Réplicas feitas à mão em Manaus conquistaram clientes de vários estados e até do exterior após repercussão nas redes sociais
Alderland Bentes Lira encontrou na paixão pelo automobilismo uma maneira de criar peças artesanais inspiradas em carros de corrida (Foto: Daniel Brandão)
O que começou com a curiosidade despertada por um vídeo na internet se transformou em profissão, negócio e uma nova forma de expressão. Em Manaus, o pintor automotivo Alderland Bentes Lira, 32 anos, encontrou na paixão pelo automobilismo uma maneira de criar peças artesanais inspiradas em carros de corrida e cockpits de Fórmula 1.
A história começou há cerca de dez anos, quando Alderland assistiu, no YouTube, a um vídeo de uma pessoa pintando um capacete. A curiosidade virou vontade de experimentar e, no mesmo dia, ele comprou os materiais necessários.
“A Bentes Garagem surgiu sem pretensão alguma, foi apenas uma curiosidade. Um certo dia entrei no YouTube e vi um vídeo de uma pessoa pintando capacete e, na hora, eu quis muito fazer isso. No mesmo dia comprei um compressor e uma pistola de pintura e iniciei na pintura automotiva”, conta.
Durante os primeiros anos, a atividade dividiu espaço com outras ocupações. Alderland chegou a trabalhar como personal trainer, mas, cinco anos atrás, decidiu abrir a própria garagem. Conforme a demanda cresceu, deixou as aulas para se dedicar integralmente à pintura automotiva.
Hoje, a Bentes Garagem é sua principal fonte de renda e conta com uma equipe de três funcionários.
A ideia de produzir as réplicas surgiu depois que Alderland conheceu, pela internet, um protótipo de cockpit de Fórmula 1. O projeto chamou a atenção, mas transformar a referência em um produto próprio exigiu tempo, investimento e algumas tentativas frustradas.
Os primeiros testes não deram o resultado esperado. Alderland comprou moldes diferentes e tentou reproduzir as peças, mas precisou recomeçar algumas vezes até encontrar uma forma de chegar ao acabamento que buscava.
A virada aconteceu quando conheceu um amigo de São Paulo, que já dominava o processo. O contato foi decisivo para que Alderland aprendesse a técnica e conseguisse reproduzir as peças.
“Primeiro deu muito errado para depois dar muito certo. Quando ele mandou para mim, ele me orientou de todas as formas possíveis. Na primeira vez eu já consegui fazer. Foi assim que tudo se originou. A gente foi buscando, tentando uma ou duas vezes e, na terceira, deu certo”, relata.
A partir desse encontro, o processo começou a se desenvolver. O conhecimento adquirido permitiu que ele aprimorasse a produção e transformasse a experiência em uma nova frente de trabalho da Bentes Garagem.
O processo começa pela criação da matriz, que Alderland chama de “a mãe de todos os carrinhos”. A partir dela, é feito o molde utilizado na reprodução das peças.
Depois, a fibra de vidro é aplicada pelo processo de laminação até formar o carrinho. A peça passa por massa poliéster, lixamento, acabamento e aplicação de primer antes de receber a pintura automotiva. Por fim, o carrinho é fixado em um quadro de ACM, com uma estrutura metálica na parte traseira.
Cada unidade leva, em média, cinco dias úteis para ficar pronta. Apesar da possibilidade de reproduzir modelos, o trabalho continua sendo feito manualmente e pode ser personalizado de acordo com o pedido do cliente.
Entre os modelos mais procurados estão a McLaren MP4 e a Lotus 97T. As peças podem receber diferentes pinturas, cores e logotipos de empresas, além de referências a times de futebol.
Os quadros são produzidos exclusivamente sob encomenda e vendidos pelas redes sociais da Bentes Garagem. Os preços variam de R$ 600 a R$ 2 mil, conforme o tamanho e o modelo. As peças têm três opções de dimensões, sendo a maior com 1,20 metro por 45 centímetros e a menor com 50 por 20 centímetros.
Os compradores vão desde colecionadores até pessoas que acompanham as corridas pela televisão e construíram uma relação afetiva com o automobilismo.
Processo de produção das obras começa pela criação da matriz (Foto: Daniel Brandão)
Entre as criações, uma peça inspirada no universo de Ayrton Senna ocupa um lugar especial para Alderland. O modelo foi desenvolvido por ele e baseado no capacete mais emblemático do piloto.
“Ele foi todo desenvolvido por mim e baseado no capacete mais emblemático do Ayrton Senna”, afirma.
Outra produção que marcou a trajetória da garagem foi um “paredão” composto por mais de dez peças.
Para Alderland, independentemente do modelo ou do tamanho, o sentimento ao concluir cada trabalho permanece parecido.
Entre as criações, uma peça inspirada no universo de Ayrton Senna ocupa um lugar especial para Alderland (Foto: Daniel Brandão)
No dia 13 de setembro, Alderland levou algumas das criações para a Ponta Negra, em Manaus. A intenção era apresentar e comercializar as peças diretamente ao público. A expectativa, porém, não se realizou.
O que parecia um resultado frustrante acabou se transformando em um ponto de virada para o negócio. Um vídeo gravado durante a exposição ganhou repercussão nas redes sociais e fez o trabalho chegar a um público muito maior.
“A venda na ponta negra não saiu como desejado, infelizmente não vendi nenhuma peça lá mas, devido a repercussão do vídeo aí sim vendemos muitas peças”, conta.
Depois da publicação, as mensagens se multiplicaram. Os pedidos chegaram de diferentes estados brasileiros, principalmente de São Paulo, e também surgiram contatos da Suíça, dos Estados Unidos e do Canadá.
A repercussão foi maior do que a capacidade imediata de atendimento da equipe. Para facilitar a logística, a garagem decidiu priorizar inicialmente os clientes de Manaus. Ainda assim, segundo Alderland, mais de mil mensagens de pessoas de outros estados e países aguardam resposta.
O aumento da procura também modificou a rotina da equipe.
“Não precisamos aumentar a equipe, mas precisamos adaptar a rotina. Tivemos muitas horas extras”, explica.
Mesmo com a necessidade de reorganizar o trabalho, a empresa ainda não ampliou o número de funcionários. Atualmente, as réplicas representam cerca de 30% da renda da Bentes Garagem.
O crescimento da procura também fez Alderland pensar em novos projetos. A ideia é produzir modelos maiores e, futuramente, construir um carro inspirado em um Fórmula 1 em tamanho real e que possa ser pilotado.
Mais do que ampliar o catálogo, ele quer fortalecer a identidade de um trabalho produzido em Manaus.
A trajetória começou com um vídeo assistido por curiosidade, passou por mais de um ano de tentativas, encontrou conhecimento em uma parceria inesperada e ganhou uma nova dimensão depois de um vídeo nas redes sociais.
Agora, a garagem que nasceu da paixão pela pintura automotiva começa a ocupar também um espaço entre o artesanato, o colecionismo e a cultura do automobilismo.