Clássico sobre música e amadurecimento revisita a experiência do diretor nas turnês de grandes bandas de rock e a passagem de William Miller da adolescência para a vida adulta
‘Quase Famosos’ acompanha William Miller e a banda Stillwater durante uma turnê pelos Estados Unidos, em uma história sobre música, amadurecimento e os bastidores do rock (Foto: Reprodução/INTERNET)
Neste dia 13 de setembro, completam-se 26 anos do lançamento de Quase Famosos, e a data parece uma boa desculpa para revisitar aquele que se tornou um clássico dos filmes sobre música. Cameron Crowe é um cara legal — e, pensando bem, talvez seja um cara muito legal. Aos 16 anos, ele acompanhou de perto turnês de Led Zeppelin, The Who e Allman Brothers, fez amizade com músicos e escreveu para a Rolling Stone, a bíblia do rock. Pouca gente atravessa a adolescência dessa maneira. Crowe atravessou e, décadas depois, decidiu transformar a lembrança em cinema. O resultado é um filme que parece nascer de uma memória feliz, embora saiba que toda memória feliz costuma carregar alguma culpa, alguma saudade e um pequeno exagero.
‘Quase Famosos’ acompanha William Miller, alter ego de Crowe, um garoto que descobre o mundo através dos discos deixados pela irmã depois que ela sai de casa. Gosto especialmente da cena em que ele abre o pacote de vinis e observa as capas com o encantamento de quem acaba de encontrar uma passagem secreta para outra vida. Antes de conhecer a estrada, William conhece a música; antes de conversar com os ídolos, aprende a imaginar quem eles poderiam ser. A escolha de Patrick Fugit para o papel foi decisiva. Há nele um jeito desajeitado, meigo e desprovido de cinismo que torna William menos um herói do que uma testemunha. Ele ainda não sabe como se comportar naquele universo, e justamente por isso consegue enxergá-lo com uma honestidade que os adultos perderam.
William Miller acompanha a banda durante a turnê e descobre, ainda adolescente, os bastidores do mundo do rock
A primeira grande lição vem de Lester Bangs, o crítico incorruptível interpretado por Philip Seymour Hoffman: “Seja honesto e impiedoso”. A frase funciona como conselho profissional, mas também como uma espécie de ameaça carinhosa. Escrever sobre música exige entusiasmo, claro, porém exige igualmente a coragem de dizer quando a empolgação está escondendo alguma coisa. William aprende isso enquanto a Rolling Stone o convida para escrever sobre o Stillwater, banda fictícia construída a partir das experiências de Crowe com grupos como Led Zeppelin, Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, The Eagles e The Who. Ao acompanhar a turnê, o garoto percebe que o rock não é feito apenas de riffs e poses. Há vaidade, medo, competição, desejo e uma enorme dificuldade de admitir que o palco também envelhece.
No meio da turnê, William se apaixona por Penny Lane, personagem de Kate Hudson que parece ter saído de uma canção e entrado no filme sem pedir licença. Ela chama os integrantes da banda de “anjos”, acompanha o grupo com devoção e ama Russel Hammond, vivido por Billy Crudup, mesmo quando essa paixão não lhe oferece a segurança que merece. A crueldade está no fato de Penny ser tratada como objeto de troca numa aposta de 50 cervejas, como se sua liberdade pudesse ser negociada entre homens que confundem camaradagem com posse. Ainda assim, o filme não a reduz à imagem da fã encantadora. Penny carrega sonhos próprios, uma tristeza que tenta esconder e uma vontade quase desesperada de pertencer a algum lugar. Kate Hudson entendeu tudo isso, e a indicação ao Oscar parece consequência natural de uma atuação que mistura leveza e melancolia.
Penny Lane, personagem de Kate Hudson, mistura a devoção ao rock com sonhos e conflitos próprios ao longo da história
Crowe também sabe que a mitologia do rock costuma nascer da mistura entre o que aconteceu e o que ficou bom demais para ser abandonado. A cena em que o guitarrista Russell sobe ao telhado, depois de tomar LSD, e anuncia ser um “deus dourado” remete a uma história atribuída a Robert Plant, do Led Zeppelin, no topo de um hotel em Los Angeles. A tempestade que quase derruba o avião do Stillwater, por sua vez, teria origem em um episódio vivido pelo The Who durante uma excursão pelos Estados Unidos. Esses fatos atravessam o filme como atravessam as lembranças: mudam de forma, ganham novos personagens e passam a obedecer à lógica da narrativa. Talvez seja esse o privilégio da ficção: preservar uma verdade emocional mesmo quando os detalhes já não podem ser tratados como documento.
Russell Hammond e Penny Lane durante a turnê do Stillwater, em um dos momentos que aproximam os personagens do universo do rock
A mãe de William, Elaine Miller, interpretada por Frances McDormand, representa a força que tenta puxá-lo de volta para casa. Sempre que o garoto liga durante a viagem, ela pergunta onde ele está, com quem está e o que está fazendo, encerrando a conversa com o conselho para que fique longe das drogas. A preocupação dela tem algo de cômico, mas também revela o abismo entre duas maneiras de enxergar o mundo. Para William, a estrada é uma oportunidade de descobrir tudo; para Elaine, é o lugar onde tudo pode dar errado. Em torno deles, o filme constrói uma passagem delicada entre a infância protegida e a vida adulta, na qual a liberdade chega acompanhada de contas, mentiras e consequências. O rock abre a porta, mas ninguém explica direito como encontrar o caminho de volta.
Apesar de lidar com excessos, drogas, egos e turbulências, ‘Quase Famosos’ escolhe a leveza.