Zona Franca ameaçada

Se essa empresa sair daqui muitos produtores serão prejudicados, diz produtor de guaraná

Agricultores têm na Ambev uma das principais compradoras do produto, que movimenta a economia do município e sofrem as incertezas causas pelos decretos que cortam o IPI da ZFM

Malu Dacio
malu@acritica.com
07/05/2022 às 12:45.
Atualizado em 08/05/2022 às 14:02

Produtor Macilon Pena, de Maués, faz a colheita de guaraná, que passará ainda por um processo de secagem para depois ser comercializado (Foto: divulgação)

Distante 257km de Manaus,  Maués vive um clima de incertezas. Isso porque o decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro no dia  28 deste mês zera a alíquota do Imposto sobre Produtos Importados (IPI) para processos de bebidas não alcoólicas. A medida foi suspensa na sexta-feira (6) por liminar (decisão provisória) do ministro Alexandre de Moraes, do STF. No município, ao menos três mil famílias são produtoras de guaraná.

O agricultor José Cristo de Oliveira, 46, é presidente da associação dos agricultores de produtores orgânicos do município de Maués e conta que criou raízes na produção do guaraná desde quando me nasceu. “Trabalho com o guaraná desde cedo, aprendi com meus pais. Meu avô trabalhava com a produção,  passou pro meu pai  que me ensinou. Todos os filhos do meu pai trabalhamos com isso. São 12 irmãos trabalhando com guaraná no Município de Maués. Entre tios, primos e outros, somos em torno de 30 pessoas na mesma família. Meus 3 filhos trabalham com o guaraná e estudam”, lembra.

Em forma de  ‘puxirum’ (mutirão), o grupo  trabalha de forma conjunta desde o período da roçagem, preparação da área, colheita e até o último mercado. “Puxirum é um mutirão, uma união. É um momento compartilhado, sem pagar diária e cada um leva a sua contribuição, sua farinha e seu alimento e fazemos esse trabalho”, explica.

“Por exemplo, se hoje vamos trabalhar na minha propriedade. Todos vão comigo, no meu trabalho, mas quando for no do meu irmão, é a mesma coisa. Vamos lá, fazemos a contribuição pro trabalho na propriedade dele, nada é cobrado para quem trabalha no puxirum”, complementa. 

Presidente da Associação dos Agricultores de Produtores de Maués, José Cristo de Oliveira, disse que quem comercializa o produto com a Ambev será prejudicado se o decreto for mantido pelo STF (Foto: divulgação)

Associação

Cinquenta produtores trabalham na associação com José Cristo das 7h às 17h. O processo inicia com a colheita do fruto. “Tem que apanhar o guaraná, depois tem que descascar, lavar, depois aquece o forno e depois coloca no forno, deixar 5 horas. Temos comercializado em grão e quem compra transforma em pó. Geralmente é comercializado em torno de R$ 24 a R$ 30  e pode chegar até R$ 42 por kg”, afirmou o produtor.

Sobre o decreto presidencial,  Cristo defende que quem comercializa diretamente para empresas multinacionais  vão enfrentar dificuldades. “Se essa empresa sair daqui, muitos produtores podem ser prejudicados por faltar esse mercado que eles possuem. Muitos produtores em Maués já falam sobre isso. Escutamos sobre essa dificuldade e sabem que podem sentir esse impacto pela frente. Acredito que os impactos vão ser fortes porque não terão mercado aqui dentro do município”, salientou.

“Como morador, ouço de vários produtores e moradores porque o dinheiro que circula em Maués é o dinheiro do guaraná, da produção, dos produtores, a gente vai sentir no município. Geralmente os maiores produtores de guaraná são os pequenos produtores tradicionais”, disse.

Para Cristo, as associações precisam procurar outras soluções de mercado. “Existem outros mercados para serem explorados. Mas para isso é preciso incentivo aqui, para os produtores. É difícil que as próprias empresas que estão no município paguem valores justos ao produtor. Estamos procurando outros mercados”, disse o produtor.

Cristo conta que além dos concentrados, a associação que preside atua com o uso do guaraná em cosméticos e em outras formas como alimentos e etc. “Descobrimos e avançamos em outros mercados que pagam de maneira justa”.

“As notícias que chegam e mostram essas ações do governo deixam o povo revoltado. precisamos de uma mudança muito forte. Esse presidente que tá fazendo isso, vai atingir milhares de produtores, mexe no pão de cada dia, afeta a mesa das famílias.  Principalmente os pequenos produtores”, criticou.

“Para mim, o Bolsonaro é um dos piores presidentes que surgiu. Mexendo na nossa classe, não tem respeito por nós, pelos povos indígenas, prejudica nossa classe, os trabalhadores. Para nós, temos que ter mudança porque quem sofre somos nós”

, continuou.

