Canto ancestral

Univaja quer traduzir canção cantada por indigenista e transformá-la em hino dos povos indígenas

Entidade tem visto a música sendo cantada em diversas homenagens a Bruno Pereira e Dom Phillips, mas também já busca uma forma de proteger legalmente os direitos autorais destes cantos indígenas

Michael Douglas
online@acritica.com
19/06/2022 às 19:42.
Atualizado em 19/06/2022 às 20:31

(Foto: Daniel Marenco/EFE)

Entoada por Bruno Pereira, indigenista morto no Vale do Javari, em Atalaia do Norte, no interior do Amazonas, um canto do povo indígena Kanamari tem ganhado o mundo. Com isso, a busca pelo significado desta canção, bem como uma maior divulgação dela, passando até por regravações, tem causado certa preocupação para a União das Organizações Indígenas do Vale do Javari (Univaja). 

Isso porque a música em si é muito antiga, não havendo uma “tradução oficial” dela, bem como um autor da letra e da melodia.  

“Esta tradução está sendo uma coisa muito delicada, porque tem palavras que possuem vários significados e é necessário levar esse canto para um ancião traduzir para o português. Os kanamaris mais antigos estão traduzindo-a para o português e tão logo fique pronta vamos divulgar na íntegra”, afirma assessor jurídico da Univaja, Yura Marubo. 

A canção, conhecida como “Wahanararai wahanararai / marinawa kinadih / tubarini hidja-hidjanih / hidja-hidjanih", teria sido criada pelos indígenas do povo Kanamari para o ritual da ayahuasca. O canto fez parte inclusive de uma coletânea lançada em 2013, intitulada “Tüküna Nawa Waik - Musicalidade Kanamari”, que ganhou o Prêmio Cultura Indígena daquele ano. 

Em entrevista ao jornal O Globo, o presidente do Conselho Distrital de Saúde dos Kanamari, Aldair Kanamary, afirma que a música cantada pelo indigenista – em vídeo gravado durante expedição em 2019 – conta a história de uma mãe arara chamando seus filhotes na porta do ninho para lhes dar comida no bico. No entanto, de acordo com Yura Marubo, esta afirmação ainda não pode ser completamente confirmada.  

“O mundo está pedindo essa tradução, e nós estamos trabalhando para que ela seja o hino nacional dos povos indígenas e a resistência. A Univaja está cuidando disso”, afirma Yura. 

De acordo com assessor jurídico da Univaja, o receio da união é que a música seja regravada sem os devidos créditos ao povo Kanamari, o que ela tenha os direitos autorais reivindicados por alguém que não seja desta etnia. 

“A Univaja vê com preocupação, e quer evitar que alguém fique com a autoria, o que não pode. Ela faz parte da cultura e da cosmologia do povo Kanamari, não havendo um dono. O dono é o povo Kanamari”, finaliza ele, que também afirma que a entidade também já trabalha em uma forma de proteger legalmente tais cantos. 

Homenagens 

O canto indígena foi entoado pelo rabino Uri Lam, nesta semana, durante uma reza no Templo Beth-Ei, espaço religioso judaico em São Paulo. O canto foi uma forma de homenagem do religioso para Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips. 

No sábado (18), o cantor Nando Reis, em show em Manaus, também cantou esta canção, fazendo várias homenagens a dupla morta no Vale do Javari, bem como tecendo críticas ao governo federal.

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