Planejamento

Boi Garantido apresenta projeto de arena para as três noites do Festival

Roteiro de apresentação fará revezamento entre levantadores e tripas do boi, antecipará ritual do final para o início para passar mensagem de superação e 'derramará' banho de cheiro na arena

Laynna Feitoza - De Parintins
laynnafeitoza@acritica.com
23/06/2022 às 23:21.
Atualizado em 23/06/2022 às 23:52

Rubens Alves e Adan Renê, membros da Direção Geral de Espetáculo (DGE) do Boi Garantido (Arlesson Sicsu)

“É um grito para que o mundo respeite a Amazônia e ajude a proteger a Amazônia. Perdemos gente importante demais para nós e por eles vamos fazer esse festival, em defesa da Amazônia, dos quilombolas, dos indígenas e dos ribeirinhos”. Com essas palavras, o presidente do Boi-Bumbá Garantido, Antônio Andrade, resumiu qual será o clamor principal do Boi da Baixa de São José nas três noites do tema “Amazônia do Povo Vermelho”, a ser apresentado no 55º Festival Folclórico de Parintins, que acontece de 24 a 26 de junho.    

O projeto de arena do touro branco para os três dias de festival foi apresentado nesta quinta (23), durante coletiva de imprensa realizada no Kimura Park, em Parintins, pelo núcleo da Direção Geral de Espetáculo (DGE) do bumbá, composto por Mencius Melo, Rubens Alves, Allan Rodrigues e Adan Renê. O espetáculo foi projetado para ter 2 horas e 15 minutos de duração em cada dia.

O projeto de arena trabalhará com David Assayag a ser submetido às avaliações do item Levantador de Toadas na primeira noite; enquanto Edilson Santana será na segunda; e Sebastião Jr., na terceira. Também se revezarão os tripas do Boi Garantido: a primeira noite terá a apresentação de Arnaldo Buba; a segunda, José Batista; enquanto a terceira terá a performance de Denildo Piçanã. 

Questionado acerca da participação de Márcia Siqueira, oficializada recentemente como levantadora oficial de toadas do Boi Garantido, Mencius Melo afirmou que a cantora passa a compor momentos de cena do musical. “O nosso projeto caminhou para uma dinâmica e apontou os três [levantadores]. Em nenhum momento a DGE pensou em excluir por questões de gênero. Em alguns Autos do Boi Márcia é protagonista. Não temos medo de ser um boi que respeita a diversidade”, justifica ele. 

Também estiveram presentes alguns itens oficiais, como a Cunhã-Poranga Isabelle Nogueira, a Porta Estandarte Daniela Tapajós, a Rainha do Folclore Edilene Tavares, a Sinhazinha da Fazenda Valentina Coimbra, o Apresentador Israel Paulain, e o Pajé Adriano Paketá. 

Nas palavras de Mencius Melo, o Boi Garantido aportará na arena do Bumbódromo “extremamente humano”. “Ele está debaixo da copa das árvores. A Amazônia vista de cima nos interessa, mas tão importante é o que está debaixo da copa das árvores, o que vai além das folhas. A Amazônia que mora dentro da Amazônia”, afirmou ele, em uma alusão às populações que vivem na região. 

“Vemos cidades de porte médio e todas são Amazônias urbanas. Mesmo quando estamos no meio do engarrafamento da Djalma Batista, estamos na Amazônia, e essas Amazônias dialogam ou não. Nossa missão é fazer com que a Amazônia dialogue com Manaus e faça entender a importância de ser amazônida”, destaca ele. 

Melo afirma que, do ponto de vista prático, o Garantido operou mudanças. “Há uma nova ordem do Garantido. Estamos buscando sincronia no espetáculo acerca de críticas mais ácidas que recebemos: de que nós dávamos um show, mas de que não éramos um espetáculo. Agora, pensamos no início, meio e fim. Isso envolve luz, cor e técnica”, pondera ele. 