“Penso que por morarmos na floresta, em harmonia com a natureza, futuramente nossas tradições vão se perdendo. Vejo que não há respeito pela nossa cultura. O exemplo são as invasões nos nossos territórios de madeireiros, garimpeiros. Estamos acostumados a viver na nossa tradição cuidando. Esse já se avançou muito nesse desrespeito e imagina no futuro. O que vai ser das nossas crianças e jovens?”, questionou.

'A palavra é incerteza'

Há 10 anos a principal produção na fazenda de Macilon Ferreira Pena, 40 anos, é do guaraná. “Para nós, produtores, a palavra é incerteza. Não sabemos quais vão ser os impactos para o produtor. Uns dizem que o impacto vai ser grande e outros ainda estão em cima do muro”, disse.

“Para mim, as grandes empresas vão sofrer. De qualquer maneira, acredito que eles vão precisar de matéria prima para produzir. Nós produtores corremos o risco de ser prejudicados por esse decreto na possibilidade do preço cair grandemente por não ter compradores”,

afirmou Pena.

Entretanto, o produtor ponderou ao dizer que a realidade do que vai acontecer com produtores, empresários e munícipes, nós é possível definir e que, infelizmente, só será possível descobrir quando acontecer algo, seja positivo ou negativo.

“A cultura do guaraná gera uma grande demanda de mão de obra na época de colheita e de plantio. Durante esse intervalo, o trabalho da mão de obra não é tão grande”, explica.

21 mil pessoas na safra

Em nota, o prefeito de Maués, Junior Leite , informou que o decreto no. 11.052 publicado pelo governo federal na noite da última quinta-feira, dia 28 de abril zerando o IPI dos concentrados, fere de morte a Zona Franca de Manaus, mas não é apenas isso.

“Em Maués ao menos três mil famílias são produtoras de guaraná, no período do fabrico esse número sobe para quase vinte mil mauesenses que se envolvem diretamente na colheita, beneficiamento e comercialização do produto, os impactos sociais como o aumento da vulnerabilidade econômica serão graves no nosso município”, diz trecho do texto.

“Estou em contato com nossos representantes na esfera federal, para que juntos possamos unir forças e minorar o impacto causado por este decreto”, finaliza a nota.

Busca de alternativa

Morador de Maués há vinte anos, Luca D'Ambros é vice-presidente da Cooper Maués e vice-presidente da Associação da Indicação Geográfica, órgão que regulamenta o selo da indicação geográfica do guaraná de Maués.

De acordo com Luca, em 2018 o INPI reconheceu que o guaraná de Maués, feito de uma certa forma, é um produto extraordinário e único, e que ninguém consegue fazer igual.

  

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Sobre a notícia da isenção do IPI, o italiano defendeu que sempre acreditou  que isso aconteceria. "Sempre achei que ia chegar um dia que isso fosse acontecer e para isso, aqui em Maués, precisávamos nos preparar para que na hora que acontecesse isso, a gente não fosse pego de surpresa”, disse.

Em Maués, o principal comprador de guaraná é a Ambev. A empresa tradicionalmente compra dos produtores centenas de toneladas de guaraná.

Luca conta que no último dia 4, quinta-feira, aconteceu uma reunião entre representantes da empresa e os produtores locais e que o tom da multinacional foi de tranquilidade aos agricultores.

“Justamente no dia 4 nós tivemos uma das reuniões periódicas que os produtores fazem com a Ambev, a gente conversou sobre essa isenção de IPI e a Ambev garantiu que os boatos, e ‘fake news’ dizendo que sairia do Estado são totalmente mentira porque a Ambev não vive só de incentivo fiscal”, detalhou. 

“A diferença de algumas empresas que se instalarem em Manaus para fazer concentrado exclusivamente por causa desse incentivo, se difere da Ambev que tem cervejaria, tem fábricas, tem a produção de concentrado, mas também tem a produção do extrato de guaraná e tem a fazenda de Maués”, disse o vice-presidente. 

Na conversa, foi tratado sobre o preço para ser trabalhado na produção desse ano, mesmo diante de incertezas. “Nós chegamos a conversar sobre preços porque nos últimos anos tivemos uma inflação bem elevada sobretudo nos itens que impactam diretamente nos produtores de guaraná como alimentação, gasolina, e transporte”, destacou.

“Mas nesse diálogo com a empresa foi bem tranquilo. A empresa entendeu todas nossas justificativas, a gente ficou negociando e chegamos a um preço bom para nós produtores”,

disse.

Luca defende que a dependência do polo de concentrados não pode continuar. “A gente ficar dependendo exclusivamente dos compradores de guaraná para o polo de concentrados é arriscado. E nós já há alguns anos começamos atividades pensadas em focar a outros novos mercados independente disso como no caso o guaraná com certificação orgânica”, salientou.

Para esse ano, a expectativa é de produzir cerca de cinquenta toneladas de guaraná. “Cada vez mais novos produtores entram no processo de certificação de um produto e um guaraná com selo de certificado orgânico. Esse guaraná pode dar um preço melhor, é buscado por vários compradores”, finalizou.

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