Direitos indígenas

Evento na Ufam propõe revisão da história e debate realidade dos povos indígenas

Discussão abordou conflitos no Vale do Javari e papel das universidades na escuta dos povos originários

Jeysy Xavier
31/03/2026 às 12:55.
Atualizado em 31/03/2026 às 12:55

Professores relatam cenário complexo vivido por comunidades indígenas no interior do Amazonas (Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA)

A sede da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Amazonas (ADUA), foi palco na manhã desta terça-feira (31) de uma profunda reflexão sobre a história e o presente dos povos originários. A roda de conversa "Ação do Fórum Amazônia por Verdade, Justiça e Reparação" detalhou as recentes atividades realizadas junto aos povos indígenas do Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas.

A abertura dos debates, conduzida pelo professor e coordenador do Fórum, Gilberto de Souza Marques (UFPA), propôs uma revisão crítica da historiografia brasileira. Ao citar as datações da Caverna da Pedra Pintada, no Pará, que remontam a mais de 11 mil anos, o professor enfatizou que a história oficial é, na verdade, uma narrativa marcada pelo massacre e pelo silenciamento sistemático.

Para Marques, a universidade precisa passar por um processo de autocrítica.

"A gente tem que diminuir o nosso grau de arrogância. O primeiro passo para isso é saber que a universidade tem muito a aprender com esses povos", defendeu o professor, reforçando que o papel acadêmico não é o de "dar voz" a quem já a possui, mas sim colaborar para que essa voz se torne cada vez mais nula e ouvida.

Gilberto de Souza Marques, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e coordenador do Fórum

Complementando essa visão teórica com um relato de campo, a professora Ceane Andrade Simões (UEA) detalhou a expedição realizada entre os dias 25 e 27 de março para acompanhar a assembleia eleitoral da Univaja. O evento ocorreu no Centro de Treinamento do Quixito, uma estrutura complexa encravada na floresta e acessível apenas por lanchas rápidas. Ceane descreveu um cenário de alta complexidade política, onde oito associações representam sete etnias em um território de 8 milhões de hectares. 

Segundo a docente, a dinâmica indígena é marcada por uma transparência rara na política convencional.

"Os conflitos eram colocados ali ao céu aberto e eram resolvidos e encaminhados de maneira imediata, direta e muito crua", observou a professora, ressaltando a honestidade dos debates entre as lideranças.

Ceane Andrade Simões, professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA)

A imersão permitiu identificar as pressões urgentes que cercam o Vale do Javari, como as invasões de garimpeiros e processos de "recolonização" promovidos por ordens religiosas. Um ponto de atenção especial foi o êxodo da juventude e as dificuldades enfrentadas pelas mulheres da região.

"Apoiar o trabalho político dessas mulheres e a importância ancestral que elas trazem é de fundamental importância para o nosso movimento docente", destacou Ceane, apontando o protagonismo feminino como um pilar de sobrevivência das comunidades frente às estruturas patriarcais.

Para além das invasões territoriais, a professora Ceane Andrade alertou para ameaças mais silenciosas, mas igualmente devastadoras, que pairam sobre as etnias da região. Citando relatos das próprias lideranças baseados em estudos de órgãos como a Fiocruz, ela mencionou a baixa taxa de natalidade entre os Marubo como um fator de risco demográfico. Somam-se a isso as pressões externas que tentam desestruturar a autonomia dos povos.

"Outra ameaça são as relações políticas partidárias e, sobretudo, a presença de ordens religiosas em um processo muito forte de recolonização por meio da religião", pontuou.

A docente encerrou sua fala destacando que o Vale do Javari não é um bloco uniforme, e que a convivência entre diferentes modos de vida gera desafios políticos únicos. Enquanto algumas aldeias possuem uma organização mais sedentária baseada na agricultura, outros grupos, como os Korubo, mantêm tradições nômades voltadas ao extrativismo e à pesca, o que exige um olhar sensível às suas especificidades.

"Há um choque muito grande ali. Esses povos de recentíssimo contato têm uma outra maneira de se organizar que não é a mesma das outras aldeias", explicou Ceane.

Para a professora e para a organização do evento, compreender essas nuances é o primeiro passo para uma solidariedade efetiva. "O que vivemos lá foi um panorama, um contexto ainda superficial diante da complexidade do que é o movimento indígena em movimento", concluiu, reforçando o papel da ADUA e do movimento docente em permanecer vigilantes e aliados às causas do Vale do Javari.

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