Artigo

O país que escolheremos

Reflexão de véspera do pleito aborda o papel do cidadão na construção do cenário político

Júlio Antônio Lopes
03/10/2026 às 11:16.
Atualizado em 03/10/2026 às 11:16

Na vespera da eleicao, artigo debate a escolha dos representantes (Foto: Diviulgação)

O Brasil chega às eleições mergulhado em um ambiente que, para muitos de nós, é de profunda insegurança jurídica e desordem institucional.

Não faltam responsáveis por termos chegado até aqui. A meu ver, uma parcela do Supremo Tribunal Federal (STF) tem contribuído para esse quadro com decisões que considero difíceis de compreender e, em alguns casos, incompatíveis com a necessária previsibilidade das instituições.

Executivo e Parlamento, guardadas as devidas proporções, tampouco podem ser poupados. Será, no entanto, que a responsabilidade termina neles ou alcança também um número imenso de nós, cidadãos?

O saudoso professor americano Stephen Covey, referência no campo do desenvolvimento pessoal e autor do best-seller Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes, popularizou uma reflexão segundo a qual apenas uma pequena parte daquilo que nos acontece estaria fora de nosso controle; o restante dependeria, sobretudo, da maneira como reagimos às circunstâncias.

Independentemente da precisão matemática dessa proporção, há nela uma ideia poderosa somos responsáveis, em larga medida, pelos caminhos que nossas vidas tomam. Escolhas têm consequências.

Elas constroem o presente e, silenciosamente, preparam o futuro. Na infância, boa parte dessas escolhas pertence aos nossos pais. Com o passar dos anos, entretanto, essa responsabilidade muda de mãos e chega inevitavelmente às nossas.

Escolhemos amigos, companheiros, profissão, lugar para morar, nossos cônjuges, nossos sócios; pensamos sobre onde investir dinheiro, tempo e energia. Tentamos proteger aquilo que conquistamos e proporcionar o melhor a quem está próximo de nós.

E, apesar de todo esse cuidado, ainda erramos bastante. Curiosamente, porém, quando chega o momento de uma escolha com consequências muito mais amplas, ou seja, a de quem exercerá o poder em nosso nome, não raro abandonamos critérios que jamais desprezaríamos em decisões muito menores. É aí, então, que o preço do erro deixa de ser apenas individual e atinge tragicamente a coletividade.

Somos nós que colocamos pessoas nos espaços de poder e somos nós que, muitas vezes por desatenção, conveniência, identificação superficial ou ausência de senso crítico, deixamos de examinar com o devido rigor quem receberá tamanha responsabilidade.

Depois vem o roteiro conhecido: primeiro o voto; algum tempo mais tarde, a decepção; em seguida, a indignação. E o ciclo pernicioso recomeça. Poucas decisões individuais possuem consequências coletivas tão extensas. O resultado delas aparece na economia e na segurança, mas também na escola, no hospital, no transporte, nas oportunidades de trabalho, na confiança nas instituições e, em última análise, na qualidade da vida. Política não é uma abstração distante. Mais cedo ou mais tarde, ela chega à porta de nossas casas, em nossos bolsos, nas gôndolas dos supermercados.

Por isso, tratar o voto com descuido é injustificável. Costuma-se atribuir a Gandhi a conhecida exortação para que sejamos a mudança que desejamos ver no mundo. A qualidade da política não depende apenas de quem pede o nosso voto. Depende igualmente de quem o concede. Nossos representantes podem ter muitas origens e muitas explicações. Uma delas, porém, estará sempre diante de nós quando nos olharmos no espelho...

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