GARANTIDO

Ode a Raoni: resistência e ritualística guiam Os Baiás em concepção de ‘Nominação Kaiapó’

Em viagem no tempo por dentro da toada e da tradição da etnia Kaiapó, compostior João Kennedy fala sobre esforços para homenagear liderança indígena durante ritual no Festival de Parintins

Isabella Pina
online@acritica.com
12/05/2023 às 18:46.
Atualizado em 12/05/2023 às 19:03

João Kennedy é um dos compositores da toada Nominação Kaiapó (Foto: Isabella Pina)

Três amigos entram num bar e pedem uma cerveja. O ano era 2015 e, pela primeira vez, João Kennedy, Enéas Dias e Marcos Moura, compositores do Garantido, decidiam unir forças - e criações - para dar vida ao que viria a ser uma das parcerias de maior sucesso no universo bovino: Os Baiás. O trio, que antes divida-se em duas duplas, hoje assina três toadas do álbum ‘Garantido por Toda Vida’. A toada tema do ano, ‘Tuxauas de Abiayala’, e o que promete ser, nas palavras de João Kennedy, o “maior ritual dos últimos tempos do Festival de Parintins”: Nominação Kaiapó.

Do trio de compositores, João, que se divide entre a vida de compositor e empresário, tem base em Manaus. A vida e a lírica dos três flui, curiosamente, pelo bom e velho Whatsapp. É entre áudios e figurinhas ao longo de madrugadas sem fim que os Baiás dão vida a rituais como o deste ano, que homenageia o cacique Raoni Metuktire, grande e renomado líder indígena da etnia Kaiapó. Ele chama atenção para os esforços da composição para realizar o feito de, pela primeira vez, em ritual, homenagear uma liderança em vida no festival. E se emociona.

“Nós, os Baiás, antes de escrevermos uma toada, analisamos os pontos fortes e fracos do festival e analisamos o que realmente precisa ser dito naquele ano. Por isso que as nossas toadas são decoloniais. Com ritual ‘Nominação Kaiapó’ não foi diferente. Precisávamos homenagear esse grande líder indígena que é Raoni, conhecido como ‘Guerreiro Onça’. Queríamos mergulhar a fundo na sua história. Precisávamos juntar o artístico com o real. E, pela primeira vez na história do ritual, homenageamos essa pessoa viva. Vai ser o maior ritual dos últimos tempos do Festival”, conta João Kennedy.

Foi em 2006 que João começou a se aventurar nas composições de toadas. Mais ou menos por ali, sua amizade com Enéas Dias já rendia frutos em trabalhos em dupla. Paralelamente, também em dupla, Enéas e Marcos Moura, caminhavam juntos. Muitas cervejas e mergulhos literários depois, hoje os “guardiões das tradições”, da tradução em Tupi do nome Baiás, carregam com orgulho nas costas a missão diária de desconstruir, decolonizar e honrar a luta dos povos originários. Da Amazônia e pela Amazônia. Por Raoni e com Raoni. Por resistência, como João reforça por várias vezes no bate papo de mergulho na toada de nominação.

“Raoni merece essa homenagem. Toda nossa referência. O Boi Garantido e Os Baiás buscaram esse conhecimento, mergulharam profundamente na fonte para escrever esse ritual. A inspiração é o próprio líder indígena Raoni. Essa é a nossa fonte de inspiração. Baseado no que esse grande líder vem travando ao longo dos anos, é um dos indígenas mais importantes do povo brasileiro. Ele, que vem lutando há anos pela preservação da Amazônia e dos povos da floresta”, pontua.

Ritual de nominação Kaiapó

Nominação Kaiapó foi composta por João Kennedy, Enéas Dias e Marcos Moura (Foto: Isabella Pina)

Pela televisão, no dia primeiro de janeiro de 2023, ao assistir Raoni subir a rampa do Planalto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os Baiás sabiam o que fazer. Aquele era o momento de levar o nome do “Guerreiro Onça”, Raoni, para o resto do mundo. Essa foi o primeiro lampejo de inspiração para o viria a se tornar a faixa 8 do novo álbum do Garantido, ‘Nominação Kaiapó’. Numa viagem ao tempo, em tradição secular, os Baiás nos carregam para dentro de um dos mais importantes rituais da etnia. 

Os primeiros arranjos da produção musical, assinada por Enéas, Valdenor Filho e Paulinho Du Sagrado, prenunciam o choro de um recém-nascido. Num piscar de olhos, estamos em 1930, o guerreiro Raoni que hoje conhecemos como maior referência de liderança indígena do país, é um menino. Os deuses sorriem para ele enquanto os versos bradam: “Serás o grande líder de nossa resistência”. Uma vida em lírica. 

“O ritual acontece quando a criança indígena nasce. Ela recebe diversos nomes provisórios de seus pais. Mas só vai saber de seu verdadeiro nome quando acontece esse ritual. Pode ser esse nome provisório ou, quando o pajé conversa com o mundo dos espíritos, e recebe o nome dessa criança. Nessa pajelança, esse nome é revelado. Após a revelação a criança passa a ter o seu nome real. O líder Raoni passou por esse ritual. Ali ele recebeu o nome de Guerreiro Onça. Ali ele recebeu a missão de lutar pelos povos da floresta”, explica Kennedy.

Mais do que um brado poético sobre tradição, passado e futuro, ‘Nominação Kaiapó’ é sobre luta. Sobre presente. Sobre o genocídio indígena e as batalhas exterminatárias que ameaçam a Amazônia. Uma assinatura, Os Baiás. 

“Nós vemos que os povos indígenas são explorados, sacrificados. As terras indígenas invadidas. As crianças e população estão sendo mortas. Aquilo é um genocídio. Imagens impactantes. Isso faz com que nosso coração sangre. E a única maneira que temos de levantar essa bandeira é através da nossa arte, utilizando o festival de Parintins, conhecido mundialmente, para que o mundo tome ciência da barbárie que esta sendo feita com os povos indígenas”.
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