Outro ponto a ser salientado pelo Garantido foi o entrosamento das coreografias tribais com as coreografias urbanas, representadas pelos grupos manauaras Gandhicats e Arte Sem Fronteiras. “Prezamos pela troca de experiências e diálogos com os grupos, para trocar informações e fazer crescer o espetáculo do Boi Garantido na arena”, pontua Mencius. 

De acordo com Allan Rodrigues, o espetáculo pode ser um resumo de um grande manifesto artístico em prol dos povos da floresta. “Tivemos uma longa discussão sobre o qual seria o nosso tema, pensamos sobre qual seria a mensagem que o boi traria. Nossas sete horas e meia de apresentação não podem ser a ‘festa pela festa’, mesmo que ela seja emocionante. Ela precisa ter algo a dizer sobre a Amazônia e seus povos. Deixa claro que o Garantido tem um lado: a causa dos povos da Amazônia”, disse ele. 

Primeira noite

A primeira noite do Garantido vai falar do “povo vermelho como brasa”, os povos originários que estavam aqui antes da chegada dos europeus, comentou Allan. “Eles foram as principais vítimas de um processo de colonização genocida que aconteceu na nossa região”, disse ele, afirmando que a toada que irá abrir é “Pátria Indígena”. 

No segundo momento do mesmo dia, o bumbá vai trazer o uma confluência do negro e do indígena, que é o caboclo. A figura típica a ser apresentada nesta fase da apresentação é a do pescador. “Neste ano, Lindolfo faria 120 anos e, no dia de São João (24 de junho), padroeira do Boi Garantido, não podíamos deixar passar o Lindolfo, que foi um grande pescador. Essa é a capacidade de resiliência do caboclo, que é guardião da região”, apontou Rodrigues.

Na mesma noite, segundo Allan, será feito o ritual do Karõ Kraô, onde o Pajé travará uma luta espiritual para trazer de volta as almas que não eram pra morrer naquele momento. A alegoria de Karõ Kraõ tem 42 metros de boca de cena e deve chegar muito próxima da galera. Allan explica o porquê de o ritual, que costuma fechar a apresentação, ter sido passado para o início. 

“O Garantido foi pensado a partir de que nós superamos a pandemia e a morte, apesar de termos o omekarõ (lugar onde moram os espíritos de outro mundo). A toada preconiza este momento. O Garantido cura o mundo, ressurge e parte para a festa. Não queremos reproduzir clichês na arena. Superamos a pandemia com a ciência e a vacinação. Então o ritual simboliza a superação, que é a hora em que o boi vai para a festa”, complementa Mencius Melo. 

Saindo do universo indígena para o universo caboclo, o bumbá vai retratar, no encerramento da primeira noite, a lenda da cobra grande, com a toada “Quando Honorato Lutou com Caninana”. Os membros do DGE limitaram-se a não dar mais detalhes para cortar a surpresa da experiência, mas explicaram que, na lenda, há o duelo entre Honorato e Caninana, duas cobras irmãs. E nessa vitória, ela vai se transfigurar numa linda mulher, a ser interpretada pela Cunhã-Poranga Isabelle Nogueira.

Segunda noite

Conforme enfatiza Adan Renê, a segunda noite é uma aposta na arte como tradução do sensível. “Nesta segunda, temos uma história vista de baixo. Não queremos uma Amazônia visualizada por cima dos satélites, queremos a Amazônia real e falar desse povo invisibilizado pelo decolonial e patriarcal, o grito do povo negro da Amazônia. 

No momento, há dois grandes quadros cênicos. “Quando trabalhamos a presença negra no boi, sofremos retaliações, como se Lindolfo não fosse negro. O nosso presidente Antônio Andrade é negro. A invisibilização da presença negra ainda é forte e essa presença não está só no Boi Garantido, mas também no contrário”, discursou Renê. 

