem gosta, faz toda a diferença”, destacou.

Mesmo de formas diferentes, na memória, na estante de quem coleciona, nas prateleiras dos sebos ou nas pistas onde ainda resiste, o vinil segue girando em Manaus. Histórias distintas, mas, com certeza, boas e velhas memórias que os vinis ainda carregam.

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