Até 2030

'É possível zerar a malária', afirma pesquisadora da Fiocruz

Stefanie Lopes trabalha em um estudo de uma vacina contra a malária, fala sobre os desafios do plano de erradicação dessa doença na Amazônia

Maria Luiza Dácio
malu@acritica.com
12/06/2022 às 12:06.
Atualizado em 12/06/2022 às 12:07

Stefanie Lopes coordena alguns estudos para pesquisa pré-clínica e tenta identificar novos fármacos que possam atuar contra o parasita da malária e também novas formulações vacinais (Foto: Gilson Mello/Freelancer)

Vice-diretora de pesquisa e inovação da Fiocruz Amazônia, Stefanie Lopes, que faz parte de um estudo para produção de uma vacina contra a malária, garante que é possível erradicar a doença no Brasil. No início de maio, o Ministério da Saúde lançou um plano nacional para zerar os casos de malária até 2030. Na entrevista abaixo, a pesquisadora  fala sobre os desafios para o enfrentamento desse problema.  “Se a gente conseguiu eliminar malária de diferentes localidades, eu acredito que a gente consiga eliminar a malária de todos. Eu acho que com as ferramentas que a gente tem hoje a gente não vai conseguir”, disse.

 O que é o Elimina Malária Brasil?

O plano prevê a  eliminação da malária falciparum no país até o ano de 2030 e estendidas até o 2035 para o controle e eliminação da malária vivax, que é a predominante no país e as ações são mais difíceis de serem executadas.  Por exemplo, se uma cidade têm milhares de casos de malária e começa a reduzir esse número de casos de malária, quando você vai diminuindo os casos é claro que as ações devem ser diferentes a depender da intensidade da doença naquela região. E se por acaso ela conseguir não ter mais casos autóctones, ou seja casos ali na região, e vamos dizer se aquela cidade não tiver mais caso de transmissão ali dentro, ainda assim a cidade precisa continuar o monitoramento ativo e ações e estratégias para que isso não volte, porque em uma região, uma cidade ao lado pode não ter acontecido e a gente tem claro, trânsito de pessoas entre uma área e outra podendo levar de novo o parasita para aquela região e aquela doença  pode voltar a ser transmitida naquela cidade. 


Como a pandemia afetou os casos de malária?

Na nossa região nós não vimos um aumento de casos durante a pandemia, pelo contrário, continuaram na redução esperada. No entanto, na África por exemplo, você teve aumento durante o cenário de pandemia de mortes e de número de casos. Por quê? Porque se desviou por exemplo muitas das ações humanitárias que vão pros países africanos para a Covid-19. Deixou-se de ter distribuição de medicamentos, profissionais de saúde e com isso obviamente o cenário é muito diferente. 

Nós temos um excelente esquema de notificação e tratamento de malária no Brasil. Nós somos um país isento porque de fato você recebe o diagnóstico e o tratamento dentro do Sistema Único de Saúde. Não se paga por esse tratamento, é um medicamento que está disponível e você tem essa descentralização. Em todas as localidades você faz um exame de malária e você tem esse diagnóstico. Isso é essencial pois quanto mais precoce você faz o diagnóstico mais cedo você toma medicação e mais cedo você elimina a possibilidade de você transmitir a doença para um vetor que vai transmitir pra outras pessoas. Então é esse tipo de ação ele é primordial. No Brasil nós somos exemplos. 

Existem outras alternativas que são realizadas para auxiliar na eliminação da malária?

Manaus e Porto Velho estão implementando a tafenoquina. A fundação de Medicina Tropical aqui e em Rio Preto da Eva, que está fazendo a implementação desse medicamento que é de um único comprimido. Então você elimina essa questão da pessoa fazer o abandono da medicação. No entanto, por ser um único comprimido a pessoa precisa fazer um outro teste pra ver se ela tem a deficiência de uma enzima. Se tiver, pode vir a ter um efeito colateral que são pequenos sangramentos e isso pode levar que a pessoa precise de uma transfusão sanguínea e de chegar a um sintoma grave pelo uso da medicação. Esse medicamento não é distribuído sem a testagem para a deficiência da enzima e vai pro tratamento convencional. 95% das pessoas aqui não tem essa deficiência. 

Qual o panorama da malária no Brasil, hoje?

