Crônicas de Domingo

Mestre Aristóteles Alencar

Nos meados de 1950, Aristóteles defendia a instalação de novo sistema de ensino, de modernos métodos pedagógicos, mas defendia que cabia ao professor encontrar seu próprio método, ‘pessoal e original’

Robério Braga
roberiospbraga@gmail.com
14/05/2022 às 17:26.
Atualizado em 14/05/2022 às 17:26

Instituto de Educação do Amazonas (IEA) (Divulgação)

Tenho na memória, ainda vida, a imagem elegante, de porte alto, espaduado, sempre em paletó e gravata, refinado na educação, esmerado no vocabulário, comedido nos gestos, voz particularmente diferente e dicção clara e precisa. Raramente o vi em mangas de camisa, talvez em sala de aula privativa de sua residência, janelas abertas para o Largo de São Sebastião. Essa a figura do professor Aristóteles Comte de Alencar que carrego comigo.

 Foi ainda na primeira série ginasial do Instituto de Educação do Amazonas, o nosso primeiro encontro, quando saído da fase de calças curtas fazia pouco tempo, deparei-me com o ilustrado professor de Matemática, pronto para ensinar educar: ensinar valendo-se do quadro e do giz, dos exercícios e das provas; educar, pela conduta e pelo exemplo, porque fazia de tudo para demonstrar, em silêncio, como deveríamos nos comportar no colégio.

 Perfilava-se na mesma linha dos outros primeiros professores: João Chrysostomo de Oliveira, Rita de Araújo Calderaro, Garcitilzo do Lago e Silva, Roosevelt Braga dos Santos, Mirtes Henriques Trigueiro e Ruy Alencar, sob a direção de Lila Borges de Sá.

 Aristóteles era filho do professor João Luiz de Alencar e de dona Raimunda Ferreira de Alencar,estudou em Manaus e depois em Sergipe, no Colégio “Tobias Barreto”em Aracaju, e no Grupo Vigário Barroso,em São Cristóvão. De volta a Manaus,  estudou no Grupo Escolar “Arthur Bernardes”, depois denominado de “Euclides da Cunha”, no Ginásio Amazonense”, e, mais tarde, na Faculdade de Direito de Niterói vindo a formar-se na Faculdade de Direito do Amazonas, em 1943.

 Iniciou no magistério Colégio Cardeal Leme, no Rio de Janeiro, a convite de Edmundo Fernandes Levy que lecionava Língua Portuguesa. Retornando a Manaus, foi professor na Escola Sólon de Lucena em Matemática Comercial, Matemática Financeira e Estatística, no Instituto de Educação em substituição a Abílio Alencar, e, em seguida, na Escola Benjamin Constant, Dom Bosco e Colégio Brasileiro.

 Durante certo tempo lecionou em curso especial para o exame de admissão, ao lado de João Chrysostomo de Oliveira, 1954, com sala na Av. Eduardo Ribeiro, n. 716, sala A, na qual passou a atender, também, como advogado em 1955. Ele que na juventude encantara a sociedade e a amigos diletos como exímio pianista.

 Sua missão era o magistério e a administração do ensino público, seja quando foi diretor do departamento estadual de Educação e Cultura (1953-54) e depois da Escola Sólon de Lucena (1961), membro do Conselho Estadual de Educação (1963) e autor do projeto de criaçãodo curso comercial no Estado.

 Nos meados de 1950, Aristóteles defendia a instalação de novo sistema de ensino, de modernos métodos pedagógicos, mas defendia que cabia ao professor encontrar seu próprio método, “pessoal e original”, em modalidade conforme seu temperamento, sua personalidade e de acordo com sua vocação.

 Vinha de suas mãos, todos os anos, ao tempo dos desfiles cívicos comemorativos da autonomia política do Amazonas e da Independência do Brasil, o espadim que Maria Justina ou Ana Maria, minhas irmãs, usavam, garbosamente, comando pelotão de alunas do Instituto de Educação do Amazonas pela avenida Eduardo Ribeiro após inúmeros ensaios que se constituíam, sempre, em uma verdadeira festa. Sabendo que os usaria, mestre Aristóteles fazia poucas recomendações às quais acrescentava: “o faço com muito prazer, pois estará em boas mãos”, afinal, conhecia toda a família e prelecionara a todos os irmãos.

 Pareço ver, orgulhosamente, como elas se portavam com o espadim do mestre relustrando ao sol da manhã, ao tempo em que Lourenço, e depois eu mesmo, ocupávamos as mais destacadas posições na banda marcial, em farda de gala.

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