Opinião de críticos de cinema do Amazonas aponta força do filme brasileiro nas premiações internacionais
No filme, Wagner Moura vive o professor e pesquisador Marcelo, que tenta fugir do peso da ditadura no Brasil (Foto: Victor Jucá/Divulgação)
A vitória de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, no Critics Choice Awards 2026, neste domingo (4), ao conquistar o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira, colocou oficialmente o cinema brasileiro no centro da temporada de premiações. Para o editor-chefe do Cine Set, Caio Pimenta, o reconhecimento não garante automaticamente uma vitória na Academia, mas amplia de forma decisiva a visibilidade do longa.
“Os votantes do Critics e do Oscar são diferentes, logo, ter vencido neste domingo não garante o mesmo resultado na festa da Academia. Ainda assim, joga visibilidade para ‘O Agente Secreto’, uma das produções mais premiadas e elogiadas do ano nos EUA. Ganhar prêmios, especialmente os televisionados e com estrelas de Hollywood convidadas, te coloca no radar, cria interesse em assistir. E isso acontecer justamente poucos dias antes do início da votação para as indicações ao Oscar somente favorece o filme brasileiro”.
Na comparação com "Ainda Estou Aqui”, Caio vê “O Agente Secreto” em posição mais sólida. ‘O Agente Secreto’ faz uma campanha muito mais forte que ‘Ainda Estou Aqui’: venceu duas vezes em Cannes, enquanto o longa de Walter Salles foi premiado em Veneza. Junto à crítica dos EUA, saiu vencedor em Nova York, Los Angeles e associações nacionais, algo que ‘Ainda Estou Aqui’ não alcançou. Em LA, foi eleito o segundo Melhor filme do ano, atrás apenas de ‘Uma Batalha Após a Outra’.
“Agora, soma a vitória no Critics e chega com grandes chances no Globo de Ouro, com Wagner favorito a Melhor Ator e boas possibilidades em Filme Internacional. Para o Oscar, pode alcançar até seis indicações: Filme Internacional e Ator Principal estão certas, com boas chances em Melhor Filme e Roteiro Original, além de zebra em Casting e Direção”, acrescenta o crítico.
Impacto cultural e simbolismo
A crítica de cinema Pâmela Eurídice, membro da Abraccine, avalia que o impacto do prêmio se reflete diretamente na circulação do cinema brasileiro. “Quando um filme entra na temporada de prêmios, ele passa a ser comentado para além do público cinéfilo e desperta curiosidade em pessoas que talvez não assistiriam a esse tipo de obra”, observa.
Segundo Pâmela, essa visibilidade é especialmente relevante em cidades com poucas salas dedicadas ao cinema de arte. “Isso amplia as possibilidades de exibição e cria a chance de esses filmes chegarem ao público em tela grande”, pontua.
Ao comparar o longa com “Ainda Estou Aqui”, a crítica destaca o simbolismo de uma possível segunda presença consecutiva do Brasil no Oscar. “Os dois filmes falam sobre memória e sobre como a ditadura afetou a população, mas de formas diferentes. Um traz um olhar mais íntimo, enquanto o outro apresenta uma visão mais ampla e social”, analisa. Para ela, essa diversidade de abordagens reforça a pluralidade do cinema brasileiro e a capacidade de discutir a própria história sob múltiplas perspectivas.
Atenção internacional
Para o crítico de cinema Danilo Areosa, membro filiado da Abraccine, o destaque de “O Agente Secreto” no Critics Choice Awards já dá um sinal positivo para a temporada internacional. “Disputamos contra concorrentes fortes na categoria de melhor filme internacional e saímos na frente. Quem é visto, é lembrado, e esse início é bem promissor”, afirma.
Danilo também ressalta o efeito do trabalho de campanha e a recepção crescente do filme nos Estados Unidos. “Kleber Mendonça e sua esposa, Emilie Lesclaux, são pessoas inteligentes, e o fato de o filme ter vencido o Critics Choice já demonstra os efeitos de um trabalho minucioso na campanha internacional”.
"A recepção da crítica, que já era forte em Cannes no ano passado, tem crescido consideravelmente em solo americano. Há uma vontade enorme em torno de ‘O Agente Secreto’ por parte da imprensa internacional. Na semana que vem, com o Globo de Ouro, será possível ter um parâmetro mais claro para definir o cenário da corrida pelo Oscar. Vejo muitas chances de a produção ser indicada além da categoria de Melhor Filme Internacional”, conclui Areosa.
Com uma campanha internacional consistente e reconhecimento crescente da crítica, “O Agente Secreto” passa a integrar o grupo de produções mais observadas da temporada de prêmios. A vitória no Critics Choice Awards e a atenção da imprensa americana ampliam a visibilidade do longa brasileiro no período que antecede as principais premiações, incluindo o Globo de Ouro e o Oscar. O desempenho nas próximas etapas deve ajudar a dimensionar o alcance do filme na corrida internacional.
LISTA
O filme concorreu com as produções:
A Garota Canhota
Foi Apenas um Acidente
Belén
Sirat
No Other Choice
SAIBA MAIS
>> Outra chance
O longa também disputou o prêmio de Melhor Ator, com Wagner Moura entre os indicados, mas a estatueta ficou com Timothée Chalamet, pelo filme Marty Supreme.