Eleições 2022

Aumento do custo de vida dará o tom da campanha presidencial no Brasil

Inflação turbinada pela constante elevação dos preços dos combustíveis terá impacto decisivo na disputa eleitoral de outubro

Jefferson Ramos
jefferson.ramos@acritica.com
18/06/2022 às 08:24.
Atualizado em 18/06/2022 às 08:24

A partir deste sábado (18/6) passa a vigorar o reajuste de 5,2% no preço da gasolina e de 14,2% no preço do diesel autorizado pela Petrobras (Foto: Arquivo/AC)

A disparada da inflação, que já alcança 11,73%, corroendo o poder de compra da classe média e de classes populares, terá impacto na corrida presidencial de outubro. O aumento do  custo de vida e a disparada dos preços dos combustíveis, que o governo tenta segurar com o projeto que cria um teto para o ICMS sobre esses produtos, darão o tom da campanha que já ganha as redes sociais e as ruas.  

Apesar de ter desacelerado 0,47% em maio, a inflação medida através do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) ainda segue com dois dígitos no acumulado dos últimos 12 meses. 

Para o cientista político e advogado, Helso Ribeiro, desde a redemocratização do país o descontrole inflacionário vem influenciando a votação dos presidenciáveis. Helso lembrou que na eleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1994, o então candidato ganhou por estar “etiquetado” na candidatura dele a ideia de um controle da inflação.

“O presidente Fernando Henrique Cardoso foi o único que ganhou as eleições no primeiro turno, as duas vezes justamente por estar etiquetado nele um controle da inflação. A partir daí todos os presidentes subsequentes tiveram muito cuidado com isso”, analisou Helso Ribeiro.

Arsenal

Ribeiro afirma também que a alta da inflação fará parte do arsenal dos candidatos da oposição usada para desgastar o presidente Bolsonaro em possíveis participações do candidato à reeleição em debates eleitorais.

“Não só o ex-presidente Lula usará esse fato negativo do governo Bolsonaro, mas também outros candidatos da oposição vão salientar o desande da economia brasileira com o nível de inflação alto”, complementou.

Segundo a economista Denise Kassama, a preocupação do presidente Bolsonaro é tão evidente com a inflação que o presidente tenta reverter o quadro negativo mexendo na alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), principal fonte de arrecadação dos governos estaduais. 

“Economicamente o impacto dessas reduções não será tão significante para o consumidor final, mas o governo quer mostrar que ele insiste muito na questão dos impostos sobre os combustíveis. É uma medida eleitoreira”, destaca a economista Denisse Kassama.  

Kassama argumenta que a inflação é “democrática” e que ela afeta todas as classes de maneira distintas a depender do grau de renda. Ela emenda explicando que quem vai sofrer mais é quem tem menos. E ainda ressaltou que o país retornou ao mapa da fome, registrando 33 milhões de pessoas passando fome.

Sondagem
De acordo com pesquisa do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), encomendada pela XP Investimento, no mês passado, 71% dos entrevistados afirmaram que a inflação e o preço dos produtos “aumentaram muito” nos últimos meses.

Já a pesquisa da PoderData realizada de 5 a 7 de junho, aponta que 42% da população brasileira responsabiliza o presidente Bolsonaro pela alta de preços no Brasil. Enquanto que 18% atribui a culpa da inflação alta aos governadores dos Estados. As taxas não variaram desde o último levantamento. Outros 13% citam a pandemia do coronavírus como a principal responsável, enquanto a guerra na Ucrânia é mencionada por 8%.

Análise

Pesquisador Afrânio Soares avalia que não só a inflação mas também o desemprego, a desvalorização da moeda, o baixo do poder aquisitivo da população influenciam na escolha dos eleitores (Foto: Arquivo/AC)

 Presidente da Action pesquisas, Afrânio Soares, que também professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) avalia que:  “As questões  econômicas serão pauta nestas eleições. Não só a questão da inflação, mas questões econômicas sociais como desemprego, desvalorização da moeda, isto é a baixa do poder aquisitivo da população. São reflexos da economia que serão evidentemente usados por candidatos para atacar quem tem a obrigação de manter a economia em uma estado saúde, que, na maioria das vezes, é o governo federal. A inflação certamente será um tema que não sairá de pauta e que o discurso de ataque e defesa será a tônica do debate quando o assunto inflação for tratado. É inevitável que seja cobrado. Um dos segmentos da população que sente o impacto da inflação é a classe média e a classe mais popular já está sofrendo há muito tempo. Só que a classe média tem carro. Essa alta dos combustíveis vai impactar para quem tem carro e para quem tem que bancar o deslocamento do seu carro. O maior impacto dos combustíveis está sendo na classe média”.

Pandemia e guerra

Desde a eclosão da pandemia do novo coronavírus no início de 2020, a inflação já vinha em regime de subida no Brasil. A invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro, com diversas sanções ao petróleo russo e o fechamento dos portos ucranianos por onde os grãos eram exportados voltaram a afetar a dinâmica de preços globalmente. 

Os Estados Unidos, por exemplo, registraram neste mês uma taxa inflacionária de 8,6%, a maior dos últimos quarenta anos. Na prática, o mesmo ocorre em países europeus afetados por sanções russas que vem diminuindo a venda de gás natural por causa da postura colaboracionista com as Forças Armadas da Ucrânia. 

A Zona do euro, que abriga cinco das 15 maiores economias do mundo, entre elas  Alemanha, Reino Unido e França, apresentou inflação de 7,4% em março passado. É a maior taxa desde que o euro foi adotado como moeda comum em 1999. Entretanto, comparado com o Brasil, a inflação por aqui ainda é maior.

Apelo

Na semana passada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente Bolsonaro pediram o apoio de empresários do setor de supermercados para controlar o aumento de preços. Bolsonaro solicitou que eles tenham o "menor lucro possível" sobre os alimentos da cesta básica, enquanto Guedes pediu uma "trégua de preços".

O pedido impressiona porque Guedes é um adepto  da escola econômica de Chicago conhecida por postura econômica liberal que prega o rigor fiscal e a liberdade de mercado, o que condena controle de preços. 

"Agora é a hora de dar um freio na alta de preços, voluntário, para o bem do brasileiro. Da mesma forma que os governadores têm de botar a mão no bolso e ajudar o Brasil, o empresariado brasileiro tem de entender o seguinte: devagar agora um pouco, porque temos de quebrar essa cadeia inflacionária", afirmou o ministro na ocasião.

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