Ao longo dos anos nós temos sim reduzido os casos. Isso é um cenário positivo. Esse ano nós ainda estamos num ‘caldeirão’ que nós não sabemos, mas há indícios de alguns municípios vão ter elevação do número de casos. Não sei dizer localmente como estão, mas nós temos um ano de cheia. Então tem outras coisas que vão impactar. Fora a vulnerabilidade social e o aumento do trabalho informal. Tudo isso aumenta o número de pessoas indo pra áreas de garimpo porque não tem emprego.  Você aumenta as pessoas que estão buscando trabalho, que vão se expor ainda mais à transmissão. A malária é uma doença de vulnerabilidade social. Ela possui um cunho social muito importante então pode ser que a gente também tenho esse aumento por conta disso.

A senhora falou de cheia dos rios. Quais os impactos para os casos de doença?

No alagamento em si, quando a gente tem cheia, é menor a presença do vetor porque o vetor vive em águas mais rasas. Então na cheia temos menor número. Então, isso vai fazer com que áreas que antes não tinha água vão ficar alagadas. No final do ano é que a gente vai ver aumentar quando iniciar a vazante dos rios, que é quando a gente tem aumento do vetor e do número de casos. É notável que em ano de cheia a gente costuma ver aumento de casos porque a gente vai aumentar as áreas que foram alagadas e que vão ter. E não são áreas pequenas como a dengue, que se instala em pneus. O mosquito cresce dentro de um pneu na água parada. Sobre a malária nós estamos falando de espelhos da água que começaram a se instalar quando a água começar a baixar.

Quais são os estudos que você tem feito hoje sobre a malária?

Eu coordeno alguns estudos para pesquisa pré-clínica, ou seja, ainda não estou estudando dentro de uma pessoa que tem malária. Estou fazendo estudos anteriores a isso. Tentando identificar novos fármacos que possam atuar contra o parasita da malária e também novas formulações vacinais. Hoje, a malária só tem uma única vacina aprovada e em uso na África para combater a malária falciparum e é uma conquista que levou mais de 30 anos para que essa vacina saísse do papel até prática. 

E a gente viu por exemplo como na covid esse processo foi muito mais acelerado devido a esses estudos anteriores de vacinas em diversas doenças. São avanços. Nada se compara a você ter uma pandemia para estudar a eficácia de uma vacina. Só pra colocar a ressalva aqui: Não é porque a vacina da malária levou 30 anos que todas as vacinas têm que leva. Mas é uma vacina (da malária) com diversas limitações. Uma delas é a quantidade de doses que requer quatro doses. Está longe de ser 100% eficaz. Ela reduz em 30% o número de malária grave em crianças na África. Mas 30% é muita coisa com você a pensar que das 600.000 mortes por malária grave, 90% são crianças. Estou falando aí de 540.000 crianças que morrem de malária. Aí eu estou falando em reduzir 70% é muita coisa.

Mas nós também não temos nenhuma vacina hoje, mais avançada para malária vivax, que é o nosso problema amazônico. E   não só amazônico. Ela é a malária mais amplamente distribuída pelo globo, então, fora da África o que a gente tem mais é a malária vivax. Então a gente precisa olhar pra ela também. E eu aqui estou trabalhando com um projeto pré-clínico, ainda muito em início para uma o desenvolvimento de uma vacina pra malária viva. 

O que eu estudo aqui, são vacinas no sentido de bloqueio de transmissão a longo ciclo, tentando buscar que a pessoa que tomou a vacina não vai transmitir para o mosquito. Ela é inoculada em organismos como ratinhos e camundongos e eles retiram, purificam o anticorpo e eu avalio se esse anticorpo protege ou não, ou seja, impede que o mosquito fique infectado. 

Então hoje eu faço essa partezinha do projeto. O pessoal do Japão desenvolveu a formulação que ela é através do vetor viral, muito parecido com algumas vacinas de covid. Aí ela tem um pedacinho de uma proteína do parasita que é importante para que o mosquito fique infectado. E aí a gente vai tentar ver se ela impede que o mosquito se infecte. 

É possível zerar a malária?

