Literatura

Autores destacam desafios de falar sobre a Amazônia nos livros infantis

No Dia do Livro Infantil, celebrado neste sábado (18), escritores e ilustradora apontam linguagem, encantamento e identidade como chaves para aproximar crianças da realidade amazônica

Gabriel Machado
18/04/2026 às 17:04.
Atualizado em 18/04/2026 às 17:04

Para Irena Freitas, crianças gostam de ler para se identificar, mas também para imaginar outros cenários, assim como adultos (Divulgação)

Celebrado neste sábado (18), o Dia do Livro Infantil convida à reflexão sobre o papel da literatura na formação dos pequenos leitores - especialmente, quando o cenário narrado é a própria Amazônia. Em um território marcado pela riqueza ambiental e cultural, transformar a fauna, a flora e os saberes da região em histórias acessíveis e encantadoras para crianças é um desafio que exige sensibilidade, escuta e criatividade.

Para a ilustradora Irena Freitas, responsável pelas obras “Manaus” e “A Floresta”, um dos principais pontos de atenção está na forma como essas histórias são construídas. “Acho que o maior desafio da literatura infantil, em geral, é escrever um texto que não pareça didático ou moralista. Quero representar os lugares e paisagens que fazem parte do meu dia a dia de forma sincera e que se comuniquem com outras pessoas, independente de serem crianças ou não. Não quero subestimar os meus leitores”, afirmou ao BEM VIVER.

Esse cuidado também passa pela forma como o conteúdo chega às crianças. Irena questiona a ideia de que a literatura infantil precisa, necessariamente, cumprir um papel pedagógico rígido. “Não penso em livros para crianças como uma obra que necessariamente precisa ser educativa. Crianças gostam de ler para se identificar, mas também para imaginar outros cenários, assim como adultos. Ler também é diversão! Não precisa estar sempre ligado a uma atividade escolar”, pontuou.

Elson Farias destaca que encontrar a linguagem adequada é um dos maiores desafios ao abordar temas complexos como o meio ambiente

Já o escritor e Membro da Academia Amazonense de Letras Elson Farias destaca que encontrar a linguagem adequada é um dos maiores desafios ao abordar temas complexos como o meio ambiente. “Os principais desafios são a gente encontrar um estilo, uma linguagem que atinja o universo infantil, porque essa matéria de fauna e flora é muito complicada para a criança aprender. Então, a gente tem que encontrar uma fórmula que possa falar para que ela possa entender”.

Para ele, no entanto, o caráter educativo da literatura está diretamente ligado ao encantamento. “Toda literatura infantil é altamente educativa, mas esse aprendizado vem pelo prazer. A criança precisa se encantar pelas histórias. À medida que ela se encanta, ela acaba aprendendo sobre a Amazônia, sobre o mundo ao redor dela”, ressaltou o autor.

A preocupação em retratar a realidade amazônica também é um ponto central na trajetória de Elson. Segundo ele, a escassez de obras voltadas para o contexto regional foi um dos motivadores para sua produção literária. “Eu procurei explorar aspectos da vida na floresta, da fauna, da flora, dos rios e do folclore. A minha intenção era trazer para as crianças o mundo da Amazônia, porque muitas vezes os livros que chegavam às escolas não falavam da nossa realidade”, relembrou.

Adaptação e sensibilidade

Maickson Serrão reitera que escrever para crianças exige um exercício constante de adaptação e sensibilidade

O escritor Maickson Serrão, de “A Mãe da Mata”, reitera que escrever para crianças exige um exercício constante de adaptação e sensibilidade. “A linguagem para o público infantil é muito mais difícil, tem que ter um cuidado com o que falar. É pouco texto, muito mais ilustração. Então como narrar essas histórias? É um exercício constante, que exige também resgatar esse olhar infantil”, explicou.

Segundo ele, o caminho para equilibrar aprendizado e encantamento passa pelo lúdico. “A gente usa o colorido, as imagens, histórias curtas, mas com mensagens grandes. É preciso chamar a atenção logo no início, tanto pela temática quanto pela forma. O mais importante é encantar e fazer com que a mensagem chegue até as crianças”, afirmou.

Ao abordar a responsabilidade dos autores, Maickson destaca o papel da literatura na formação da consciência ambiental e cultural desde cedo. “A gente tem uma responsabilidade muito grande na formação dessas crianças. Falar sobre consciência ambiental é imprescindível, assim como valorizar a ancestralidade, os saberes indígenas e o imaginário amazônico”, disse.

Para Irena, essa construção também acontece ao tratar temas complexos de forma acessível. “Os livros servem como uma ponte entre adultos e crianças para abordar temas mais complexos, são uma forma de trazer questões ambientais de uma forma menos abstrata para a realidade das crianças”.

Por fim, os três profissionais convergem em um ponto essencial: a literatura como ferramenta de pertencimento. Ao se verem representadas nas histórias, crianças amazônidas reconhecem seu território, sua cultura e sua identidade. Como resume Maickson, “a literatura pode fazer com que as crianças se aproximem, se conectem e tenham esse sentimento amazônico muito mais aflorado, fortalecendo o pertencimento e a valorização da nossa região”.

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