Animação que transformava situações comuns da infância em grandes aventuras continua presente nas lembranças de quem cresceu nos anos 1990 e 2000.
A série acompanhava Bobby, um menino de quatro anos, e sua família em situações comuns da infância, que eram transformadas pela imaginação do protagonista (Divulgação)
Uma ida ao supermercado, a hora de dormir ou até a obrigação de comer brócolis podiam ganhar proporções gigantescas quando vistos pelos olhos de Bobby Generic. Em “O Fantástico Mundo de Bobby”, a infância não precisava de superpoderes para ser extraordinária. Bastava imaginação. Trinta e seis anos depois da estreia, a animação continua despertando memórias de quem cresceu acompanhando as aventuras do menino na televisão.
Criado por Howie Mandel, Jim Staahl e Jim Fisher, “Bobby’s World” estreou nos Estados Unidos em 8 de setembro de 1990. A série acompanhava Bobby, um menino de quatro anos, e sua família em situações comuns da infância, que eram transformadas pela imaginação do protagonista. Ao longo de sete temporadas, o desenho construiu seu humor justamente a partir desse encontro entre a realidade cotidiana e o universo fantástico criado pela cabeça de uma criança.
Para Tennety Xavier Soares, de 39 anos, servidor público da Semed, a identificação com o personagem vinha justamente do fato de Bobby ser uma criança comum. “O que eu mais gostava era que o Bobby era igual a gente. Ele não era herói, não tinha super poder, era só um moleque de 5, 6 anos que tinha que comer brócolis e ir dormir cedo, mas na cabeça dele isso virava uma guerra no espaço”, conta ele.
A pedagoga Luana Rabello, de 37 anos, também aponta a imaginação como uma das principais características que fizeram o personagem permanecer na memória. “O que eu mais gostava era justamente da imaginação do Bobby. Ele conseguia transformar qualquer situação simples em uma grande aventura, e acho que isso fazia a gente se identificar muito com ele”, diz ela.Quando o cotidiano vira aventura
A série encontrava sua graça em situações que faziam parte da rotina de qualquer criança. Obrigações, medos, passeios e pequenas frustrações podiam se transformar em histórias grandiosas quando passavam pelo olhar de Bobby.
Entre as lembranças de Tennety está o triciclo do personagem. “Quando ele entrava na imaginação, o triciclo virava nave, carro de corrida, de tudo”. A tia Ruth, vizinha que Bobby acreditava ser uma bruxa, também ficou marcada. “Eu morria de rir porque eu tinha uma vizinha igualzinha que eu tinha certeza que era bruxa também. E a mãe dele sempre falando ‘Bobby, para de sonhar acordado’. Pô, era eu todinho”, afirma.
Para Luana, essa capacidade de transformar o comum em extraordinário continua representando uma característica própria da infância. “Criança tem muito essa capacidade de pegar uma situação que para um adulto é completamente comum e transformar em alguma coisa enorme. O Bobby exagerava, mas, ao mesmo tempo, mostrava muito bem essa liberdade que a criança tem de imaginar, criar histórias e enxergar o mundo de uma maneira diferente”, destaca ela.
A percepção também ganha outro significado quando vista pela perspectiva adulta. Tennety conta que, hoje, consegue reconhecer com mais clareza a forma como o desenho representava a mente infantil. “A gente adulto vê ‘arruma teu quarto’; a criança vê uma missão impossível numa caverna cheia de monstros que são as roupas jogadas. O desenho acertou em cheio nisso", aponta ele.
Luana, que atua na área da educação, observa que essa característica permanece mesmo diante das mudanças na infância contemporânea. “Como pedagoga, acho interessante perceber que essa imaginação continua sendo uma característica muito presente na infância, mesmo que as crianças de hoje tenham outras referências”, pontua ela.
Para Tennety, a diferença está principalmente no ambiente em que as crianças cresceram. “Hoje as crianças têm tablet, videogame com gráfico realista... na nossa época a imaginação TINHA que trabalhar. O Bobby mostrava que uma caixa de papelão era um castelo. Isso continua 100% real, as crianças ainda são assim… só que a gente como adulto desaprendeu”.Uma geração diante da televisão
Além das histórias, “O Fantástico Mundo de Bobby” ficou ligado a uma experiência coletiva de infância: a rotina de chegar da escola, fazer um lanche e acompanhar os desenhos na televisão.
Luana guarda justamente essa lembrança. “Uma lembrança que ficou bastante marcada é de assistir ao desenho depois da escola, porque era aquele momento de chegar em casa, tomar um lanche e sentar para assistir. Hoje parece uma coisa simples, mas naquela época fazia parte da nossa rotina e da nossa infância”, lembra ela.
A relação com a televisão também ajuda a explicar por que personagens como Bobby permanecem associados a uma determinada fase da vida. Para Luana, a memória não está apenas no desenho, mas no contexto em que ele era acompanhado.
“Para quem cresceu nos anos 1990 e 2000, também existe uma memória afetiva muito forte ligada à televisão e à rotina de assistir aos desenhos depois da escola. Então o Bobby acabou fazendo parte não só da infância, mas também das lembranças de uma geração”, conta ela.
Tennety resume essa identificação pela proximidade do personagem com situações comuns. “Não era um mundo de fantasia 100% do tempo, era a nossa vida. Era ir ao supermercado com a mãe, não querer tomar banho, ter medo de tomar vacina. Todo moleque de 90 se via ali”, destaca ele. Outro elemento lembrado por ele é a dublagem brasileira. “A voz do Bobby, da mãe dele, do tio... era muito bem feita, muito engraçada. Você lembra até hoje”.O que ficou depois da infância
Para Luana, a força da animação também está na construção de um personagem que não precisava ser extraordinário para despertar identificação. “Acho que foi porque o Bobby era uma criança comum, com medos, vontades, dúvidas e uma imaginação enorme. Ele não precisava viver grandes aventuras o tempo todo; muitas vezes, uma situação do cotidiano já era suficiente para ele criar um universo inteiro”, relata ela.
Tennety também destaca justamente essa relação entre a vida real e a imaginação como uma das razões para a permanência do desenho na memória. Segundo ele, eram três elementos principais: a identificação com situações cotidianas, a dublagem e a maneira como a série valorizava a imaginação infantil. “Nos anos 90 ninguém falava de ‘criatividade infantil’ ou ‘lúdico’. Adulto só falava ‘para de inventar coisa, menino’. E o Bobby vinha e dizia: inventa mesmo, sonha mesmo”, pondera ele.
A série chegou ao fim em 1998, mas o personagem continuou habitando a memória de quem cresceu acompanhando suas aventuras. Mais de três décadas depois, o desenho ainda encontra espaço justamente porque fala de uma experiência que não envelhece: a capacidade de uma criança de transformar o mundo a partir da própria imaginação. “Se eu assistir hoje, vai parecer até um documentário da mente infantil”, brinca Tennety.
Para Luana, essa permanência revela que a memória afetiva construída na infância vai além das histórias apresentadas na tela. Bobby fazia parte de uma rotina, de uma época e de uma forma de enxergar o mundo. “O Bobby acabou fazendo parte não só da infância, mas também das lembranças de uma geração”.