Moda

A moda tem raízes ancestrais e código digital

Do Alto Rio Negro para a lista de inovadores globais, o designer indígena Siodohi une tecnologia, saberes tradicionais e sustentabilidade em um dos projetos mais comentados da cena pop

Guto Oliveira
02/05/2026 às 14:10.
Atualizado em 02/05/2026 às 14:10

(Foto: Divulgação)

Designer de moda, diretor criativo e pesquisador indígena do povo Waikahna (Piratapuya), da Terra Indígena Alto Rio Negro, Siodohi constrói uma trajetória que parte do território para dialogar com o mundo. À frente da Sioduhi Studio, o estilista amazonense desenvolve um trabalho que articula tingimento natural, artesania, látex de seringueira e tecnologias como a impressão 3D, conectando inovação a saberes ancestrais.

(Foto: Divulgação)

O reconhecimento acompanha esse movimento. Em 2025, foi incluído pela Vogue Business na lista dos 100 inovadores globais, consolidando seu nome entre os principais expoentes do chamado Futurismo Indígena Amazônico.

Esse percurso ganha novo alcance com a participação em um projeto da cantora Anitta. Siodohi assina uma das peças do visualizer da faixa Nanã, conectando moda, música e identidade cultural em uma proposta que amplia a visibilidade de sua pesquisa estética.
A dimensão do trabalho, no entanto, só se confirmou com o lançamento. “Quando o álbum

Equilibrium foi lançado, confirmei que a Sioduhi Studio estava, de fato, participando do projeto. Ainda assim, continuo tendo surpresas com mais peças aparecendo em diferentes frentes”, afirma. Mesmo com os bastidores em movimento, ele preferiu aguardar. “Sou uma pessoa muito pé no chão. Esperei para ver acontecer”, afirma o estilista.

Linguagem contemporânea

A criação parte de referências das constelações da Gente Estrela Real, presentes entre povos do Alto Rio Negro. Mais do que inspiração, trata-se de um sistema de conhecimento que orienta a construção da peça. “Materializar a partir da escuta já é um desafio por si só.

A partir disso, trago minha essência futurista, criando uma ponte entre esses tempos”, explica.

A proposta não busca tradução literal, mas uma aproximação entre temporalidades. Na prática, o trabalho de Siodori se constrói nesse atravessamento: passado e futuro deixam de ser opostos e passam a coexistir.

(Foto: Divulgação)

 Esse processo criativo tem um ponto de partida definido. “O que vem primeiro é o território. Depois pesquisa e conceito, e então a materialização das formas”, resume.

Tecnologia e posicionamento

Na peça criada para o projeto, tradição e tecnologia a parecem de forma integrada. A saia reúne elementos artesanais e impressão 3D, resultado de uma parceria com a empresa amazonense Creaturae.

“Partimos da premissa de que ser indígena também é acompanhar o espírito do tempo”, afirma. No desenvolvimento, foram utilizados filamentos de PLA, um polímero biodegradável derivado de fontes renováveis, além de materiais como a Refibra.

A sustentabilidade, segundo ele, não é uma escolha pontual, mas parte da estrutura do trabalho. “Sempre tive essa preocupação de desenvolver processos que estimulem a vida, humana e não humana. Sustentabilidade para mim é técnica, econômica, social e ambiental.”

O cuidado também se estende ao uso de referências culturais. O processo envolve escuta e consulta a pesquisadores indígenas e não indígenas, estabelecendo limites entre o que é coletivo, o que é sagrado e o que pode ser incorporado ao design.

Ao projetar sua criação para novos públicos, Siodori também delimita qual Amazônia deseja apresentar. “A Amazônia na sua diversidade, a partir da concepção indígena e também não indígena. A floresta e as cidades amazônicas coexistindo”, define.

Apesar da visibilidade, ele avalia que o momento não altera o posicionamento da marca, mas amplia seu alcance. “O desafio continua sendo o mesmo do Norte ao Sul: a necessidade de letramento e sensibilização da população brasileira.”

Na trajetória pessoal, o impacto é mais direto. “Hoje me sinto mais maduro e resiliente. Meu movimento sempre foi de passo em passo e continua sendo, mas agora com mais pessoas envolvidas na equipe.”

Siodori não traduz a Amazônia. Ele a veste.E, ao fazer isso, reposiciona o território no centro da moda contemporânea.

  

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