Crise climática

Secas e enchentes extremas agravam insegurança alimentar nas comunidades ribeirinhas

Livro recém-lançado mostra esse impacto e reforça a necessidade de gestão mais eficiente dos recursos naturais

Amariles Gama
30/08/2025 às 08:19.
Atualizado em 30/08/2025 às 08:19

Secas recordes dos rios do Amazonas têm provocado o isolamento de comunidades ribeirinhas (Foto: AFP)

As mudanças nos ciclos da água na região amazônica alteram não apenas o ambiente, mas também o que vai à mesa da população. No Amazonas, os extremos de cheia e seca têm agravado a insegurança alimentar nas comunidades ribeirinhas. Isso é o que mostra um livro recém-lançado, “Alimentação: Avanços e Controvérsias – Água, Planeta Terra”, que traz dados sobre esses impactos e reforça a necessidade de uma gestão mais eficiente desse recurso.

Lançada no início deste mês, a obra é a quinta edição da Coleção Verakis – Visão Plural da Alimentação. O livro reúne artigos de pesquisadores do Brasil e da Europa e apresenta a água como um elo entre cultura, saúde, ambiente e economia. Um dos organizadores do livro, Leonardo Capeleto de Andrade, explica que, no Amazonas, os efeitos desses ciclos são sentidos de forma intensa. “Os rios afetam a mobilidade, afetam os peixes, afetam direta ou indiretamente a vida de todo amazônida. Nas grandes secas, os barcos deixam de trafegar entre cidades, comprometendo o abastecimento por produtos externos. E tanto secas quanto cheias também afetam a pesca. Especialmente nas cheias, os peixes se ‘diluem’ nas águas”, destacou.

Impactos

A seca de 2023 foi tão severa que o Rio Negro atingiu seu nível mais baixo em mais de 120 anos, prejudicando a navegação e o transporte de insumos essenciais. Mais de 630 mil pessoas foram diretamente afetadas, e o Governo Federal destinou cerca de R$ 627 milhões para ações emergenciais, incluindo dragagens, abastecimento logístico e apoio à agricultura familiar. Na seca de 2024 não foi diferente: mais de 760 mil pessoas também foram atingidas.

Já nos períodos de cheia, as comunidades ribeirinhas da Amazônia também ficam expostas à insegurança alimentar, segundo revelam os estudos reunidos no livro. Em média, uma em cada três pessoas afirma pular uma refeição. Isso porque, diferentemente da seca, quando os peixes ficam mais concentrados em um local, na cheia eles estão mais espalhados, o que dificulta a pesca. Ou seja, durante a cheia, a pesca fica prejudicada, enquanto a seca compromete o transporte de alimentos, dificultando o abastecimento.

Leonardo ressalta, porém, que a cheia e a seca fazem parte do ciclo natural da região, mas os eventos extremos, como a seca histórica de 2023 e as cheias recordes de anos anteriores, exigem respostas rápidas e estruturadas por parte do poder público. É necessário, segundo os organizadores do livro, adotar uma abordagem integrada, que contemple infraestrutura adaptada, políticas sustentáveis e valorização dos saberes tradicionais das comunidades. “As cheias e secas são previsíveis. O que é menos previsível são os eventos extremos. Para estes, é necessária preparação de emergência. Já nos ciclos sazonais, os municípios e o Estado precisam planejar a logística com portos, estradas alternativas e infraestrutura resiliente. Não dá para depender de soluções caras e emergenciais, como helicópteros, a cada poucos anos”, alertou.

Por outro lado, para 2025, o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) estima que a seca será mais amena e os rios estarão mais navegáveis que nos anos anteriores.

Medidas

Entre as medidas apresentadas no livro estão a captação de água da chuva e o uso de espécies agrícolas mais resistentes. O pesquisador explica que a primeira é fundamental em períodos de seca, garantindo água potável e para o cultivo, enquanto as espécies adaptadas se tornam mais eficientes durante a cheia, quando áreas de plantio sofrem com alagamentos. “O uso da água da chuva já vem sendo explorado como alternativa às águas dos rios, que contêm muito sedimento e matéria orgânica, mas exige infraestrutura para armazenamento. No caso de cultivos, não adianta importar espécies resistentes de outras regiões sem considerar as condições da Amazônia”, afirmou.

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