TEATRO DE RUA

Espetáculo sobre Ajuricaba ocupa ruas do Centro de Manaus

Montagem do Processo Natimorto percorreu a avenida Epaminondas e a Praça da Matriz, incorporando interações com moradores e trabalhadores à encenação

acritica.com
07/09/2026 às 16:52.
Atualizado em 07/09/2026 às 16:52

(Foto: André Cavalcante)

O espetáculo Ajuricaba-Me, do grupo Processo Natimorto, levou a história da liderança indígena Ajuricaba para as ruas do Centro de Manaus em uma apresentação realizada no dia 31 de agosto. O percurso começou nas proximidades do Colégio Militar, na avenida Epaminondas, e seguiu até a Praça da Matriz, com intervenções que incorporaram à encenação a circulação de passageiros, vendedores ambulantes e outras pessoas que estavam no local.

A montagem aborda a trajetória de Ajuricaba, liderança dos Manaú que enfrentou a colonização portuguesa no século XVIII. Ao optar pelo teatro de rua, o grupo buscou aproximar essa história do cotidiano da população e permitir que situações imprevistas ocorridas durante o percurso também interferissem na apresentação.

Logo no início da encenação, na região do Colégio Militar, a equipe foi orientada a interromper a ação e retirar faixas colocadas no local. Pouco antes, os artistas haviam reproduzido um áudio com falas de lideranças indígenas e amazônicas, entre elas Chico Mendes e Davi Kopenawa, relacionadas à destruição da Amazônia.

Pessoas que acompanhavam a apresentação chegaram a se manifestar durante a interrupção. Em seguida, o grupo desmontou a estrutura instalada no local e continuou o percurso previsto pelo Centro.

Entre uma estação e outra, os artistas caminharam pelas ruas carregando faixas com frases como “Nada está separado”, “Sorrir. Brincar. Dançar”, “Você já viu o que está à sua volta?” e “Somos parte do mesmo corpo”.

O ator Chico Kaboco também distribuiu as chamadas Cartas de Ajuricaba ao povo manauara, pequenos textos com reflexões relacionadas ao bem comum, à liberdade e à valorização das diferentes formas de vida.

(Foto: André Cavalcante)

Na segunda parada da apresentação, em frente ao Colégio Dom Bosco, vendedores ambulantes e passageiros ajudaram a reorganizar as faixas utilizadas pelo grupo. Os artistas Elizete Tikuna e André Cavalcante também interagiram com pessoas que aguardavam o transporte coletivo.

Durante a apresentação, uma mulher identificada como Dona Etelvina pediu a palavra e falou sobre o orgulho de ser manauara e amazonense. Ela contou que conhecia a história de Ajuricaba e que havia estudado no Instituto de Educação do Amazonas. A participação foi incorporada à apresentação.

Para o idealizador do espetáculo, Dimas Mendonça, esse tipo de interação é uma das características do trabalho realizado nas ruas.

“As pessoas não estão esperando por aquilo. Às vezes, nem sabem que querem ver, ouvir ou participar. É tudo uma surpresa. A rua já está acontecendo quando a arte chega”, afirmou.

Segundo Dimas, durante a criação de Ajuricaba-Me, o grupo discutiu a maneira como experiências relacionadas ao medo e à violência fazem parte da circulação pelas ruas de Manaus. A proposta da montagem, segundo ele, foi introduzir outras possibilidades de relação com esses espaços, a partir do encontro, da alegria e da observação da cidade.

Para Chico Kaboco, a opção pelo teatro de rua também está relacionada à tentativa de ampliar o acesso à apresentação para pessoas que não necessariamente frequentariam uma sala de espetáculo.

“Quando a proposta de um espetáculo é pensada para o palco, o espetáculo é condicionado a um público. O sistema limita vagas e idades para as pessoas prestigiarem o espetáculo. Ajuricaba-Me virou as costas para o palco porque gostaríamos de encontrar o sentido da vida”, disse.

(Foto: André Cavalcante)

O ator afirma que a montagem também propõe reflexões sobre cidadania e sobre a relação das pessoas com o ambiente em que vivem.

“Ajuricaba fala do amor próprio consigo e com os outros. E os outros não são só pessoas, é algo muito maior. Estou me referindo à terra, árvore, rio, aves, animais e todos os tipos de seres vivos que habitam este planeta. Porque nada está separado: tudo é um corpo, e um precisa do outro.”

A cultura e a ancestralidade indígenas também integram a montagem. A artesã e multiartista Elizete Tikuna, do povo Ticuna e integrante do elenco, relaciona a experiência do espetáculo à ideia de corpo, território e ancestralidade.

“As pessoas na rua respeitaram a gente como corpo-território e ancestrais”, afirmou.

Pesquisa iniciada em 2018

Ajuricaba-Me integra uma pesquisa desenvolvida pelo Processo Natimorto desde 2018 dentro da trilogia ABAPORUTUS. O projeto começou com Tartufo-Me, inspirado na obra de Molière, e continuou com Hamlet-Me, baseado em Shakespeare e apresentado em 2025.

A terceira montagem parte de uma figura histórica da Amazônia e também tem como referência a peça A Paixão de Ajuricaba, do escritor e dramaturgo amazonense Márcio Souza.

Segundo o grupo, a proposta não é apenas recontar a trajetória de Ajuricaba, mas relacioná-la à Manaus contemporânea e discutir a presença dessas memórias na cidade. A escolha das ruas do Centro como espaço de apresentação também permite que moradores, trabalhadores e pessoas em circulação participem ou interfiram na encenação.

A apresentação de 31 de agosto marcou a primeira incursão de Ajuricaba-Me pelas ruas do Centro de Manaus.

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