É possível zerar malária. Se a gente conseguiu eliminar malária de diferentes localidades, eu acredito que a gente consiga eliminar a malária de todos. Eu acho que com as ferramentas que a gente tem hoje a gente não vai conseguir. Novas ferramentas precisam ser desenvolvidas. Em especial para detectar essas pessoas que são os portadores assintomáticos e com isso ter também fármacos mais simples, mais fáceis, mais toleráveis pra você implementar em ações de tratamento. Porque você pensa que dá uma medicação pra alguém que não tá doente, qual é disso? Então tem vários gargalos, né? Eu detectei essa pessoa. Aí você fala assim, “mas você tem que tomar esse comprimido”. “Mas eu não estou doente, doutor. Vou tomar esse comprimido?” 

Essa naturalidade também. Em diversas localidades entende-se  como natural ter malária. Como não é um problema. “Todo mundo tem. Tudo bem. Tomei o remédio, que queima, remédio ruim, mas tá bom, passou”. Entendeu? “Ah, eu tive malária de novo. Ah, tudo bem”. Sabe? Essa naturalização da doença é um gargalo para quando você propõe ações como essa, porque pra se eliminar malária, não adianta eu ter o mistério da saúde, os profissionais de saúde, todo mundo ajeitadinho se ela não tiver a participação da comunidade. “É possível eliminar?” É.

“Quando?” Não sei. Ações e a pesquisa precisa também desenvolver e poder dar ferramentas pra que isso seja possível como um teste rápido, pra detectar o assintomático, como uma droga melhor, mastigável, palatável, que não tem efeito colateral. Porque tudo isso impacta nas ações. 

Se a gente pudesse listar os desafios para zerar a malária. Quais seriam esses desafios? 

Bom, primeiro diagnosticar e tratar corretamente os portadores sintomáticos que são os mais simples. Propiciar que essa pessoa seja diagnosticada o quanto antes e tratada corretamente o quanto antes, e informada da melhor maneira possível que ela precisa finalizar aquele tratamento, que ela precisa tomar todos aqueles medicamentos e explicando como, qual o horário e claro com drogas que matem o parasita.
 
Ações de controle vetorial são importantes, em especial quando a gente vê que há um elevado número de casos. Então, vigilância epidemiológica mais rápida e que consiga ultrapassar os cenários de dificuldade. Hoje, a informatização no interior, a gente sabe que ela não é realidade pra todos os locais. Essa informação que está lá naquele posto de saúde, precisa o quanto antes caminhar a sua rota até chegar naquele gestor que vai dizer ‘o alerta acendeu’ e isso precisa ser feito o quanto antes. O alerta acendeu, a ação precisa ser feita, eu preciso desviar uma equipe pra lá e olhar o que está acontecendo naquele município. A gente tem um sistema muito bom de notificação de malária. É uma doença de notificação compulsória, ou seja, obrigatoriamente eu diagnostiquei, aí eu tenho que notificar. A vigilância ela é essencial e precisa chegar da base até o centro muito mais rápido. E com isso contar também com formação de uma comunidade como um todo. 

Qual o papel dos municípios nesse processo?

Eles têm a o papel central porque não é a o Ministério da Saúde que está na base fazendo diagnóstico. Quem está fazendo? As Unidades Básicas de Saúde que estão fazendo o diagnóstico. Você precisa ter gente capacitada. 

Outra coisa que acontece é que nós temos a circulação de duas espécies basicamente que é o falciparum e o vivax e a medicação é diferente de um pra outro. Esse profissional que está fazendo esse diagnóstico precisa identificar no mínimo qual é a espécie que ele tem.  Isso precisa estar correto. Porque se não estiver correto, o tratamento vai ser errado e essa pessoa vai voltar independente se ela estiver com falciparum ou vivax.  

Pessoas treinadas vão ter o olho melhor, vão pegar mais cedo e vão tratar mais cedo. Porque eu estou falando “ah, se você persistir com os sintomas você volte aqui no posto. Você já me deu negativo”, mas pode ser outra coisa porque sintoma de malária, pode ser dengue, os sintomas eles confundem com diversas doenças febris. Esse agente precisa estar treinado, eu preciso dar condições, o microscópio que ele usa precisa estar bom. 

Então assim, quanto antes essas ações puderem ser feitas, melhor. E acaba que isso tá dentro das mãos da prefeitura. O que tem que fazer, tem que dar também o medicamento, estado tem que distribuir. Então, tudo isso precisa ser feito então cada pedacinho tem o seu papel.

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