Crianças no cinema

Filmes apresentam crianças com perguntas grandes demais para qualquer adulto

Com Bergman, Takahata e del Toro, a infância enxerga beleza em meio à desgraça

Michael Douglas
11/10/2026 às 16:18.
Atualizado em 11/10/2026 às 16:18

(Fotos: Reprodução)

Na segunda-feira, quando o calendário lembrar o Dia das Crianças, talvez seja interessante fugir das frases prontas sobre a pureza infantil. O cinema também sabe olhar para os pequenos quando a vida oferece perguntas grandes demais para qualquer adulto responder. Há filmes em que crianças atravessam o luto familiar, a fome, a guerra e a violência política carregando uma percepção que mistura lucidez e imaginação. Elas compreendem o perigo, embora ainda procurem abrigo em histórias, jogos e fantasias.

Em Fanny e Alexander, 1982, o diretor sueco Ingmar Bergman começa pela celebração. A família Ekdahl vive o Natal com comida, música, teatro e uma energia doméstica que faz o mundo parecer habitável. Fanny e Alexander observam os adultos como personagens, percebendo desejos, segredos e crueldades escondidos atrás da etiqueta social. A
morte do pai e o casamento da mãe conduzem os irmãos para a casa do rígido bispo Vergérus, onde a religião se transforma em instrumento de medo. Alexander processa
a perda misturando acontecimentos concretos, fantasmas e imagens que talvez pertençam
ao sobrenatural, talvez à necessidade de inventar uma saída. Bergman trata a criança com
seriedade e concede a ela um mundo interior tão complexo quanto o de qualquer adulto.

(Foto: Reprodução)

A imaginação de Alexander não funciona como fuga completa da realidade. Ela se torna uma linguagem para alcançar aquilo que os adultos tentam esconder. O menino vê fantasmas, conversa com o mistério e encontra no teatro familiar um mapa para compreender as pessoas. A casa do bispo impõe silêncio, enquanto a antiga casa dos Ekdahl oferece cor, ruído e movimento. Entre esses espaços, a infância reconhece a violência onde os adultos insistem em chamar tudo de ordem. Fanny observa, Alexander sofre e ambos aprendem que a família pode ser abrigo, espetáculo e campo de batalha.

Túmulo dos Vagalumes, de 1988, constrói uma das experiências mais dolorosas da animação. Seita e Setsuko atravessam os últimos meses da Segunda Guerra Mundial tentando sobreviver aos bombardeios, à fome e à indiferença de uma sociedade exausta.

(Foto: Reprodução)

O irmão mais velho assume responsabilidades adultas, enquanto a menina encontra nos doces, nos vagalumes e nas brincadeiras pequenas ilhas de encantamento. O diretor Isao Takahata filma a guerra a partir do chão, da casa destruída e do corpo que perde energia. Os aviões aparecem no céu, porém o drama acontece depois: na espera por comida, na vergonha de pedir ajuda e no silêncio de quem já não consegue prometer o amanhã. A infância continua brincando enquanto o mundo ao redor desaprende a cuidar.

A força do filme está na relação entre Seita e Setsuko, construída com ternura e também com uma dolorosa irresponsabilidade. Seita quer proteger a irmã e provar que consegue conduzir a própria vida, embora sua recusa em retornar para a casa da tia produza consequências terríveis. Setsuko alterna fantasia e percepção, rindo de um vagalume enquanto compreende que algo essencial desapareceu.

A animação permite cores de beleza quase sobrenatural, e justamente por isso cada perda se torna mais difícil de suportar. Túmulo dos Vagalumes fala da guerra sem transformá-la em espetáculo heroico. Seus protagonistas lutam para preservar um vínculo e a possibilidade de continuarem sendo irmãos em meio à ruína.

(Foto: Reprodução)

Em O Labirinto do Fauno, a infância encontra uma ditadura e responde a ela com mitologia. Ofelia chega com a mãe ao quartel coman-dado pelo capitão Vidal, homem que administra a violência franquista como se autoridade fosse uma virtude. A menina se refugia em livros, jardins e uma criatura faunesca que lhe apresenta três tarefas.

O filme mantém abertas duas possibilidades: Ofelia pode estar vivendo uma aventura
sobrenatural ou construindo uma narrativa para suportar uma realidade insuportável. O diretor Guilhermo Del Toro entende que a fantasia infantil possui uma ética própria. Ela
reconhece monstros, desconfia de ordens e sabe que obedecer pode ser uma forma de
morrer por dentro. O labirinto oferece caminhos enquanto o mundo dos adultos ergue
muros.

A relação entre os três filmes aparece nas crianças obrigadas a encarar estruturas de poder que não controlam. Alexander enfrenta a autoridade religiosa; Seita e Setsuko enfrentam a guerra e o abandono; Ofelia enfrenta o fascismo instalado à mesa, no quarto e no corpo da mãe. Cada um responde ao horror com silêncio, cuidado, imaginação e desobediência. Essas crianças não possuem todas as respostas, e o cinema tampouco pretende oferecê-las com facilidade. Sua sensibilidade revela o que os adultos tentam normalizar.

A guerra, o luto e a ditadura aparecem através de gestos cotidianos: uma refeição que falta, uma porta que se fecha, uma ordem que exige submissão, um brinquedo que ganha importância porque todo o resto desapareceu.

Assistir a esses filmes no Dia das Crianças pode parecer uma escolha pouco confortável, e talvez justamente por isso ela seja necessária. A infância precisa de proteção, embora também mereça ser reconhecida como espaço de pensamento, percepção e conflito. E talvez o gesto mais adulto que uma criança nos ensina seja procurar uma luz pequena quando o céu inteiro parece ocupado pela noite.

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