O primeiro ato da noite é um resgate da história da cabanagem, que trata da figura típica regional. “Vamos contar isso, onde se reencena essa cabanagem e se dá visibilidade ao povo vermelho da Amazônia, que é o protagonista”, comentou Adan. Já o segundo quadro da noite retrata a época de 1863, em que um viajante passa pela Amazônia e, no Grão Pará, se deparam com o registro de uma xilogravura, onde há duas pessoas negras que representam Pai Francisco e Mãe Catirina, e as pessoas brincando ao redor do boi. Vamos retomar isso, relembrando que esse folguedo é construído por mãos africanas”, destaca ele. 

Logo após, será aberto um espaço cênico para a lenda de Xandoré e Ticê, onde se conta que Xandoré era o Deus da ira e dono de todo o ódio. Isso era representativo da maldade plantada. Segundo a lenda, Xandoré era tão cruel que não poupava nem as mulheres grávidas. “Só Ticê é capaz de encantar e aplacar esse ódio de dentro dele”, diz Adan, lembrando que a Cunhã-Poranga interpretará Ticê. 

Já o ritual indígena comporta o tom de resistência e, para isso, foi escolhido “O fim do mundo Karajá”. Este mundo é constantemente destruído e criado, até que o homem aprenda as lições que precisa. 

Um destaque da noite é o resgate do Belezão (Boi Garantido em tamanho maior) para fazer o banho de cheiro. “Em 1984, Mariangela Faria, mãe de Paulinho Faria, recebeu visita dos torcedores inconformados e jogaram gasolina na piscina. Ela ligou para o filho e disse: ‘Se eles jogaram paus, vamos jogar banho de cheiro. Nisso, o boi gigante vai fazer o tradicional banho de cheiro na arena, com o aroma do patchouli”, pondera Adan. 

Terceira noite

Toda a terceira noite está fundamentada no pensamento do escritor Paulo Freire, e se chama ‘Utopia Vermelha’. O conceito da noite vem baseado na palavra “esperançar”, que é trabalhar  construir aquele mundo que você quer que aconteça. A noite 3 retrata a utopia de um mundo melhor.

O espetáculo da última noite abrirá com um balão, que trará a Rainha do Folclore Edilene Tavares. “Nesse conceito, você solta o balão junino para avisar que a festa vai começar. Iniciamos esse espetáculo folclórico. Quando a gente brinca, isso nada mais é do que um ensaiso daquele mundo que não é, mas que pode ser”, ressalta Adan. 

Outro momento traz a figura típica dos viajantes da Amazônia, que pegam os barcos e viajam pelos rios. “Vamos mostrar esse viajante indo pra Parintins. Vamos colocar a réplica de um Bumbódromo dentro do Bumbódromo, mostrando a chegada na ilha. Neste barco, A Porta-Estandarte Daniela Tapajós representa o torcedor apaixonado, e esse barco chama ‘Navio Motor Paulinho Faria’. Quem viaja traz uma esperança de que algo vai acontecer”, explica Renê. 

No segundo momento da terceira noite, o público vai viajar na história do Mamulengo, o tradicional teatro de bonecos do Brasil, muito comum no Nordeste. Neste momento, será criado um Mamulengo parintinense, alimentado com os sonhos dos bois que brincavam no Nordeste. 

Será executado ainda o Auto do Boi. “Porque, se não fosse o desejo de Mãe Catirina, não haveria festa”, comenta Adan. Depois, o espetáculo ruma para a lenda indígena do Senhor das Águas, que, segundo os membros do DGE, nos ensina que se não protegermos as águas, vamos sofrer grandes consequências. “No imaginário é Teperecique o Senhor das Águas, que vai se levantar e se irar contra a floresta”, pondera Renê. 

Por fim, o ritual Tenharim, a aldeia do fogo celestial, encerrará a terceira noite. “Os tenharim acreditam que, se não conseguirem resolver seus problemas, eles nomeiam um xamã para ir ao mundo dos deuses e trazer o equilíbrio. “Este ritual é um ritual tupi-guarani e tem os anciões da pele vermelha. O pajé, para entender a língua dos deuses, precisa ter o seu coração despertado. O rito de iluminação vem no coração do pajé. Ele luta contra o mal e resgata a cunhã-poranga”, completa Adan. 

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