Marcos Bento diz que importação desenfreada de tecnologias de produtos causa uma competição desfavorável ao Brasil
Presidente da Abraciclo, Marcos Bento, analisa o desempenho do setor durante o Festival Interlagos (Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA)
SÃO PAULO (SP) - O mercado brasileiro de motocicletas vive um momento de expansão, com recorde de emplacamentos no primeiro semestre e expectativa de que a produção volte a superar a marca de 2 milhões de unidades em 2026. Ao mesmo tempo, fabricantes instaladas no Polo Industrial de Manaus ampliam operações e incorporam novos modelos, mas também temem a concorrência desleal com a importação de insumos para a produção de itens em alta, como motos elétricas.
O movimento foi um dos destaques do Festival Interlagos, em São Paulo, onde A CRÍTICA acompanhou as estratégias das fabricantes para o mercado brasileiro e encontrou diferentes movimentos relacionados ao Polo de Duas Rodas de Manaus. Para a Abraciclo, entidade que reúne os fabricantes do setor, além do aumento da demanda, há também o amadurecimento do mercado brasileiro.
Em entrevista exclusiva, o presidente da Abraciclo, Marcos Bento, afirmou que a indústria precisa aproveitar esse momento para ampliar a produção e a geração de riqueza no país. Ele também falou sobre a chegada de novos fabricantes, o avanço das motocicletas de maior cilindrada, a necessidade de mão de obra qualificada e os riscos de uma eventual expansão das importações.
Bento também defendeu que novos entrantes sejam submetidos às mesmas regras aplicadas às empresas que já produzem no país e afirmou que a valorização da indústria instalada em Manaus deve permanecer no centro da política industrial brasileira.
O mercado de motos teve 1,17 milhão de emplacamentos no primeiro semestre, alta de 14,1%. O que está puxando esse crescimento?
O primeiro semestre de 2026 é o melhor emplacamento histórico que temos. São vários fatores que têm colaborado para o crescimento do mercado. O primeiro é o próprio atributo da motocicleta, pelo custo-benefício. Temos um produto versátil, mais barato, cujo custo envolve aquisição, manutenção e combustível. O segundo fator é o delivery, que cresceu bastante no pós-pandemia. E o terceiro é a entrada do público feminino, que hoje representa quase um terço do nosso volume.
Fizemos uma projeção de produzir 2,07 milhões de unidades neste ano. Depois de um longo tempo, voltamos ao patamar de 2 milhões. Estamos mantendo essa expectativa, embora o segundo semestre tenha características diferentes, como uma provável seca, o calendário eleitoral e as férias coletivas que ocorrem em Manaus.
Significa que o mercado brasileiro é forte e pujante. Se falarmos do Polo Industrial de Manaus, estamos falando do maior polo fora do eixo asiático. Isso demonstra a força de produzir em Manaus e de gerar empregos na região. Como Abraciclo, não comentamos investimentos isolados de cada marca, mas temos visto esse movimento como saudável e importante.
O que temos frisado é a valorização da indústria brasileira, de produzir em Manaus e de ter regras claras para que os novos entrantes possam se instalar, gerar riqueza e renda na região. O produto produzido em Manaus também é exportado, tamanha é a qualidade da produção no polo.
Hoje temos um ambiente de estabilidade em relação à produção em Manaus. A questão da acomodação de terrenos é algo que as autoridades têm se empenhado em resolver. O que queremos frisar é que precisamos ter uma regra igual para todo mundo. Os novos entrantes são muito bem-vindos, mas precisamos ter uma política industrial correta e um PPB justo.
Precisamos incentivar aqueles que levam geração de riqueza e emprego para a região. Essa é a pauta principal que a Abraciclo defende, valorizar a indústria brasileira, porque ela é importante não só para os fabricantes, mas para os brasileiros.
Isso demonstra um amadurecimento do mercado. O cliente que entra na faixa de entrada, que representa quase 80% do mercado brasileiro, começa a usar a média cilindrada e depois migra para a alta cilindrada, que é um produto mais voltado ao lazer e de maior valor agregado.
Ou seja, não temos apenas crescimento na cilindrada de entrada, mas também na média e, neste último trimestre, tivemos um alto crescimento nas motos de alta cilindrada.
O Polo de Duas Rodas tem desenvolvimento, emprego de engenheiro e tecnologia. Temos empregos diversificados, de químicos, estatísticos, advogados e economistas. A importância de o produto brasileiro ser verticalizado é justamente essa: temos centro de desenvolvimento, pesquisa e engenharia.
O que fazemos é gerar uma massa de empregos dos mais diversos níveis e, principalmente, com valor agregado de massa salarial.
Temos modelos de motocicleta com 90% de nacionalização. Esse modelo emprega não só as pessoas que produzem, mas também os fornecedores, porque as peças são produzidas aqui.
Se eu trouxer uma tecnologia que simplesmente vai ser importada, não vamos ter emprego no Brasil e vamos trazer produtos que não estão adaptados. Quando nacionalizamos e produzimos um produto, estamos preocupados com as características da região, assistência técnica, garantia e peças de reposição.
Sim. Se elas não produzem no Brasil, tem tudo a ver. Como você vai ter uma indústria que precisa atender a uma série de requisitos enquanto abre isso desenfreadamente para quem importa? É uma competição desfavorável para o Brasil e para os brasileiros.
Se incentivarmos produtos ou tecnologias que alguém simplesmente despeja aqui, desembaraça e chega com o produto pronto, não vai ter indústria. Esse é um ponto importante ao qual precisamos estar atentos.
Precisamos continuar atentos à valorização da indústria. Não podemos ter um mecanismo que permita importações desenfreadas, que não tragam geração de riqueza para o país.
O Polo de Duas Rodas tem mais de 50 anos e é extremamente consolidado. Precisamos estar vigilantes para que a indústria que produz no Brasil continue sendo valorizada e para que as leis que regem o sistema industrial e o arcabouço da Zona Franca de Manaus sejam mantidos.
Nossa expectativa, a curto, médio e longo prazo, é que a indústria continue crescendo. O Polo de Duas Rodas tem um grande espaço no mercado brasileiro. Temos um produto de alta tecnologia, versátil nos centros urbanos, com preço de aquisição mais acessível e baixo consumo. Estou confiante de que alcançaremos 2,07 milhões de unidades neste ano e continuaremos crescendo.